A medicalização do envelhecimento

A velhice ainda é vista como uma fase da vida marcada por perdas e incapacidades, mas não é bem assim. Não é porque alguém cruza a linha dos 60 anos que passa a ter doenças, perdas e dores. Não é porque dormiu com 59 e acordou com 60 anos que se tornou uma pessoa doente. Todas as fases de nossa vida, desde que nascemos, estão mais susceptíveis a um ou outro agravo. Há doenças que acometem mais as crianças, outras são mais comuns na adolescência, outras nos adultos e outras se tornam mais prevalentes nos idosos.

Elaine Cristina Biffi Alonso Vera *

a-medicalizacao-do-envelhecimentoA Organização das Nações Unidas define como idoso o indivíduo com 60 anos ou mais de idade em países desenvolvidos e 65 anos ou mais nos países em desenvolvimento. Esta idade cronológica é importante na determinação de algumas leis e prioridades. No entanto, muita cautela é necessária com alguns conceitos e preconceitos.
A velhice ainda é vista como uma fase da vida marcada por perdas e incapacidades, mas não é bem assim. Não é porque alguém cruza a linha dos 60 anos que passa a ter doenças, perdas e dores. Não é porque dormiu com 59 e acordou com 60 anos que se tornou uma pessoa doente.

As pessoas têm acreditado que um simples número as tornam mais fragilizadas e adoecidas e, portanto, necessitadas de medicamentos e vitaminas. É evidente que o envelhecimento, pelas próprias alterações fisiológicas que acarreta no organismo, torna este corpo mais propenso a determinadas doenças mesmo, muitas das quais requerem algum tipo de tratamento medicamentoso ou mesmo certas vitaminas. Existem algumas deficiências vitamínicas que podem se acentuar com a idade, mas não são todas as vitaminas que ficam baixas e nem são todas as pessoas que precisam delas.

É preocupante a divulgação de que todos os idosos precisam de vitaminas ou medicamentos. Ressalta-se que há exames que dosam determinas vitaminas e estas, quando baixas, são devidamente repostas. Muitas pessoas estão se automedicando e se “auto-vitaminando”, sem saber se realmente precisam, muitas vezes com a promessa de evitarem o envelhecimento ou determinadas doenças. A fácil disponibilidade destes produtos nas prateleiras das farmácias, propagandas em rádios ou televisão incentivando a utilização desses produtos, muitas vezes até com falsas promessas, levam as pessoas a acreditarem, por exemplo, que vitamina nunca faz mal e que todo idoso deveria tomar determinados medicamentos.

O uso abusivo e sem indicação de medicamentos e algumas vitaminas pode ser prejudicial, tóxico e até contribuírem com o aumento do risco de outras doenças e complicações. Não quero dizer que vitaminas e medicamentos não sejam importantes. Muito pelo contrário, se usados da maneira correta e com as devidas indicações, são benéficos e contribuem sim para melhorar as condições de saúde.

Ainda não existem fórmulas milagrosas contra a idade e o envelhecimento. Não há fonte da juventude vendida em pílulas, ainda não! Não há como prevenir o envelhecimento, pois este é universal e inexorável e faz parte do nosso ciclo de vida, é algo natural e um privilégio para aqueles que nessa fase chegam. Não temos que tentar combater o envelhecimento, pois este não é uma doença a ser evitada ou tratada. Portanto, muito cuidado com a transformação da velhice em doença.

Todas as fases de nossa vida, desde que nascemos, estão mais susceptíveis a um ou outro agravo. Há doenças que acometem mais as crianças, outras são mais comuns na adolescência, outras nos adultos e outras se tornam mais prevalentes nos idosos. Portanto a velhice é uma fase como qualquer outra e nem tudo é doença. Consulte sempre um profissional capacitado a avaliar suas reais necessidades.

O que sabemos com certeza é que, ainda, a melhor forma de envelhecer de maneira mais saudável e ativa é através de mudanças de hábito de vida. Abandonar vícios como tabaco e álcool em excesso, fazer exercícios físicos sob orientação, uma dieta equilibrada, momentos de lazer e também, é claro, a prevenção, diagnóstico precoce e tratamento adequado das comorbidades que possam surgir, são ainda os melhores recursos para nos adaptarmos aos desgastes que podem surgir com o avançar dos anos. Devemos procurar formas de envelhecer melhor, com mais saúde e qualidade de vida. O que existe são escolhas que fazemos ao longo de nossa vida que podem nos ajudar a adaptar-se melhor a essa nova fase, que não é só de perdas como muitos acreditam.

* Elaine Cristina Biffi Alonso Vera – Médica Geriatra e Mestranda do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da PUC- SP. E-mail: ecbiffi@hotmail.com

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