A morte representa a vida?

A morte é um assunto evitado por aqueles que a consideram um mistério indecifrável ou, na pior das hipóteses, o fim de tudo. Para a ciência, porém, muitas vezes, ela representa a vida. Investigando cadáveres sadios e doentes, médicos e cientistas desvendam os segredos da longevidade.

 

 

E quem não deseja se conhecer melhor e viver mais? Até 19 de dezembro, uma mostra que exibe cadáveres dissecados em poses atléticas, em Brasília, dá a noção de como funciona a complexa máquina humana. Embora a experiência possa parecer mórbida e sombria, bastam alguns minutos circulando entre o acervo de Corpos – A exposição para se render à possibilidade ímpar de viajar pelo próprio interior. Os 12 espécimes, juntamente com os 250 órgãos e partes que compõem nossa estrutura, possibilitam a apreciação em detalhes de nós mesmos. Ossos, músculos, particularidades do sistema nervoso, vasos sanguíneos, cérebro, coração e pulmão dão a perfeita dimensão de como somos e funcionamos.

Mantidos por meio da preservação polímera, um tipo de embalsamamento moderno aperfeiçoado pela equipe do médico e ex-professor de anatomia da Universidade de Michigan (EUA), Roy Glover, os corpos não apresentam qualquer odor e trazem detalhes destacados graças a destreza de dissecadores treinados para proporcionar o maior realismo possível ao visitante. Corpos – A exposição também exibe órgãos doentes, como um fígado comprometido pela cirrose hepática, um estômago com úlcera e um cérebro com derrame. Visitada por pelo menos 15 milhões de pessoas em todo o mundo, para Glover, que esteve em Brasília para falar sobre o trabalho, trata-se realmente de uma mostra sobre a vida.

“A exposição é uma oportunidade de aprender sobre o corpo humano, de entender como cuidar melhor da própria saúde. Quem a visita tem a mesma percepção que os médicos têm ao lançar mão da tecnologia em exames de imagem ou quando operam um paciente”, explica. Glover lembra que a técnica de preservação polímera vem passando por aperfeiçoamentos que permitiram uma conservação mais eficiente e de menor custo.

Os espécimes expostos viveram na China e morreram de causas naturais. Os cadáveres são doados voluntariamente pelas famílias com o propósito de educação e pesquisa. A equipe coordenada pelo médico americano mantém parcerias com faculdades chinesas de medicina. São nessas instituições que o trabalho de dissecação e conservação é realizado. A água do corpo é retirada e ele passa por todo um processo que pode levar até um ano. “Logo após a morte, os tecidos perdem a coloração e ganham um tom acinzentado. Depois de aplicada a técnica de conservação, realizamos uma pintura para deixar os músculos e órgãos próximos à cor que esboçavam anteriormente. A coloração também garante um aspecto mais aprazível ao visitante”, pondera Glover.

Detalhes

O sistema circulatório recebe um tratamento diferenciado e impressiona pela riqueza de detalhes. O médico explica que o interior da imensa teia de artérias, veias e capilares recebe a aplicação de um silicone colorido. A estrutura passa por um um banho químico identificado como corrosion casting, que remove os tecidos que a circundam mas deixa a rede sanguínea intacta. Assim, o visitante pode ter a exata dimensão de como a geografia humana é delicada e perfeita. No entanto, nenhum órgão, segundo o próprio coordenador da exposição, é mais difícil de preservar do que o cérebro. “Ele é composto principalmente de lipídios (gordura) e água. A etapa de desidratação que antecede a polimerização pode reduzi-lo significativamente se não for feita com muito cuidado. Para manter sua forma e tamanho real, mergulhamos a estrutura em acetona fria”, destaca.

Os olhos também são difíceis de preservar. Tanto que a maioria dos espécimes exibem globos oculares artificiais. Os mais curiosos podem conferir se a estrutura é a verdadeira ou não com uma caneta laser. Apontado para a esclera (superfície branca dos olhos) o instrumento faz com que o objeto de mentira brilhe. Sempre indagado sobre a opção de expor cadáveres em vez de modelos construídos, Glover é taxativo. “O corpo não mente. Estátuas foram usadas por muitos anos para disseminar conhecimento. O problema é que elas não permitem mostrar as alterações, as patologias e suas variações reais. São esses aspectos que nos fazem ter a noção de que somos únicos”, acrescenta.

É inevitável circular pelas galerias de Corpos e não se perguntar quem eram e como viviam aquelas pessoas cujos cadáveres percorrem o mundo para apreciação pública. Ao observar os espectadores e trocar comentários com os mais espontâneos, é possível perceber o quanto sabemos pouco a respeito da engrenagem que nos mantém vivos e que, quando falha, nos faz sucumbir. “É possível decifrar alguns aspectos da vida dos espécimes. Pulmões escurecidos indicam que se trata de um fumante. O câncer é facilmente identificável em alguns órgãos e o excesso de gordura aponta o sedentarismo e sobrepeso”, pontua Glover. Entretanto, aspectos humanos, como a personalidade e o caráter, ainda não podem ser preservados.

Fonte: Acesse Aqui – Diário de Pernambuco – Márcia Neri – Créditos de Imagem: Carlos Moura/CB/D.A Press

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