Max Rose, o filme

Aos 87 anos em 2013, Jerry Lewis vive Max Rose, um pianista de jazz, que após a morte da esposa, com a qual viveu felizes 65 anos, descobre por acaso, que ela teve um relacionamento com outro homem.

Maria do Carmo Di Lascio (*)

 

Uma suspeita de adultério conduz a trama deste delicado filme. Entretanto, a narrativa vai desvendando a verdadeira história de Max Rose – uma saga de família, tão próxima de todas as famílias, tão verdadeira, que todos se identificam com os personagens que compõem a teia de um relacionamento entre três gerações.

Jerry Lewis, o grande ator e comediante que arrebatou as plateias como autor e protagonista de filmes geniais como O Terror das Mulheres (The Ladie’s Man), O Professor Aloprado (The Nutty Professor), e outros de uma extensa filmografia, brilha novamente. Aos 87 anos em 2013, Jerry Lewis vive Max Rose, um pianista de jazz, que após a morte da esposa, com a qual viveu felizes 65 anos, descobre por acaso que ela teve um relacionamento com outro homem.

Max Rose é introduzido no filme em close, vestindo um suéter vermelho, no estilo que Jerry Lewis usou em muitas de suas comédias. A câmara se detém alguns segundos em seu rosto, num momento em que ele está abraçando a neta, a personagem que lhe faz um contraponto, interpretada por Kerry Bishé. A canção tema de Max Rose, de autoria do grande Michel Legrand, acompanha a câmera nas sequências seguintes, quando avô e neta entram no cenário de sua casa, onde será introduzido o terceiro personagem do trio principal: o filho Chris, interpretado por Kevin Pollok. As cenas que se seguem em longos planos mostram a rotina de um idoso, e sua jovem neta que vive com ele no cenário que é a casa da família, produzido cuidadosamente para caracterizar um tempo que atravessa mais de uma década.

Avô e neta tem uma relação de cuidado e carinho. Mas apesar do carinho, Max Rose vive uma certa tensão. Não quer que a neta faça sacrifícios em sua vida pessoal por ter que cuidar dele. Em entrevista concedida a um programa de televisão americano, ao lado do jovem diretor Daniel Noah, Jerry Lewis disse que, para ele, os melhores momentos da filmagem foram as cenas com Annie-Kerry Bishé. Muita cumplicidade na relação entre avô e neta. Os cuidados habituais com um idoso e a rotina de remédios, refeições, “vai dormir”, “vai tomar banho”, entremeados com brincadeiras divertidas.

O filho Chris, o provedor da família, tem relação tensa com o pai, por motivos não claramente explicitados. O processo de desconstrução do núcleo familiar com a morte da mãe e avó, e a necessidade de cuidado permanente com o idoso Max, são os pequenos dramas cotidianos de três gerações.

A demonstração da paixão de Max Rose por sua esposa Eva, recentemente falecida, interpretada por Claire Bloom, estão entre os melhores momentos da atuação de Jerry Lewis. A personagem é apresentada através de flashes da memória de Max Rose. Cenas do cotidiano de convivência de um casal, sempre no ambiente da casa da família. A paixão transparece nos diálogos, nas falas e na maneira como o olhar de Max segue Eva, se movendo na cena, com uma expressão de enlevo.

O tema da infidelidade da esposa também é introduzido de maneira suave: Max Rose, revirando gavetas, descobre em um estojo de maquiagem, uma dedicatória gravada, datada e assinada como Ben Tracey. Em mais um flashback, a cena na qual Max Rose surpreende a família e amigos – o funeral da esposa. Diante dos convidados do velório, Max Rose faz um discurso desconcertante ao afirmar que sua vida foi uma mentira e que ele foi um fracasso. Em casa, mostra para a neta o estojo de maquiagem com a dedicatória à Eva.

A preocupação da neta e do filho por Max ficar muitas horas sozinho, finalmente traz o desfecho que a família muito temia: Max tem um infarto em casa, se recupera e é internado em uma instituição para idosos.

Os longos planos sequência, em tom intimista, sempre dentro da casa, ao som do piano, onde os protagonistas são sempre o trio familiar, mudam de tom a partir da mudança de Max. A difícil adaptação no ambiente de convivência no coletivo introduz novos personagens e muda a dinâmica da trama.

Três ótimos atores entram na história, como os amigos que Max faz na instituição onde está institucionalizado. Uma das melhores sequências do filme é a festa exclusiva promovida no asilo, pelos três amigos, com piadas, bebidas e música. Max/Jerry interpreta uma incrível cena imitando os instrumentos de uma big band.

Com a ajuda dos amigos, Max encontra o suposto amante da mulher, interpretado por Dean Stockwell.

Aos 87 anos Jerry Lewis nos comove como Max Rose. Sempre tendo atuado como diretor, roteirista e protagonista, neste filme, se submete à condução competente do jovem diretor Daniel Noah, que é também o roteirista e revelou ter criado o filme inspirado na vida de seus avós. Um filme delicado, instigante e com grandes interpretações de ótimos atores conduzidos por um bom diretor.

Ficha técnica
Disponível no Netflix
Filme americano lançado em 2016, produzido em 2013
Apresentado no Festival de Cannes de 2013
Diretor: Daniel Noah
Roteiro: Daniel Noah
Produzido por: Garret Kelleher, Lawrence Inglee, Bill Walton
Canção tema: Michel Legrand e Alan e Marilyn Bergman
Atores: Jerry Lewis, Kerry Bishé, Kevin Pollok, Claire Bloom, Dean Stockwell, Rance Howard, Mort Sahl, Lee Weaver, Illeana Douglas

(*) Maria do Carmo Di Lascio tem Graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Pós-graduação em Gestão e Políticas Públicas pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo/SP. Fez voluntariado em Lisboa, Portugal, de 10/07/2018 a 12/10/2018, na Freguesia da Câmara Municipal de Lisboa, Centro de Convívio de Idosos da Paróquia de São Paulo e Projeto “A avó vem trabalhar”. E-mail: mariaguidodl@gmail.com

 

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