Morte e luto em tempos de pandemia

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Maria Júlia Kovács, em entrevista, fala sobre a importância de se conversar sobre eutanásia, distanásia, mistanásia, ortotanásia, suicídio, luto, bioética e o ensino da morte na formação de profissionais da Saúde.


Maria Júlia Kovács foi a entrevistada da vez do Diversidade em Ciência, programa da Rádio USP coordenado pelo querido amigo Ricardo Alexino Ferreira. Uma bela entrevista em que a psicóloga Maria Júlia Kovács, professora livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e por quem tenho grande admiração, falou sobre temas que deixam qualquer um desconfortável, ou seja, morte por eutanásia, distanásia, mistanásia, ortotanásia, suicídio assistido, e luto.

Você deve se perguntar como alguém pode se interessar pela morte e o morrer? Pois é, o espanto é geral e é de longa data, desde quando ela, em 1982, anunciou academicamente seu interesse por esses temas, considerados por muitos como mórbidos, pois o temor à morte é muito grande, inclusive por muitos profissionais que atuam na saúde e com o envelhecimento.

Seu interesse ao longo desse período a levou a produzir algumas obras. Na entrevista ao Diversidade em Ciência, algumas foram citadas. Dentre elas, Educação para a morte: quebrando paradigmas (Editora Sinopsys); Morte e existência humana: caminhos de cuidados e possibilidades de intervenção (Editora Guanabara Koogan); Educação para a morte: desafios na formação de profissionais de saúde e educação; e Educação para a morte: temas e reflexões (ambos pela Editora Casa do Psicólogo).

Fora o seu percurso acadêmico na área da psicologia da morte, ao integrar o corpo docente do Instituto de Psicologia em 1984. Cinco anos depois Maria Júlia Kovács defende a tese “A questão da Morte e a formação do Psicólogo” e daí em diante ela só se aprofundou, até a criação do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM), que eu tive o prazer de apresentar alguns anos atrás um trabalho sobre suicídio em idosos. O LEM surgiu com essa proposta, ser um espaço de fala sobre a morte, com crianças, adolescentes, idosos e profissionais da saúde.

Mortes legalizadas

Durante a entrevista, Maria Júlia Kovács fala sobre os diferentes aspectos da morte, as quais podem ocorrer por diversas formas: parada cardíaca, falência de diversos órgãos… Seu foco tem sido a morte com dignidade. A seguir ela apresenta à Ricardo Alexino as formas legalizadas da morte existentes hoje no mundo:

Eutanásia: que visa proporcionar a alguém uma morte indolor para aliviar o sofrimento causado por uma doença incurável ou dolorosa. No Brasil essa forma ainda não é legalizada, pois o país a entende como assassinato por misericórdia. Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Colômbia, Canadá já a legalizaram. Hoje se discute o suicídio assistido, que tem sido desenvolvido nos Estados Unidos e na Austrália. Na Suíça, o termo morte assistida é mais utilizado, em que a pessoa conta com ajuda para morrer porque não consegue fazer sozinha, seja por imobilidade corporal ou medicação a ser adquirida a fim de que possa morrer sem sofrimento. Trata-se de uma morte cuja decisão tem que ser da própria pessoa, e que fique claro que ela não está sendo induzida a tal ato por outras pessoas. Na Suíça, as clínicas onde o suicídio assistido acontece exigem que a pessoa prove que está com uma doença em estágio avançado ou em sofrimento psíquico intolerável.

Distanásia:  trata-se da obstinação terapêutica para adiar a morte iminente. É muito pouco conhecida como morte no nosso meio, mas bastante praticada. Resumindo, trata-se de uma pessoa que fica ligada em uma UTI a cheia de aparelhos, ou seja, é o prolongamento do processo de morrer de forma indigna.

Mistanásia: é a morte miserável, por omissão, por negligência, por incompetência ou insuficiência na assistência à saúde, em que uma pessoa morre, por exemplo, sem atendimento em um hospital, por questões financeiras. É o que ocorre com a Covid-19, de as pessoas morrerem na fila de um hospital sem nenhum cuidado, sem oxigênio, sem respiradores. Esse tipo de morte, que alguns a chamam de morte social, ocorre há muito tempo, mas que se escancarou com a pandemia, com a falta de leitos, insumos, etc., em que os mais desiguais acabam sofrendo mais.

Ortotanásia: é a morte natural, sem interferência da ciência, permitindo ao paciente terminal morte digna, sem sofrimento, deixando a evolução e percurso da doença. Alguns a chamam de “a boa morte”.

Maria Júlia Kovács também falou sobre luto e bioética e a necessidade de se falar sobre o ensino da morte na formação de profissionais da Saúde, e das diretivas antecipadas de vontade, quando a pessoa expressa quais tratamentos deseja ou não receber em momentos em que estiver incapacitada.

Na realidade, desde o começo, sua preocupação é a morte com dignidade!

Foto de destaque: USP Imagens


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Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. Estudiosa do Envelhecimento e Longevidade desde 2000. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação, e é pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE), ambos da PUC-SP. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Latinoamericana de Psicogerontologia (REDIP). E-mail: [email protected]

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