Minha experiência na Universidade Aberta à Terceira Idade da USP

No HU fomos tratados como pacientes quando tentávamos nos matricular na Universidade Aberta à Terceira Idade da USP; na FEA, como calouros. Uma mudança radical. Não dá para comparar uma atendente de faculdade com uma de hospital. São profissionais voltados para questões bem diferentes.

Por Manuel de Barro

 

Inscrição – parte 9

O que me levou de volta à sala de aula, aos 69 anos, foi a pressão do meu médico, da minha psicóloga e dos meus familiares. Eu precisava urgentemente praticar atividades intelectuais para prevenir meu cérebro de demências. O geriatra havia me diagnosticado com TNL, Transtorno Neurocognitivo Leve, Provável Doença de Alzheimer. A vaca estava a caminho do brejo.

Para despertar meus neurônios, ganhei do meu filho um computador e aprendi, entre outras coisas, a pesquisar rotas no google. Descobri que da Vila Cachoeira, onde moro, na Zona Norte, para a USP-Leste, onde me matriculei em dois cursos, Anos 70 e Turismo Social, ambos voltados para ativar a memória, a melhor alternativa era mesmo ônibus, Metrô e trem. Para a USP-Butantã, onde eu pretendia fazer mais dois cursos, Encontros Culturais e Longevidade e Cidadania, ônibus, Metrô e ônibus. Para os outros dois locais onde eu teria um curso de escrita e outro sobre Envelhecimento Ativo, ônibus e Metrô,

Meus amigos do clube se interessaram pelos cursos, mas acharam tudo muito longe. De fato, para chegar no horário na USP-Leste ou na USP-Butantã era preciso sair de casa com no mínimo duas horas de antecedência. Longe, é verdade, mas todos passam horas e horas sem fazer nada no Centro Comunitário. Alguns jogando conversa fora no bar.

A verdade é que nem havia me matriculado ainda em todos os cursos e já sentia minha vida mudar. Passei a usar o computador com frequência e ver as notícias pela internet. Atualmente tenho mais assuntos para conversar com os colegas do que quando lia jornal.

– Maurício, pode cancelar a assinatura do jornal.

– Tem certeza, pai.

– E a revista também. São duas porcarias.

Nunca imaginei que depois de velho passaria tanto tempo desperto diante de um ecrã. A televisão me dá sono, mas diante do computador permaneço ligado. Os colegas do clube passaram a me chamar de Manuel Conectado depois que passei a levar o computador para lá.

– Dona Jurema, qual é a senha do Wi-Fi?

– Vou anotar porque são muitos números…

Alimento meus companheiros com notícias fresquinhas graças a internet.

– Essa coisa de “aifai” sempre existiu – disse um companheiro sabichão. – Não tem nada de novo nisso, Manuel. Antigamente os aparelhos de som já vinham com “aifai” e não havia essa coisa de senha.

– É verdade – concordou um companheiro. – Em 1970, quando ganhei meu primeiro receiver, ele já vinha com “aifai”.

Dei uma boa risada e ficaram chateados com minha reação.

– Tá duvidando de nós dois, Manuel?

– O que existia antigamente e hoje virou carne de vaca é Hi-Fi, meu aparelho de som também tinha isso.

– Ô português burro, não tô falando de vodka com fanta, tô falando de outra coisa.

– Hi-Fi significa Alta Fidelidade. Nada a ver com Wi-Fi, rede sem fio. Hi-Fi também é uma bebida, vodka com laranja e gelo, mas porque mesmo estamos falando essa besteira?

– Besteira é o que você acabou de falar.

– Tá. Tá bom. Depois eu é que sou o português…

– Nem entrou na faculdade e já tá dando uma de besta!

Meu filho tinha razão quanto ao noticiário da internet. É mais atual. O ecrã gasta a vista mas não suja as mãos. A primeira coisa que faço ao levantar é ligar o computador. Sou novo nesse negócio, mas já não sei viver sem internet. Fico imaginando meus netos! Com certeza, quando atingirem minha idade, terão passado mais da metade dos anos diante de ecrãs. E não será a televisão. Televisão virou coisa de velho, mas pouca coisa na TV interessa realmente aos velhos. Tá um saco ver TV.

Até meu inglês melhorou com o computador. Hoje só é ignorante quem quer. Se tenho dúvida, não arrisco, pesquiso. Parei com minhas certezas incertas, agora elas se tornaram certezas absolutas.

Ontem, quando desliguei o computador e disse para meu filho que iria deitar, ele me chamou para repassar umas coisinhas. Estava na cozinha diante de folhas coloridas espalhadas sobre a mesa. Eram os programas dos cursos.

– Imprimiu tudo de novo? Não precisava…

– Amanhã o senhor não vai poder se atrasar, porque se houver muita gente interessada nos cursos como havia na USP-Leste, o senhor só vai conseguir se inscrever no máximo em dois.

– Quantos são?

– Quatro. Estão todos aqui – mostrou-me os programas dos cursos, cada um impresso em um papel de cor diferente.

– Maurício, estive pensando, um na USP-Leste, que na verdade já são dois, Anos 70 e Oficina de Turismo, e outro na USP-Butantã já chega, não acha? Vou abrir mão desse do Largo de São Francisco. O horário não é bom. Final de tarde há gente demais no Metrô, você sabe.

– Já conversamos sobre isso. O senhor fará cursos de segunda a quinta e fica com a sexta-feira livre.

– Acontece que na terça são dois e tem outro dia que também são dois.

– Na terça, os cursos são intercalados. Em uma terça tem Anos 70 e na outra Turismo Social. Equivalem a um. Na quinta, sim, o senhor vai se inscrever em um curso pela manhã e outro à tarde. Vai ter tempo para almoçar, passear, conhecer o campus. Tenho certeza que vai ser um dia agradável.

– Não sei se vou conseguir…

– Amanhã, a inscrição para o curso Envelhecimento Ativo, no hospital, começa às oito da manhã. O senhor precisa estar lá cedinho, no mais tardar s sete e meia. Depois o senhor corre para a FEA, pois a inscrição para o curso Longevidade e Cidadania começa às nove. Procure resolver tudo rapidamente. De lá o senhor corre para o Largo de São Francisco. A inscrição lá é a partir das onze, lembra?

– E ainda tem outro, não tem?

– Tem o curso da Poli, Encontros Culturais, mas o senhor não precisa se preocupar. A inscrição é online, via e-mail. Farei a sua e a do Saboia.

– Por falar em Saboia, que horas marcou com ele?

– Às cinco e meia.

– Por que tão cedo?

– Não é cedo, pai, o senhor mesmo falou que precisa sair com duas horas de antecedência para chegar no horário. Para estar lá às sete e meia precisa sair cinco e meia. Duas horas antes.

– Por que não chamou o Saboia para dormir aqui e aproveitou para ficar sozinho com a Márcia?

– Pai, por que diabos o senhor sempre volta nesse assunto?

– Você já dormiu com sua mulher?

– Não!

– Casou por quê?

– Porque nos amamos e prometi isso a ela quando tinha 12 anos.

– Nem Deus aceita promessa de um garoto…

– Pai!

– Tudo bem, tudo bem…

A expectativa com as matriculas mexeu com meu metabolismo. Perdi o sono. Saboia, idem, pois às cinco horas estava na minha porta.

– Esperei a padaria abrir para comprar pãezinhos frescos.

– Saboia, parece até que vamos prestar vestibular. Também está nervoso?

– Nem dormi. Se for igual a USP-Leste, é melhor irmos logo.

– Pai, ainda está de pijama?

Maurício me apressava de um lado e Saboia do outro.

– Vocês vão chegar tarde – dizia meu filho.

– Vamos chegar tarde – repetia Saboia.

– O hospital não é tão longe assim para vocês ficarem nesse desespero…

– Pai, acaba logo com esse café, já passou da hora.

– Vou escovar os dentes e fazer xixi, posso?

– Vê se não fica uma hora secando a torneirinha.

No caminho, Saboia insistia na mesma questão:

– Sabe como chegar? Gravou bem o caminho?

– Esqueceu que minha mulher fazia tratamento no HC?

– Não vamos para a Cidade Universitária?

– Saboia, não confunda Cidade Universitária com Hospital Universitário. Qual é o Hospital Universitário que você conhece?

– Tem vários…

– Ligado a USP?

– Clínicas.

Passava um pouco das sete quando descemos na estação Clínicas do Metrô, Linha 3, Verde. Corremos para resolver a matrícula o quanto antes. Paramos em uma das portarias e pedimos informação sobre o Anfiteatro do segundo andar. O rapaz nos olhou como se fôssemos dois marcianos que havíamos acabado de pousar na terra.

– O senhor tem certeza que veio ao lugar certo?

– Existe outro hospital universitário ligado a USP?

– Existe sim senhor!

– Não falei que havia vários – disse Saboia.

– Posso ver o endereço? – pediu-me o segurança.

Estendi o programa e aguardei, contando o tempo.

– Não falei… não disse… você acha que sabe tudo… – Saboia resmungou baixinho.

O rapaz abriu um sorriso e fiquei feliz com sua reação.

– Hospital Universitário. HU. É dentro da Cidade Universitária.

Senti um frio na espinha. Meu filho falou várias vezes desse HU, mas imaginei que se tratasse de uma faculdade.

– Tem certeza?

– Está escrito aqui…

– Vamos embora – puxou-me Saboia. – Obrigado, senhor.

– Saboia, o Maurício não pode saber que a gente deu essa mancada.

– A gente?

– Você concordou quando eu disse que era aqui…

– Eu disse que havia vários hospitais universitários…

– A culpa é dele, não é nossa.

– Não sei como você tem coragem de culpar o Maurício. Ele me disse que levou você lá! Assume que fez merda!

– Como eu ia saber que na Cidade Universitária havia um hospital?

– O Maurício mostrou.

– Como eu ia saber que HU significa Hospital Universitário. Achei que fosse mais uma faculdade. História…

– História Umana – disse Sabóia com ênfase no u.

– Vá se ferrar. Nesse papel não tem HU em lugar nenhum. Não sei como o segurança pode ter certeza que é lá. Olha, Saboia, se tivesse HU aqui eu teria relacionado com Cidade Universitária, pois meu filho me mostrou o ponto do HU.

– A culpa agora é de quem fez o programa?

– Procura HU aí? Só hospital, hospital, hospital… hospital pode ser qualquer um.

Havia um hu pequenininho no e-mail envelhecimentoativo@hu.com.br e mais nada. Torci para Saboia não ver.

– Manuel, quando você bota uma coisa na cabeça não tem Cristo que dê jeito. Você achou que era no Hospital das Clínicas e pronto. Seu problema são suas certezas. Olha o endereço. Avenida Professor Lineu Prestes de Almeida, 2565. Era só pesquisar no google. Mas você nunca tem dúvida, só certezas.

Não imaginei que Saboia tivesse aquela imagem de mim. Manuel das Certezas como por um bom tempo me chamaram no clube até mudar para Manuel Atual e hoje Manuel Conectado.

– Chegamos. Terminal Butantã – levantei e saí na frente.

– É melhor pedirmos informação? – disse Saboia.

– Esqueceu que meu filho me trouxe aqui só para me fazer decorar o caminho? O ônibus é aquele.

– Está saindo. É melhor corrermos.

Saboia correu na frente e conseguiu alcançar o ônibus antes que o motorista fechasse a porta. Fiquei com a língua de fora. Uma senhora me cedeu o lugar no bando dos velhos.

– Passa das oito. Já deve haver uma fila enorme lá. É melhor esquecermos o HU e irmos direto para a FEA – disse Saboia. – O HU já era.

– Onde está seu otimismo? Agora eu faço questão de ir ao hospital. Se quiser, pode descer na FEA. Não precisamos andar juntos o tempo todo.

– Vou pedir ao cobrador para me avisar quando chegar o ponto da FEA – disse Saboia, mostrando-se claramente contrariado.

Nossa relação estava cada vez mais abalada. Segurei seu braço e sugeri esperar o ônibus entrar na Cidade Universitária.

– Desço com você na FEA – concordei. – Foda-se o HU – concluí baixinho.

– Demora para chegar na Cidade Universitária?

– Já era para ter chegado. Da outra vez foi rapidinho. Deve ser o trânsito.

– Levanta, Manuel, tem alguma coisa errada, essa gente não tem cara de estudante.

– E nós temos, por acaso?

Comecei a desconfiar que embarcamos no ônibus errado. Fui falar com o cobrador. Saboia veio atrás.

– Bom dia, falta muito para chegarmos à Cidade Universitária?

– Este ônibus vai para o Campo Limpo.

– Como? Peguei no ponto do Circular que faz a linha Cidade Universitária. Não estou ficando louco, estou?

– Mudou, senhor. Agora os ônibus que vão para a Cidade Universitária estão do outro lado da rua, dentro do terminal.

– Puta que pariu! – explodi e o ônibus inteiro olhou para mim.

– Calma, senhor, é só descer no próximo ponto e voltar.

– Calma é o caralho! Como mudam o ponto e não colocam um aviso?

– Tá escrito lá…

– Uma faixa. Uma faixa grande anunciando a mudança.

De repente metade do ônibus passou a se manifestar, a me dar razão. Muitos passaram pelo mesmo constrangimento. Pegaram o Circular para a USP imaginando que tomavam o ônibus para o Campo Limpo.

– Ônibus errado – disse Saboia, puto da vida. – Pegamos o ônibus errado… não acredito.

– Essa porra de ônibus é que estava no lugar errado, Saboia.

– É o fim do mundo – disse uma senhora ao meu lado.

– Não existe respeito pelo usuário – falou outro.

– Eu falei para você pedir informação – insistiu Saboia, pois para ele o único culpado atendia pelo nome de Manuel de Barro.

– Cala a boca, Saboia, não vê que tá todo mundo do meu lado. Vai querer ser do contra exatamente agora?

– É porque eles não te conhecem.

– Senhores, é só atravessar a rua e tomar um ônibus de volta…

– Cornos! Prefeito corno! Um bando de cornos!

Regressamos ao Terminal Butantã. Saboia saltou do ônibus, empinou o nariz e me ignorou redondamente. Fui atrás, sem moral para contestar, com o rabo bem preso entre as pernas.

– É este, vê, Circular USP, está escrito.

– Não vai perguntar?

– Está escrito!

– Saboia, calma, no fim vai dar tudo certo.

Rapidamente o ônibus entrou na Cidade Universitária. Passava um pouco das nove.

– Não me fale em HU, vamos direto para a FEA – disse Saboia.

– Quando vim com meu filho o caminho era outro.

– Aqui é a Cidade Universitária? – Saboia dirigiu-se ao cobrador.

– Sim senhor – disse o rapaz meneando a cabeça.

Em Portugal é inadmissível alguém se dirigir ao outro assim. Primeiro vem o cumprimento. Bom dia. E antes da pergunta, um pedido de licença ou gentileza. Foi como fiz.

– Bom dia, senhor, por gentileza, este ônibus mudou o itinerário? Pois quando vim com meu filho, outro dia, não lembro de ter andado ao longo de um rio…

– Por que você estava sentado do outro lado, portuga. Para de perturbar o rapaz.

– Saboia, se houvesse um rio no caminho eu veria, não acha?.

– Esta é a Raia da USP – disse o cobrador. Este é o nosso caminho. Para onde os senhores vão?

– Para a FEA – disse Saboia.

– Só na volta. Vai demorar. Vocês deveriam ter pego o Circular 1.

Saboia me encarou.

– Eu falei para se informar… e o hospital?

– Vamos chegar lá em alguns minutos.

– Se puder me informar quando chegar o ponto, agradeço.

Saboia, furioso, não abriu mais a boca.

– HU, senhor, já dei o sinal.

Levantei e Saboia me seguiu.

– Só desci porque acredito em sinais – disse Saboia.

– O motorista também, por isso parou o ônibus.

– Não entendi…

– Depois eu é que sou o português.

A matrícula para o curso Envelhecimento Ativo, de acordo com o programa, estava sendo realizada no auditório do segundo andar do prédio do Hospital Universitário. Informei-me na portaria com um segurança. Mostrei o programa do curso e ele foi bastante solícito.

– O senhor desce aquela escada externa e vira a esquerda. No final do corredor está a entrada de funcionários. É melhor se informar lá.

– O anfiteatro é neste prédio?

– Acredito que sim, mas é melhor se informar lá.

Saboia me seguia bufando. Mostrei o programa na portaria dos funcionários e reforcei que íamos ao anfiteatro do segundo andar. O cidadão olhava o programa como se estivesse escrito em grego. Saboia se enervou.

– Quer que eu leia para o senhor?

Os dois se encararam e antes que o senhor da portaria engrossasse o caldo interferi.

– O senhor conhece o dr. Egídio? É com ele que vamos ter o curso.

– Vocês estão no lugar certo, mas tem alguma coisa muito errada aqui.

– O que pode estar errado? – perguntou Saboia.

– O anfiteatro está fechado.

– Como o senhor pode saber disso? – disse Saboia irritado.

– Porque eu abro e fecho o anfiteatro e hoje eu não abri.

– Alguém pode ter pego a chave – arrisquei.

O cidadão levantou e mostrou o molho de chaves pendurado na cintura.

– O dr. Egídio pode ter uma cópia?

O homem das chaves riu. Mas riu muito. Forcei-me a rir junto para parecer simpático. Funcionou.

– Vocês tentaram ligar para este número? – apontou para um número de telefone que havia no programa

– Na verdade nem passou pela minha cabeça – disse em tom de desculpas.

– Vamos ver quem atende – discou o número e ficamos na expectativa. – Sula, estou com dois senhores interessados em um curso… deixa ver… Envelhecimento Ativo… é com você?

Desligou o telefone e nos orientou a entrar, subir as escadas e procurar por Sula no segundo andar.

– No anfiteatro?

– Não, no ambulatório.

– A inscrição é com ela?

– Ela vai orientá-los. Subam as escadas e perguntem por Sula do ambulatório.

Fizemos diferente. Perguntamos onde ficava o anfiteatro para a primeira funcionária que encontramos atrás de um balcão.

– O anfiteatro está fechado. Vocês procuram o quê?

– Nós viemos nos inscrever para o curso Envelhecimento Ativo…

– É o curso da Terceira Idade do dr. Egídio?

– Exato – respondi feliz ao ver que alguém sabia sobre o curso, mas a pessoa se voltou para um colega e ficaram debatendo a respeito de cursos sem chegar a um acordo.

– Sula do ambulatório, a senhora conhece? – interrompi a conversa.

– Ela atende naquele balcão.

– Obrigado. Fomos orientados a procurar por ela.

– Boa sorte – disse a senhora com um sorriso nos lábios. E não era de simpatia.

Sula, por sua vez, foi bastante simpática, mas não sabia absolutamente nada sobre curso algum.

– Mas este é o telefone do ambulatório e a enfermeira Márcia, assistente do dr. Egídio, deve saber do que se trata.

– E podemos falar com a enfermeira Márcia?

– No momento ela está fora da sala. Vou pedir para os senhores sentarem e aguardarem um pouquinho – indicou os bancos do ambulatório na nossa frente.

Sentamos entre pacientes. A única diferença era que eles tinham senhas o que davam a eles mais esperanças de serem lembrados por alguém.

– Quem é esse dr. Egídio? – perguntou Saboia.

– É o Coordenador Acadêmico da UnATI, o mandachuva.

– Pelo jeito, o mandachuva criou um curso fantasma.

– O curso é sério. Olha quanta gente faz parte – mostrei o programa com a lista dos palestrantes.

– Tem uma enfermeira Márcia aqui, será que é a mesma?

– Certamente…

– Acha que por ela se chamar Márcia é um bom sinal?

– Manuel, não me provoque, hoje não estou para gracinhas.

Se tivesse uma televisão por perto talvez a espera fosse menos penosa. Saboia estava preocupado com a hora e com razão. Levantamos e fomos questionar Sula.

– A sala dela é a primeira do corredor à direita. Vejam se ela retornou – sugeriu Sula.

A sala estava vazia e outras pessoas também aguardavam pela enfermeira Márcia. Voltamos a questionar Sula:

– E se a enfermeira Márcia estiver justamente no anfiteatro providenciando as inscrições para o curso?

Sula abriu um sorriso como se lidasse com dois velhinhos lunáticos. Mesmo conferindo o programa com local, dia e horário, achava pouco provável que a enfermeira Márcia, com tanta coisa para fazer, estaria lá. Literalmente nos mandou esperar sentados.

– Vamos embora. Isso aqui é uma palhaçada – disse Saboia com razão.

– É mesmo – concordou um paciente de cadeira de rodas. – Cheguei aqui às sete da manhã, e o senhor?

– Por aí – disse Saboia e comecei a rir. O cadeirante riu comigo.

– Só rindo mesmo. Aqui ninguém tem pressa pra nada.

Saboia levantou de supetão e me encarou.

– Vai ficar aí ou vai embora comigo?

Levantei e o segui para fora do prédio.

– E a FEA?

– As inscrições começaram às nove e já vai dar onze. É melhor irmos embora para o Largo de São Francisco e esquecer isso aqui.

Entramos no primeiro ônibus escrito Butantã.

– Bom dia, este ônibus passa na FEA?

– Eu aviso aos senhores – disse o cobrador.

Saboia não se manifestou, mas desceu junto comigo. Apresentei o programa na portaria e a atendente fez uma careta. Perguntou para a colega ao lado que mandou ela ligar para um determinado ramal. Ligou, confirmou e nos encaminhou para uma sala no segundo andar. Fomos recebidos com alegria. O clima mudou. Preenchemos um formulário e fomos comunicados que éramos respectivamente o sexto e o sétimo da lista.

– Lista de espera? – perguntei.

– Até o momento só temos sete inscritos, mas no decorrer da semana as vagas serão preenchidas. Esperamos vocês dia 15.

– Dia 15?

– É o Dia do Calouro da UnATI. Haverá uma homenagem à fundadora do projeto, a professora emérita Ecléa Bosi.

– Estaremos aqui dia 15 – disse Saboia com um sorriso nos lábios. Estava feliz. No HU fomos tratados como pacientes; na FEA, como calouros. Uma mudança radical.

– Nada é sem motivo – disse Saboia assim que deixamos a FEA e avistamos um Circular subindo na direção do HU.

– Quer voltar no hospital?

– Nossa sorte mudou, portuga, siga os sinais – disse Saboia e embarcamos no ônibus. Descemos no ponto do hospital e Saboia já sabia o que fazer.

– Vamos perguntar para as atendentes, como fizemos na FEA.

Não discuti, mas não dá para comparar uma atendente de faculdade com uma de hospital. São profissionais voltados para questões bem diferentes. Na porta, um segurança nos barrou, mas Saboia disse que ia consultar uma das atendentes sobre um curso. Fomos juntos falar com a mesma mocinha.

– Vocês vieram para o curso? Por favor, o braço.

Estendemos os braços e fomos contemplados cada um com uma pulseira de identificação roxa. – Sigam a linha verde até a sala do Raio X. As inscrições estão sendo realizadas na sala em frente a sala do Raio X, entenderam? Boa sorte.

Saboia só faltou gritar de felicidade.

– Na primeira vez fizemos tudo errado – disse Saboia.

– O erro foi do outro segurança que nos mandou para outro lugar.

– Agora, sim – Saboia comemorou.

Cruzamos todo o ambulatório. Doentes para todo lado. Parecia um campo de refugiados. Evitamos olhar para Sula, ilhada por doentes. A sala em frente ao Raio X estava animada. As pessoas se confraternizavam. Uma mocinha se afastou do grupo festivo e nos recepcionou com um largo sorriso.

– Vieram se inscrever no curso?

– Viemos – respondemos em coro e mostrando os dentes.

– Que bom! Estamos precisando de homens nesse curso! Trouxeram os documentos?

– Sim – disse Saboia pegando a xerox e o RG original. Fiz o mesmo.

– E o comprovante de residência, rapazes?

– No programa só fala para trazer RG e cópia – retrucou Saboia.

– Curso errado, Saboia – deduzi ao ver que os outros candidatos eram jovens.

– Vocês não vieram para o Curso de Cuidadores?

– Estava bom demais para ser verdade – disse Saboia e agradecemos a atenção.

– Quem sabe a Márcia já está na sala dela – disse para animar Saboia.

Tentamos passar despercebidos, mas Sula nos viu de longe.

– Onde vocês se meteram? Procurei por vocês…

– Fomos nos inscrever no curso da FEA. A Márcia voltou?

– Voltou, mas saiu outra vez… agora só amanhã.

– Sula, onde fica o anfiteatro? – perguntou Saboia.

– No corredor central, mas está fechado.

– Obrigado – Saboia reagiu como quem acaba de desvendar um grande mistério. – Manuel, vem comigo.

– A saída é para o outro lado…

– Quero tirar uma dúvida, vem comigo.

Fomos até o local oficial das inscrições, o anfiteatro do segundo andar.

– Para, Saboia, vai derrubar a porta!

– Mas é aqui, Manuel!

– Mas a porta está fechada, não adianta empurrar ou bater.

– Vamos embora para o Largo de São Francisco. Se lá for como na FEA, ainda temos chance de nos escrever no curso O Prazer da Leitura e da Criação de Texto – disse lendo o programa.

– Nunca mais boto o pé nesse HU – disse Saboia e reclamou a viagem inteira da desorganização. – Isso porque o responsável é o Coordenador da UnATI…

No Largo de São Francisco seu humor mudou. É impossível não se encantar com o charme e a beleza do lugar.

– É a primeira vez que você vem ao Largo de São Francisco?

– Há sempre uma primeira vez pra tudo – disse Saboia.

Entramos e a reação de Saboia era de deslumbramento.

– Olha esses vitrais, Manuel! Deus, que coisa linda. É bem possível que no curso de turismo a gente venha aqui e eles expliquem tim tim por tim tim.

– Vão dizer que foram feitos pela Casa Conrado.

– Como você sabe?

– Está escrito. Depois eu é que sou o português…

– Você é chato, hein, Manuel? Sabe onde é o local da inscrição?

– No Prédio Anexo. Este é o Prédio Histórico.

– Não entendi. Não é aqui?

– O Prédio Anexo fica na outra rua, mas há uma passagem interna, uma passarela.

Saboia só relaxou quando viu a seta indicando a passarela. Encontramos alguns velhos pelo caminho que nos cumprimentaram como se fôssemos conhecidos.

– Pensam que somos professores ou funcionários – comentou Saboia.

– Ou velhos indo se inscrever em um curso para velhos.

Tomamos o elevador e descemos no andar das inscrições. Fomos até o balcão e informamos que gostaríamos de nos inscrever para o curso. Uma senhora fria como um cadáver nos passou dois formulários.

– Preencham na sala ao lado.

Havia uma grande mesa de reunião e duas pessoas preenchiam seus formulários. Cumprimentamos as duas e sentamos para preencher os nossos.

– É só isso? – perguntei para Saboia que escrevia sem parar.

– Não está fazendo a redação?

– Redação?

No verso havia mais algumas questões e um espaço para redação. Tremi.

– Não sei o que escrever – disse para Saboia.

Saboia não me deu atenção. Escrevi sobre a importância de escrever um diário para manter a mente saudável. Não disse que estava escrevendo um. Fingi que queria aprender a escrever para poder começar a escrever. Depois me arrependi, mas não havia como voltar atrás, pois escrevi com caneta.

– Fez tudo?

– Fiz. Mas no final, só escrevi besteiras – confessei, decepcionado com minha falta de inspiração.

– Escrevi umas dez linhas – disse Saboia, orgulhoso. – Falei da minha emoção ao contemplar pela primeira vez o Largo de São Francisco. Ficou bom.

– Será que o critério de escolha é a redação? Se for, dancei – disse, desanimado.

Levantei para devolver o formulário e perguntei se houve muita procura pelo curso.

– Perdi a conta de quantas pessoas passaram por aqui hoje. Vai ser esse inferno a semana toda. Como se não tivéssemos mais o que fazer – disse a mulher-cadáver.

– Quando sai o resultado? – perguntou Saboia.

– Se passaram, receberão um e-mail. É melhor o senhor escrever com letras maiúsculas pois letra de homem é uma coisa horrível, ninguém entende nada – disse sem nenhuma consideração.

– A senhora poderia me dar outro formulário para eu refazer a redação?

Ela riu, finalmente. Riu dos meus garranchos, do meu esboço de redação, das bobagens que escrevi.

– Custa dinheiro, senhor. Devia pensar antes de escrever, pois tinha todo o tempo do mundo.

Fiquei claramente abatido com a possibilidade de ser descartado do curso que eu mais desejava. Saboia me consolou, mas ele também estava abatido com o saldo das matrículas. Fracassamos no HU e garantia de sucesso só na FEA.

Pegamos o elevador e apertei o segundo andar.

– É o segundo mesmo?

– Esqueceu?

Descemos e seguimos pelo corredor até as escadas. Devia estar muito decepcionado para confundir aquela escada horrorosa do Prédio Anexo com a escada maravilhosa do Prédio Histórico com seus vitrais. Distraídos e preocupados, descíamos as escadas.

– Espero que o Maurício tenha feito nossas inscrições por e-mail no curso da Poli – disse Saboia.

– Do jeito que ele é metódico, deve ter programado o computador para disparar os e-mails às 14:01.

– Tem como fazer isso?

– Deve haver um jeito. Computador é uma coisa de louco. Não desgrudo mais do meu. Estou com um novo, sabia?

– Maurício me contou. Comprou um novo e passou o velho para você.

– Às vezes acho que Maurício fala mais com você do que comigo.

– Ciúmes?

– Que diabo de lugar é esse?

Paramos na porta do inferno. Um lugar horroroso. Estávamos no porão do Prédio Anexo, um estacionamento escuro, um cemitério de carros.

– Finge que estamos procurando um banheiro – disse Saboia ao ver uma servente.

– A senhora sabe se tem banheiro aqui?

– É melhor os senhores subirem. Tem um bom banheiro no segundo piso.

Como ela nos seguiu para indicar o banheiro, fomos obrigados a entrar. Aproveitamos para fazer xixi.

– Foi mal… – comentei, envergonhado com a enésima mancada.

– Temos que achar a passarela para retornar ao Prédio de História – disse Saboia.

Comecei a rir e Saboia não gostou da minha reação.

– Tá rindo de quê, Português?

– Não é Prédio de História, Saboia, é Prédio Histórico.

– Se é histórico é porque tem muita história. Dá na mesma.

– Depois eu é que sou o português.

Encontramos o caminho e voltamos a nos encantar com o prédio histórico da Sanfran. Contei para Saboia que era assim que os jovens se referiam à faculdade.

– Não vamos contar nada a ninguém, nem ao Maurício nem à Márcia sobre nossas mancadas.

– Contar o quê? – disse Saboia como quem já havia esquecido tudo e rimos.

– Meu filho morre de medo que eu desenvolva uma demência, qualquer ponto fora da curva é motivo de preocupação.

– Isso não tem nada a ver com o Alemão – disse Saboia. – Márcia é igual. Diz que tenho que ler muito e escrever mais ainda. Eu gosto de escrever. Mas a velhice nunca vem sozinha… morro de medo.

– Antigamente os velhos caducavam. Hoje ninguém caduca mais. Existem mais de 50 demências diferentes. A mais popular é a Doença de Alzheimer, o Alemão como você falou.

– Eu sei, eu sei – disse Saboia, rindo mais ainda.

– Maurício acompanha alguns sites especializados em velhos. Tem uns muito bons, mas lá em casa, pode acreditar, Saboia, o velho é ele.

– Eu sei, eu sei – repetiu Saboia, sem parar de rir. – Minha filha age como se fosse minha mãe.

– Maurício é igual, pensa que é meu pai.

Rimos e entramos em uma pastelaria. Fazia tempo que eu não comia um pastel gorduroso e tomava um caldo de cana com abacaxi e limão para elevar meus índices glicêmicos aos píncaros.

– Saboia, bico calado – insisti. – Nada de contar para a Marcinha.

Marcinha é como ele trata a filha. Acho que já falei que na casa do Saboia é tudo no diminutivo.

– Palavra de escoteiro – disse Saboia cruzando e beijando os dedos.

Rimos, mas meu palpite era que ele falaria. E bastaria Maurício desconfiar de como foi nosso dia para fazer uma análise catastrófica a respeito do meu declínio cognitivo acentuado. É como ele fala. Ainda no Metrô, Saboia me convidou para dar uma passadinha na sua casa para comer uma sopinha.

– Marcinha está nos esperando – disse mostrando uma mensagem no celular.

Agradeci, pois não suporto ver como os dois se relacionam: “Paizinho, quer um chazinho? Tá friozinho, bota um casaquinho.” Sinto-me em Coimbra, no Mundo dos Pequeninos.

Passei o resto da tarde ensaiando o que falar para Maurício.

– Deu certo na FEA e na Sanfran, no HU deu tudo errado. Uma desorganização completa. Ninguém sabia nada. O local da matrícula estava fechado. É um curso fantasma. Esse dr. Egídio é um trapalhão… para não falar outra coisa.

– Vou mandar um e-mail. Vamos esclarecer isso. Tem certeza que foram ao lugar certo?

– Duas vezes. Não volto mais lá. É melhor nem perder tempo enviando e-mail.

– Vou enviar agora mesmo – disse Maurício.

– Duvido que leiam – provoquei.

Para minha surpresa, responderam com uma competência espantosa. Mas era uma resposta pronta, automática:

“Olá, a equipe administrativa estará de férias até 28/07/2017. Assuntos relacionados a agendamento de consultas favor aguardar o retorno.
Questões relacionadas a saúde favor contatar de.ubas@hu.usp.br

Dobrei-me de tanto rir.

– Viu como são atrapalhados. Misturam tudo. São malucos.

– Por que o senhor não tentou falar direto com esse dr. Egídio?

– Para falar com ele teria que pegar senha e me comportar como paciente. Podia dar certo, sabia? Não foi o que ele disse na entrevista, que somos pacientes idosos?

– Esquece, pai, o curso do HU miou – disse Maurício entregando os pontos.

– Acho bom, já me inscrevi em cursos demais…

– Pai, por enquanto o senhor só se garantiu nos cursos da USP-Leste e no da FEA, é muito pouco.

– Para quem não queria nada já são cursos demais!

Depois eu continuo.

Leia as partes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 desta história

Parte I: Atividade intelectual previne Alzheimer

Parte II: USP: vagas abertas à terceira idade

Parte III: USP: cursos gratuitos para idosos

Parte IV: USP convoca idosos para cursos gratuitos

Parte V: USP oferece cursos gratuitos para idosos

Parte VI: Cursos grátis para Idosos na USP: matrículas abertas

Parte VII: Envelhecimento Ativo na USP: inscrições abertas até 02 de fevereiro

Parte VIII: USP-Leste, matrículas para os cursos da Terceira Idade: dias 05 e 06/02


Mário Lucena

Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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