Mil Bolhas

Foi no aniversário de 88 anos. Dois anos depois ela ainda pede: Conte outra vez! E ri muito. A pequena estória faz sucesso, sempre. Hoje escrevo porque ela me pediu na última visita, quando contei tudo de novo.

Mauisa Annunziata *

 

mil-bolhasAvisei antes, passaria o dia com ela para comemorar o octogésimo oitavo aniversário. Não se preocupe, se alguém for visitá-la, eu a ajudo a receber. Levei uma torta para servir.

Fui cedo de manhã, e encontrei já a mesa vestida com a melhor toalha. Ela havia encomendado o bolo mil folhas: finas camadas (mil) de massa folhada, creme de baunilha, uma camadinha de açúcar de confeiteiro. Ótimo! Ela adora!

Tudo parecia tranquilo. Uma pessoa aqui, uma amiga ali, sim alguém iria cumprimentá-la. Mal acabávamos de almoçar, tocou a campainha.

À porta, uma leva de primas que não víamos há muito tempo. De 70 a 94 anos foi minha estimativa. Cinco cabecinhas brancas, branquinhas. Cabelinhos lisos, cabelinhos enrolados, cabelinhos raros. Beijos, abraços, perguntas, afagos. Vieram cedo, comentavam, não queriam voltar tarde. Procuro acomodá-las no sofá e nas poltronas.

Outro toque na campainha: chega o bolo mil-folhas. E-nor-me!! Pra quê tão grande, penso?

Abro a geladeira, decido comprar mais bebida!

A campainha não para. Chegam em ondas, falam alto as velhinhas. Mar revolto. Vem de todos os lugares! Não há mais cadeiras, nem pratinhos. Acionei todos!

Vou buscar mais guaraná. Dou de encontro a outra onda branca de velhinhas que chega. Algumas trazem um pratinho, um pudim de claras, um bolo de maçã. Mil folhas não seriam suficientes.

Elas não param de falar. Enquanto sirvo, assisto. Como bolhas agitadas provocam um movimento aleatório e incansável no ambiente. Uma branca espuma. As bolhas crescem e se espalham. Vêm de longe as primas, as amigas. Tia Nina, tia Rosana, a Melita, a Landinha, a tia Lina e a Odete.

Vieram todas! Até as já falecidas! Minha mãe se espanta, mas adora a ideia. Eu vi, mãe! A tia Dora, a tia Tereza, a Wandinha. A tia Peta, a Zé Pina, lembra? A vovó Micla, a tia Branca, até a Bizoca compareceu, mãe. Pessoas que não perdem festa, nem mortas!

A nova geração, as sobrinhas se incumbem do transporte. A comunicação fica por conta delas mesmas.

De pé, eu via os cabelinhos brancos pra cá e pra lá, continuo contando, a espuma borbulhando branquinha, fazendo e desfazendo. Como bolhinhas que se encontram e trocam rendas. Ruidosas! Mil bolhas, num mar risonho junto às pedras!

As histórias se desfolham, uma a uma, na pequena sala. Mil-folhas. O bolo acaba.

Não podem demorar, temem o trânsito do fim da tarde. Preferem fazer as coisas na calma, sem confusão! Exclamações, os carinhos de despedir e as bolhas evaporam pouco a pouco. Vai um grupo, outro se desfaz …mais outro.

O vozerio alegre ondula ainda pela sala. Exausta, toda nutrida minha mãe comenta cada momento do encontro.

88 anos. Lindo número feito de infinitos.

Completou como quis, a cuidadora revela. Não foi surpresa, pergunto? Dois dias antes, acomodada no sofá ela tinha telefonado a todas, uma por uma. Falou da importância daquele dia, daquele encontro. Pra mim, não me disse nada. Sou presença garantida! Avisada, talvez eu planejasse um lugar, o serviço.

Eram dela os 88 anos. O barco é ela.

O mar faz espuma. A vida é bolha! Puff!

* Mauisa Annunziata -Pedagoga, especializada em criatividade, com formação em Fenomenologia na coordenação de grupos. Poeta e cronista. Email: mauisa@uol.com.br

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