Morar e habitar na velhice. Onde é a minha casa?

Relato sobre morar e habitar na velhice serve de motivação para aqueles que trabalham em ILPIs pelo Brasil, entendendo que essas instituições podem – e devem – ser locais de vida, e não de morte. 

 

O ambiente familiar que, anteriormente, para muitos, era considerado o melhor lugar de moradia para a velhice, hoje já não tem tanta significância, pois vem surgindo um grande número de idosos que moram sozinhos e que particularmente não querem morar com seus familiares, garantindo, assim, uma sensação de autonomia e de independência frente a estas pessoas.

Também não podemos nos esquecer que o perfil das famílias invariavelmente vem sofrendo transformações, com uma redução do número de filhos e com a não disponibilidade das mulheres para tal função, pois antigamente estas acabavam por ser as cuidadoras dos membros familiares mais frágeis. Assim, a Instituição de Longa Permanência (ILPI) se configura como uma alternativa de moradia para idosos que demandam cuidados específicos e técnicos.

Foto: Alcides Freire Melo

A título de exemplo, na ILPI em que trabalhei nos atendimentos a famílias que procuravam a instituição, verifiquei poucas famílias com mais de 3 filhos, sendo que, em alguns casos, estes já haviam falecidos, pois também já eram idosos.

Em um dos muitos casos que chegaram à instituição, estava o da Sr.ª F, que, já nos seus 82 anos, era viúva. Havia sido dona de casa a vida toda, vivia em sua casa com uma empregada doméstica. Sr.ª F possuía mobilidade relativa, leve perda cognitiva e quadro depressivo severo. A família já não sabia mais o que fazer para que a Sr.ª F. superasse aquele quadro depressivo e, por conseguinte, pudesse ter uma vida mais proveitosa e prazerosa junto a seus familiares. Estes não entendiam como a Sr.ª F, mesmo estando rodeada pela família, em sua casa e com uma estrutura adequada de cuidados, não conseguia reagir e ser feliz em seu próprio lar.

A Sr.ª F tinha duas filhas, que, sendo muito tradicionais, não poderiam sequer conceber a possibilidade de uma outra forma de morar para sua mãe que não fosse a sua própria casa ou a casa de uma das filhas, assim como muitas famílias idealizam. Uma de suas filhas, a Sr.ª M, a mais nova, procurou a instituição a fim de conhecer o modo como funcionava aquele lugar, pois em sua concepção, imaginava ser um lugar de abandono e sofrimento, um julgamento que, na maioria dos casos, permeia o imaginário popular quando se trata de Instituições de Longa Permanência para Idosos. Este modo de morar é uma das possíveis formas de moradia para idosos, mas, em razão de sua trajetória histórica, apesar de ter havido muitas transformações ao longo do tempo, ainda carrega um significado de abandono, morte, isolamento social e, em alguns casos, maus tratos.

Mas a Sr. M, vencendo seus medos e fantasias, marcou uma entrevista e, no dia e hora marcados, chegou à instituição. Assim que sentou em frente à mesa em que eu a recebi, disse, chorando, que estava se sentindo muito culpada por estar ali e por pensar na possibilidade de a mãe viver naquele lugar. Havia ainda mais um fator que a angustiava: ninguém de sua família tinha conhecimento de que ela havia procurado a instituição, por esta razão, ela estava temerosa de que algum dos familiares descobrisse que ela esteve em visita. Acolhi-a e disse-lhe que não se preocupasse, pois o intuito da visita seria apenas conhecer o trabalho desenvolvido e obter informações acerca do modo como tudo funcionava, sem estabelecer qualquer compromisso. Iniciei minha fala afirmando que nem sempre estes locais têm um efeito negativo sobre os que lá vivem, pedi-lhe que se acalmasse, pois não havia com o que se afligir.

Informei-lhe as condições sobre o ingresso na instituição, como trabalhávamos e mostrei-lhe os espaços físicos, os quartos e as áreas comuns. Ela foi se tranquilizando a cada idoso que encontrava no caminho; observava tudo como que se buscasse confirmar o que havia imaginado, isto é, sofrimento, abandono. Contudo, o que viu foram idosos integrados socialmente, conversando nas áreas comuns, jogando ou ouvido música. Os quartos individuais, apesar de os móveis pertencerem à instituição, tinha pequenos toques pessoais que transformavam aqueles espaços na casa de cada um.

Fato é que a Sr.ª M encontrou idosos com diferentes graus de dependência, desde aqueles mais independentes até os dependentes que faziam uso de bengalas, andadores e cadeiras de rodas. Todos ali se encontravam inseridos naquele espaço que, para muitos, significava mais do que a casa que haviam deixado para trás, pois era um lugar que oferecia dignamente a possibilidade de dar continuidade à sua existência. Aos poucos, ela foi entendendo que ali era um local de cuidados e atenção, que garantia a estes idosos segurança e cuidado adequado, objetivando atender às dificuldades próprias daquela faixa etária.

Passadas algumas semanas, a Sr.ª M entra em contato comigo e declara: “vou bancar a ida de minha mãe para a instituição, não posso mais ver ela triste e sem vontade de viver, será uma tentativa para que ela tenha cuidados especializados e, quem sabe, melhore. O “bancar” ao qual ela se referia significava que havia comprado uma briga junto aos familiares, levando a mãe para uma instituição por sua própria conta e risco.

Todos os trâmites para a entrada da Sr.ª F foram acertados; chegou o dia de ingresso na instituição e a Sr.ª F chegou quase que carregada pela filha e pela empregada que trabalhava em sua casa. Foi devidamente acolhida pelos profissionais da instituição, sendo encaminhada para o quarto que ocuparia. Ficou sentada no sofá que lá havia, com um olhar triste e perdido. A filha chorava e repetia que, se algo acontecesse à sua mãe, não se perdoaria. Mas que estava segura de que tinha que tentar reverter a atual situação em que a mãe se encontrava, que era de tristeza e depressão.

A Sr.ª F iniciou, assim, sua trajetória no interior dos muros da instituição. Ela foi avaliada e medicada pelos profissionais médicos e encaminhada para as atividades sociais e terapêuticas propostas para seu caso específico. Deste modo, ela foi criando uma rede social de pessoas, dentre profissionais da instituição e idosos que lá moravam, de maneira que, em dois meses, a Sr.ª F havia se transformado em outra pessoa. Não perdia sequer um evento social, fazia ginástica com as fisioterapeutas, frequentava as oficinas de arte e memória, conversava e falava de como foi transformador ela ter entrado na instituição. Seu humor teve uma melhora de 90 %; obviamente, havia dias em que encontrávamos a Sr.ª F mais calada e recolhida, mas, na maioria dos dias, ela estava calma, tranquila e participativa. Começou também a fazer parte de um grupo de 3 senhoras da instituição que, nas tardes calmas, ficavam conversando e falando da vida, dos netos, dos filhos e de tudo o que acontecia naquele lugar.

Um dia, em conversa com a Sr.ª F, perguntei-lhe como teria se dado aquela transformação na vida dela, pois havia chegado quase sem vida e, agora, estava viva e integrada ao grupo. Ela me respondeu:

Fui mãe e dona de casa por 60 anos, vivia para meus filhos e marido, e, quando fiquei viúva e meus filhos, já casados, saíram de casa, eu fiquei sozinha e a vida passou a não ter mais sentido. Quando cheguei à instituição, aos poucos, fui fazer as coisas que eu gostava, sem obrigações de cozinhar e atender aos outros (filhos e marido); aqui, as coisas são o que eu quero. Adoro não ter mais o compromisso de atender aos outros, fora que, aqui, consegui ter amigos, passear, sair, jogar e me divertir. Claro que também tem o seu lado negativo, o de ver gente doente e dependente, mas, assim mesmo, sinto que tem vida. Não quero mais sair daqui, já falei com minhas filhas que não volto para minha antiga casa e nem quero a casa delas.”

Após seis meses na instituição, a Sr.ª F era outra pessoa; andava para todo lugar, sempre em companhia das amigas e sentindo-se cuidada e acolhida. A família, que aos domingos levava a Sr.ª F para almoçar ou para passear com ela, também estava aliviada e a culpa havia diminuído sensivelmente. Em muitas ocasiões presenciei a visita dos netos e dos filhos, todos juntos, em momentos de descontração e de risadas, demostrando uma relação mais leve e sem culpa para a família.

Este é um caso em que a instituição cumpriu seu papel de apoio à família e ao idoso na tarefa de cuidar, dando dignidade e possibilidade de qualidade de vida na velhice, bem como proporcionando tranquilidade aos familiares.

Diante deste relato, é possível verificar que o conceito de morar com dignidade extrapola o conceito material, pois não é suficiente que a estrutura seja segura e que atenda às regras de edificação, higiene e segurança, pois isto a Sr.ª F tinha em sua antiga casa, rodeada pela família e por cuidados. É precisamente por esta razão que morar ou existir em um espaço está intimamente associado aos aspectos subjetivos e objetivos desta relação.

Tenho plena consciência de que a instituição à qual faço referência é um local diferenciado, em que o cuidado está baseado em princípios gerontológicos.

Espero que este relato possa servir de motivação para aqueles que trabalham em ILPIs pelo Brasil, entendendo que essas instituições podem – e devem – ser locais de vida, e não de morte. Espero ainda, que a velhice não seja cuidada apenas com olhar médico, mas com intervenções fundamentais, como a promoção de convívio social e familiar que, somada a cuidados básicos de qualidade, pode transformar a velhice de muitos que procuram esta modalidade específica de moradia.

 

 

 

Margherita de Cassia Mizan

Margherita de Cassia Mizan

Margherita de Cassia Mizan – Psicóloga com Especialização em Teoria Psicanalítica-PUCSP, Terapeuta sistêmica Casal e Família _ UNIFESP-SP, Especialista em Gerontologia Hospital Israelita Albert Einstein, Especialização em Psicogerontologia – Instituto Gerações, Mestre em Gerontologia Social PUCSP, com quase 14 anos de trabalho em ILPI, referência na cidade de São Paulo. Idealizadora da Empresa Senior Services Gestão e Cuidado a Idosos, com 6 anos no mercado. Email: mcassia@seniorservices.com.br

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