Memórias em tempos de pandemia, e meus parabéns a Dona Maria!

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Dona Maria, em tempos que ainda não existia o distanciamento social e o contato físico era algo possível e precioso, sempre me contou suas histórias de vida, e eu procurava ser uma boa ouvinte.


Sorriso brando, olhar claro e calmo como o mar; mulher guerreira e forte. É assim que defino Dona Maria! Filha de espanhóis, esposa, mãe de 5 filhos,  avó  (12 vezes), bisavó do Lucas, da Clarinha, Victor, Pedro Henrique e por fim do Mateus. Seus 83 anos chegaram em um ano no qual, pela primeira vez, o momento pede distância, pede ausência da companhia e do café da tarde com os netos. Nesse ano não houve festa no fim de semana no sítio; não houve abraços nem mesa farta, mas não faltou carinho da família com uma festa virtual! Festa esta da qual não pude participar e, justamente por esse motivo, decidi homenagear a Dona Maria por meio do que mais amo nessa vida: escrever! E por falar em palavras… ah!… as palavras de Dona Maria nos acalmam, nos confortam, nos acalentam. Sua paciência, seu carinho, sua alegria nos contagiam!

Em festas de família, observo e me encanto com os seus cuidados para com o marido, que quase não escuta e necessita de atenção em todos os momentos devido às condições senis. Observo suas falas, abençoando cada um de nós e admiro seu sorriso. Como gostaria de ter esse riso contagiante!

Como já afirmei, esse ano não teve festa com a presença de toda a família. Faltaram os olhares de Dona Maria que nos passam uma mensagem de Gratidão por ver todos reunidos, mas houve a festa virtual, o evento mais utilizado para comemorar os bons momentos em tempos de pandemia, por meio do qual todos puderam participar: netos e filhos do Sul do Brasil, netos e filhos da região de São Paulo, filha e netas de outro país, todos esperando pelo Parabéns, pelo sorriso de Dona Maria. Todos juntos, construindo memórias a serem contadas um dia para as próximas gerações em tempos de incertezas, medos, anseios e inseguranças.

Dona Maria, em tempos que ainda não existia o distanciamento social e o contato físico era algo possível e precioso, sempre me contou suas histórias de vida, e eu procurava ser uma boa ouvinte. Ainda bem que aproveitei esses momentos de boas conversas, histórias e memórias.      

A memória dos idosos torna-se uma mediadora entre a geração atual e as testemunhas do passado; um instrumento precioso para se constituir a crônica do cotidiano, sem se basear unicamente em documentos oficiais. São as paixões, as intensidades e a maneira como cada idoso viveu o acontecimento narrado que impedem a unilateralidade de um fato e a riqueza de vários pontos de vistas contraditórios” (BOSI, 2003).

Costumo dizer que registrar memórias é fundamental em nossas vidas. A memória constitui quem somos. Por meio delas trazemos nossos ancestrais, nossos antepassados. Somos resultado de uma grande constelação familiar.

Por saber dessa importância, por ser uma defensora do respeito e da valorização das memórias de idosos, fica aqui o registro dos 83 anos para minha avó de coração e de alma como presente. Hoje quem encerra o texto com um sorriso de Gratidão por ter pessoas como a senhora em minhas memórias, sou eu! Obrigada, Dona Maria, minhas bênçãos de hoje vão para a senhora e que possamos nos ver em breve e no próximo ano, sem pandemia, comemorarmos seus 84 anos, dessa vez todos juntos! Parabéns, Dona Maria!!

Referências
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. 3. ed. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2003.

Ana Beatriz Almeida

Ana Beatriz Almeida

Graduada em Terapia Ocupacional pela Universidade Estadual Paulista – UNESP e Mestre em Gerontologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: ana_bia_09@hotmail.com

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