Morte como descanso eterno

O tema da morte é assunto de grande preocupação de todos os seres humanos porque marca o fim da vida terrena e o trânsito para a vida eterna. Este é o tema do Cadernos Teologia Pública, em sua 108ª edição, que revisita a temática da morte no antigo Egito e nos antigos gregos até o início do Cristianismo, com o tema dos sufrágios pelos falecidos como parte da oração eclesial.

Luís Inacio João Stadelmann *

 

morte-como-descanso-eternoA concepção da vida eterna como «descanso» representa um grande avanço entre os relatos acerca das
 conjeturas e especulações em voga nas culturas antigas 
sobre a vida no além, passando por diversos estágios
 até chegar à explicação dos autores bíblicos. Este pro
cesso faz passar diante dos nossos olhos um desdobra
mento de teorias e projeções, algumas fantasiosas, outras de origem da revelação divina, sobre novas formas 
de vida após a morte. Começando com considerações 
sobre a vida eterna, há uma série de projeções com
 base na ponderação sobre aspectos da vida sensível na
 terra sendo projetados para a outra vida. Nisso entra
 em jogo uma componente muito relevante que envolve o desejo de compensar pelas perdas sofridas com a morte.

Para mostrar a relevância desta temática na antropologia dos povos antigos, mencionamos o mito da imortalidade natural, em voga entre os egípcios da Antiguidade, mas que curiosamente nunca foi objeto de uma refutação explícita no AT. Isso se explica pelo fato de haver uma oposição radical entre duas antropologias, porque a antropologia hebraica advoga a unidade substancial da pessoa composta de duas substâncias incompletas (corpo e alma), mas a pessoa humana é uma substância completa. Por outro lado, a antropologia egípcia admite três elementos: corpo, alma vital e alma espiritual como “alter ego”, como se pensava sem exceção ao longo de toda a tradição de ensino na pedagogia egípcia antiga.

Essa alma separava-se do corpo na hora da morte e seguia um itinerário, saindo do mundo ao escapulir do sepulcro onde jazia nas trevas e na poeira. Dali ela era transferida para a região astral “Duat”, localizada ao Sul da eclíptica, fora da rota do sol e, por isso, uma região de escuridão total e de frio intenso no espaço sideral. Era a região das sombras na mitologia egípcia, onde eram relegados os falecidos. A alma estaria a caminho do «Paraíso celeste», onde se metamorfoseava, significando um espírito bem-aventurado. A vitalidade da alma se visualizava pelo brilho de uma estrela, cujo aparecimento periódico no céu era designado pelo verbo akh com duas conotações: “viver” e “surgir” no firmamento.

Aliás, a teoria de alguém poder transformar-se por meio de uma metamorfose equivale a manifestar-se num sósia. Não faltam, porém, dúvidas sobre a realidade desta mudança, afetando a própria fé, e que precisava ser confirmada continuamente por uma prova ocular de alguém olhando para o horizonte na direção do ocidente, para que possa constatar se alguém se transforma antes de se perder de vista.

Para compensar as perdas sofridas com a morte, quando o ser humano tinha que deixar a vida sensível, os egípcios inventavam o retorno esporádico da alma à múmia, depositada no sepulcro. Muito significativo é o fato de que nas pirâmides há um vão muito estreito de ventilação no teto da câmara mortuária das pirâmides através do qual a alma podia manter o contato em sua visita esporádica chegando perto dos restos mortais do falecido. É que esta alma precisava receber um alimento para continuar a viver no além.

Esse alimento era representado simbolicamente por clichês de oferendas, cujas imagens eram esculpidas na lápide ou reproduzidas em pinturas na parede da «mastaba» ou do mausoléu, já que as sombras dos mortos tinham mera consistência imaterial e, por isso, bastava uma reprodução pictográfica junto ao túmulo para comunicar-se com as almas. Tinham a finalidade de produzir o mesmo efeito das preces dos fiéis ou algum dos ritos fúnebres em sufrágio pelos falecidos. Aliás, é por meio das crenças religiosas ou votos do tipo mágico, e não por argumentos filosóficos, que os antigos egípcios fundamentavam a certeza da perenidade da alma post mortem.

Uma das condições indispensáveis para a sobrevivência da alma no além numa vida feliz era “tornar-se um espírito”. Somente ele é que podia escapar do reino das trevas, onde os condenados eram obrigados a “andar de cabeça rente ao chão” numa vereda ladeada de demônios e feras vorazes. Outras concepções representavam o caminho que subia por uma escada cada vez mais íngreme até o céu. Esta “escada” ocorre nos textos das pirâmides designando uma escadaria na galeria das tumbas mortuárias.

Havia também o anseio dos defuntos de embarcar no sagrado “barco do Sol” que singrava pelas águas do “Nilo no firmamento”, durante a noite, ao passo que durante o dia desfrutava da atmosfera envolta em luz e pela camada do ar. E já que a configuração da alma do falecido variava de acordo com os meios de locomoção de que dispunha extra-tumba, podia optar também pela escolha de asas para voar até o céu. O ponto de chegada era o firmamento, onde precisava passar por uma metamorfose que o tornava cada vez mais luminoso, isto é, ganhava o brilho de uma estrela no céu.

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* Luís Inacio João Stadelmann é doutor em Línguas e Literatura Semíticas e professor na Faculdade Católica de Santa Catarina – FACASC

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