Modernidade e gestão da velhice

Os autores Figueiredo Santos e Fernanda Encarnação, constroem o seu pensamento neste livro em torno de duas figuras essenciais contextualizadoras da obra: por um lado, a racionalização da experiência que com ela procuram que dê conta dos valores, normas e ações apropriados pelos poderes institucionais que gerem a velhice; por outro, a construção da identidade do idoso no seio da experiência moderna, reflexão com a qual procuram iluminar os elementos de estruturação/desestruturação da sua identidade, uma vez subordinada a esses espaços do poder.

Luís Carito *

 

modernidade-e-gestao-da-velhiceEste trabalho, sem dúvida significativo para a compreensão do campo da “terceira idade”, isento dos impressionismos românticos com que habitualmente o tema é profusamente tratado, apresenta uma reflexão cruzada entre a prática quotidiana dos autores e uma reflexão teórica entrecortada por uma perspectiva sociológica ecléctica, mas não heteróclita, num trabalho que evidencia na sua análise as influências de algumas teorias sociológicas contemporâneas, instrumentos conceptuais e métodos que reflectem o campo de dispersão actual da sociologia.

A experiência social da velhice, no seio da sociedade moderna, não é patenteada nesta obra por razões aleatórias. Com efeito, trata-se de um empreendimento inovador, digno de registo, já porque os pesquisadores se dedicam a teorizar as suas práticas profissionais com o objectivo de as dotarem de uma consciência própria de quem persiste em dar um sentido à sua acção, numa época cortejada por uma crise que parece radicar na própria experiência moderna e se mostra no abalroamento dos fundamentos de todas as acções, ainda porque têm a coragem de, por essa via, procederem indirectamente a uma autocrítica do e no seu próprio campo de intervenção social.

Na sua produção está implícito um certo criticismo quer à sociedade civil, quer ao Estado- Nação, quer ainda à própria solidariedade social, tomada como metáfora de que o campo assistencial se apropria. Procuram resgatá-la na sua génese e reconstituí-la na sua síntese, como um todo que transversaliza a sociedade através do Estado-Providência.

Os autores constróem o seu pensamento em torno de duas figuras essenciais contextualizadoras da obra: por um lado, a racionalização da experiência que com ela procuram que dê conta dos valores, normas e acções apropriados pelos poderes institucionais que gerem a velhice; por outro, a construção da identidade do idoso no seio da experiência moderna, reflexão com a qual procuram iluminar os elementos de estruturação/desestruturação da sua identidade, uma vez subordinada a esses espaços do poder.

Discutem, com hiperlucidez, uma cultura naturalizadora dos modelos de vida asilar implementados pela modernidade, com o mérito de proporem esboços alternativos ao modelo assistencial dominante, preconizando transversalizá-lo, em esquisso, por uma lógica autonomista que redima a categorização social da velhice que se tem implicado no conceito deficitário de homem e de humanização da vida.

A velhice tem sido ignorada como objecto de reflexão sociológica e de investigação, em especial porque é considerada como algo que se encontra situado no lado que se avalia de modo negativo, numa dicotómica sobreposição de convenções tradicionalmente aceites, como sejam: o velho e o novo, a actividade e a inactividade, o económico e o não económico, dicotomias seguramente inapropriadas que, de forma errónea, têm funcionado como sustentáculo ao pensamento forjado na sociedade ocidental.

Não raro, este criticismo ataca o puro egoísmo, a sujeição ao outro e confere-nos a consciência de que, não raras vezes, de práticas sociais tomadas como racionais, não emergem senão irracionalidades ou, no mínimo, perversidades.

Os autores detêm-se numa reflexão que procura, através da história, esclarecer a fragmentação da unidade da vida, conservando uma constante reserva, senão mesmo suspeição, uma distância crítica em relação aos poderes institucionais, às práticas sociais dominantes e às lógicas que os constróem. Recusam uma sociedade reduzida a não mais que um mercado de oportunidades, a actores sociais cujos papéis ou valores não tenham coerência interna.

Pode-se discordar ou concordar com a sua narrativa da experiência de densificação social da velhice, com os modelos de interpretação dessa experiência, com a maneira como os autores lêem as condutas sociais, que combinam aproximações fenomenológicas, weberianas e neo-críticas. Não se pode é ficar indiferente ao facto do seu trabalho constituir um “levantar de véu” a muitos espaços de gestão da velhice que se rotinizam, que se instalam, que se entrincheiram num autofinalismo que, paradoxalmente, pode acabar por se tornar perverso para com aqueles que discursivamente procuram conferir apoio assistencial e para quem tudo vai bem.

É neste contexto que o Centro Regional de Segurança Social do Algarve e eu próprio não conseguimos ficar indiferentes a esta obra, por julgarmos que a mesma, ao construir raciocínios e críticas pertinentes, confere um valioso contributo ao alicerçamento da preocupação em manter em aberto um debate mais geral que é o da pobreza nas sociedades à beira da pós-industrialização e uma discussão mais peculiar que estruturalmente se lhe associa – a da problemática social da velhice.

Que o leitor possa, assim, entender esta publicação patrocinada pela Segurança Social do Algarve como um preito de homenagem a todos aqueles cuja sensibilidade apela à preocupação, de um modo solidário, com a construção de um sentido de partilha comunitária que faz com que nos sintamos indivíduos livres, ao entendermos a liberdade como a concessão à sociedade de uma parte da nossa individualidade, procurando erigir uma vontade geral.

Não resistindo à antecipação da citação de Rorty, feita pelos autores na conclusão da sua reflexão, irmano-me com a ideia de que “Na minha utopia, a solidariedade humana seria vista (…) como um objectivo a atingir (…) pela imaginação, pela capacidade imaginativa de ver em pessoas estranhas companheiros de sofrimento. A solidariedade não é descoberta pela reflexão, mas sim criada (…) com o aumento da nossa sensibilidade aos pormenores específicos da dor e da humilhação de outros tipos, não familiares, de pessoas. Uma sensibilidade assim aumentada torna mais difícil marginalizar pessoas diferentes de nós por se pensar que «eles não sentem da mesma maneira que nós sentiríamos» ou que «terá sempre de haver sofrimento e, assim sendo, porque não havemos de os deixar a eles sofrer?»”.

Leia o livro na íntegra Aqui

 

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