Medo de não morrer

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Entrei nos 70 e minha amiga que se aproxima dos 90 vive a repetir que não quer ficar para semente.

Maria Christina L. de Góes (*)


Você não tem medo da morte? Tenho medo de não morrer. Tenho medo de ficar, ficar, ficar e começar a dar trabalho para os filhos que já têm tanta coisa com que se preocupar. Enquanto minha amiga fala, meu pensamento voa. Penso nos velhos do parque Água Branca, meus companheiros de caminhada, alguns lépidos a caminhar e a falar com o celular ao mesmo tempo. Conversas intermináveis. Às vezes parecem discutir, mas na maioria das vezes tratam de assuntos corriqueiros. Outros deixam transparecer a intimidade da convivência passada, trocam comentários animados sobre o mercado financeiro, agem como se ainda ocupassem cargos de chefia. Meu pensamento muda dos ligeiros para os lentos. Velhos que andam amparados por cuidadores. Alguns mal conseguem dar um passo sustentados por andadores de quatro apoios. Penso num tipo de velho que me assusta, os de olhar vago, silenciosos, semiausentes. Minha amiga fala que é uma beleza. Registro boa parte do seu discurso. A morte é uma benção. Gravo a frase e meu pensamento viaja.

A morte, a partir dos 70, se torna presente. É presente para mim. Gosto da ideia morte presente. De uns tempos para cá me sinto próxima dela. Quero perder o medo como minha amiga, por isso me interesso tanto pela conversa dela. Quero que a morte se torne familiar e ouvindo a colega sinto um certo destemor. Como ela chegará para mim. Qual é o meu querer? Como e quanto a quero?

O destemor dura pouco. Assusta-me pensar na morte. Dá azar, diz minha consciência medrosa. É melhor olhar para trás do que para a frente onde ela certamente me espera. Dou uma boa olhada na infância, adolescência e na vida adulta. Família, casamento, filhos, estudo, trabalho, prazeres infindáveis, formaturas, as grandes inflexões do caminho. Olho cada trecho de pertinho, resgato cenas, sentimentos, personagens, teço minha própria imagem, construo novos nexos, concluo enredos que se encontravam soltos. Sinto que preciso trabalhá-los, editá-los para que haja paz interior, paz ao longo do percurso percorrido e no que hei de percorrer.

Não podemos contar com a sorte. Temos que prever cada passo e não podemos dar passo maior que a perna na nossa idade. Concordo com minha amiga e digo que me cuido da melhor forma possível. Dieta, exercícios físicos para manter a autonomia e a independência. Mas estamos sujeitos a queda, câncer, demência, acidente vascular encefálico com sequelas e mais isso, aquilo e aquilo outro.

Minha amiga está bem, mas não quer ficar para semente. E eu, o que quero? Quero a senescência elegante, quero permanecer consciente, com a mente esperta que tanto prazer me traz por meio de pensamentos, doces lembranças, sonhos infinitos. Quero seguir senhora das minhas pernas, mesmo não sendo tão espertas quanto minha mente, detestaria não poder contar com elas na velhice.

Infelizmente ocorrem perdas. Sofro ao imaginá-las, mas preciso considerá-las. Penso no meu companheiro bem-amado, na nossa vida bem-vivida, na graça, na profunda amizade e no monótono deserto que meus dias podem se transformar sem ele. Só há um jeito de evitar isto, é minha vez chegar primeiro. Já barganhei com a morte sobre isso, mas a impressão que tenho é que ela não me deu ouvidos.

Vem-me à mente agora a perda de energia, de força para o fazer, para ser feliz, seguir cheia de vontades e dar risada até o fim. Adoro rir.

Absorvida em meus pensamentos, descubro-me a pensar que a morte não está morta, não é um ante definitivo, um ponto final. A morte é mais terrível quando se insinua aos poucos e se torna mais viva que a própria velhice. Esta morte-viva pode surgir em qualquer etapa da vida, uma distração e ela se instala com maior facilidade.

Não julgo quem foge da morte, quem a ignora e vive como se nunca fosse morrer. Esta não sou eu. Já havia começado a fazer amizade com ela, a refletir sobre, mas agora percebo que é melhor estar do lado da morte do que contra ela. Dos grandes enigmas o quando pertence ao mistério insondável, mas o como pode ser explorado. Cultivar essa proximidade me dá a noção exata que a vida é finita e minha finitude está e sempre esteve no horizonte próximo. Traz algum alívio sim. Não me livra de sofrer todas as perdas e dores que a morte nos impõe, estas serão experimentadas sem mitigação, mas permite sentir uma certa liberdade no percurso que se delineia à frente, explorar alguns mapas e escolher caminhos. Nunca negligenciar o lado prático. Cartas com instruções para os filhos, diretivas antecipadas, autorização para cremação, onde e como, isso e aquilo.

Preparo-me vivendo intensamente. Leio, estudo, me encho de conhecimentos. Sou aluna dos cursos oferecidos pelo Portal do Envelhecimento por meio do Espaço Longeviver.

Este texto é resultado de uma oficina de narrativas que faço na UATIUSP. Preparo-me na luta, na vida, para morrer bem. Dá trabalho morrer. Não me lembro do nascer, do trabalho que tive, mas no morrer quero que esse trabalho seja só meu. Como diz minha amiga, detestaria dar trabalho aos outros. Vai ser do meu jeito. Será? Meu coração está aberto. Como minha amiga, deixo a conversa firme, sem medo da morte, mas com medo de não morrer.

Maria Christina L. de Góes – Bióloga, MBA Gerontologia Social, eterna estudiosa da vida e de conhecimentos. E-mail: mariachristina.goes@gmail.com


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