Moradias para idosos podem representar qualidade de vida?

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É preciso repensar as alternativas de moradias para idosos e criar a ideia de qualidade de vida ao longo de todo o ciclo.

Maria Luisa Trindade Bestetti (*)


Há muito preconceito quando o assunto é moradia institucional, pela lembrança negativa de antigos asilos que representavam solidão e abandono. Seria importante que se desenvolvessem empreendimentos que criassem ideias positivas sobre essa solução, embora seja necessário repensar todo o sistema. Para Jack Cumming, a ideia de padronização proposta por Colin Milner, fundador do Conselho Internacional de Envelhecimento Ativo, deveria ser retomada como uma reflexão interessante.

No Brasil, a resolução RDC 283:2005 já trouxe essa discussão, promovida pelas instituições que experimentam as limitações que são impostas por um único padrão que orienta o funcionamento de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI). Mesmo sendo importante para estabelecer parâmetros necessários ao cuidado em moradias coletivas, urge a ampliação com base nessas experiências para que se ampliem as alternativas, especialmente considerando a longevidade crescente e a preferência por envelhecer na comunidade – aging in place.

Comunidades multifamiliares, semelhantes a muitos empreendimentos para idosos, com conveniências, comodidades e suporte médico no local, podem atender a essa necessidade. Os edifícios multifamiliares são muito mais ecológicos do que as residências unifamiliares. E a convivência congregacional se presta à socialização e até ao coworking. 

Já encontramos propostas de condomínios para idosos que sugerem essa possibilidade, mas direcionados a receber somente indivíduos desse segmento, com pouca ou nenhuma interação com outras gerações, exceto quando recebem visitas ou saem de casa.

A convivência em espaços comuns da moradia oferece condições de exercer a autonomia de acordo com o desejo de cada morador, possibilitando a integração intergeracional à medida do desejo de cada um.

O crescimento de diferentes alternativas pode gerar redes que se destaquem no mercado, tal como ocorre em hotéis e restaurantes implantados em várias regiões do país e adequados para o clima e a cultura de cada local.

Pode-se imaginar uma operadora nacional criando tal oferta de habitação e anunciando-a de forma eficaz para criar uma marca de habitação nacional popular construída em substância e avidamente adotada pelo público. Esse modelo de vida natural e intergeracional pode muito bem atrair um público que se beneficia não apenas da revolução da longevidade que aumentou drasticamente a expectativa de vida em nosso tempo, mas também da revolução da vitalidade que está criando uma nova era com idosos vitalizados e ativos, envelhecendo graciosamente.

É preciso repensar as alternativas de moradia e criar a ideia de qualidade de vida ao longo de todo o ciclo, em projetos que permitam agência e pertencimento de moradores idosos e estimulem a autonomia e a alegria de viver.

(*) Maria Luisa Trindade Bestetti é arquiteta e pesquisa sobre as alternativas de moradia para idosos no Brasil, especialmente sobre a habitação mas, também, o bairro e a cidade que a envolvem. É professora doutora no Curso de Gerontologia da Universidade de São Paulo desde 2009, com disciplinas de Gestão de Projetos e Empreendedorismo na graduação e Habitação e Cidade para o Envelhecimento Digno no mestrado. Texto reproduzido de seu blog “Ser Modular – Harmonizar todas as etapas da vida, atendendo desejos e necessidades de moradia na velhice”.

Foto destaque de Anna Shvets no Pexels


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