Mauro José Barbosa Baster, 64 anos

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A origem

Nasci no Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1944. Meu pai José era bastante rígido, minha mãe Maria Paulina, era mais flexível. Tenho duas irmãs. Fomos criados numa família católica e tivemos uma boa educação; estudamos em colégios religiosos.

Marisa Feriancic

 

Tivemos uma infância e uma adolescência boa. Meu pai era funcionário público, trabalhava na Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro e o trabalho era todo para sustento da família. Não tínhamos fartura, era tudo regrado, mas vivíamos bem.

Comecei a trabalhar muito cedo. Meu primeiro emprego foi aos 18 anos, mas aos 15 eu já fazia meus negócios, já buscava minha independência. Tinha uma amiga que era aeromoça e sempre que ela viajava, trazia artigos importados para eu vender. Naquela época eu vendia as famosas calças Lee, que não existiam no Brasil. Com 18 anos fui trabalhar como bancário e aos 21, já era gerente de banco. Fazia Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas, mas não completei o curso superior. O banco me consumia muito tempo. Quando saí do Banco fui trabalhar no mercado de ações.

O casamento

Carioca gosta de passar férias em Caxambu. Em 1966, conheci Tereza, em Caxambu, Minas Gerais. Ela morava em Santos e eu no Rio de Janeiro.

Em 1967 casamos e em 1969 tivemos nosso primeiro filho. A juventude passou rápida, mas graças a Deus tive uma boa educação e amadureci cedo. Tereza foi e é até hoje uma grande parceira, sempre me ajudou em tudo. Ela tinha muita preocupação com nosso futuro. Eu também tinha, mas sempre confiei em mim. Deu tudo certo. Dou graças a Deus pela família que eu vim ao mundo, pela família da minha mulher e pela minha família atual.

Hoje temos três filhos formados, casados e quatro netos. O filho mais velho tem 38 anos e mora na China, em Hong Kong, ainda não tem filhos. Minha filha me deu três netos. O mais novo tem três anos e o mais velho 12 anos. Meu filho mais novo mora em Santos.

Acho que a religião é importante. Dá uma base para a união da família. Depois, é o amor e o relacionamento.

Os pais de Tereza tiveram nove filhos e a família é muito unida. Isso é raro, às vezes você só tem dois filhos e eles não se dão bem. Em casa todos se respeitam, nunca tivemos brigas. Se reunir a família para um bate papo você já tem 40 pessoas, se reunir para festa vai para 200 pessoas. Parece brincadeira, mas é assim. Nunca houve uma briga de família entre cunhados ou irmão. Minha sogra foi uma pessoa muito querida, era agregadora como eu. Fazia tudo por todos. Senti muito com o falecimento dela e do meu sogro.

Sempre tive meus cunhados mais velhos como irmãos, e os mais novos como filhos. Acho que a família estressante pode ser destrutiva, dificulta a vida das pessoas Tenho um cunhado com 50 anos, que tem um relacionamento com meu filho de 30 como se fossem amigos. Nossos filhos sempre tiveram bom relacionamento entre si. Não sou machista, mas acho que a mulher é fundamental na educação dos filhos. O homem tem sua parcela de responsabilidade, mas eu, por exemplo, me acho péssimo em alguns setores. A parte da escola sempre foi de Tereza. Ela sempre teve mais facilidade que eu. Ela orientava melhores os estudos dos filhos.

Eu entendo que a responsabilidade de criar os filhos é dos dois. Na época que meus filhos eram pequenos, a gente se revezava. Sábado era de um e o domingo era do outro. Eu saía com as crianças, levava para passear, dava mamadeira e Tereza ficava dormindo um pouco mais.

A gente sempre se entendeu bem. A cumplicidade do casal é importante.

Quando os filhos eram adolescentes, chegavam tarde dos programas, entravam no nosso quarto, a gente já estava domindo, mas eles queriam conversar. E a gente conversava. Não importava a hora.

O mercado de trabalho após os 60 anos

Apesar das mulheres estarem no mercado do trabalho e muitas até sustentam a casa, culturalmente, o homem ainda se considera o provedor.

O mercado de trabalho para o homem que envelhece é muito cruel. A gente chega numa idade com experiência de vida, uma bagagem construída ao longo dos anos, e não se sente valorizado, ao contrário, se sente descartado. Eu sei que as informações são muito rápidas, temos mais dificuldade de assimilar, mas a vivência que você adquire com a idade, também é importante.

Se você tem mais de 60 anos, trabalhando na empresa há 27 anos, adquire benefícios que não interessa mais profissionalmente. Começa a onerar a empresa. Isso aconteceu comigo e acontece com muita gente. Você se torna descartável.

Para mim foi muito difícil assimilar. Foi um baque muito grande. Tive problemas cardíacos, abalou minha saúde. Graças a Deus superei. Na verdade, estou superando ainda.

Na minha idade, ainda sou produtivo, posso fazer muita coisa, estou trabalhando em outro ramo. Quando atravessamos uma fase difícil, o apoio da família é fundamental. Minha família me ajudou muito.

Saúde

Meu pai queria fazer medicina, não fez, mas sempre se envolveu em assuntos médicos. A família sempre o consultava sobre assuntos médicos. Ele entendia bastante e era muito preocupado com a nossa saúde. Isso me trouxe uma educação nesta parte de cuidar. Meu pai sempre fez acompanhamento médico. Tive forte influência dele. A família da minha mãe tinha muitos problemas cardíacos, principalmente pressão alta. Quando passei dos 40 anos fiquei mais atento e comecei a me cuidar mais. Conhecer a hereditariedade é importante.

Já algum tempo eu tive um primeiro caso de arritmia por conta de um estresse e depois de algum tempo, começou a repetir esses episódios com mais freqüência. Fiz tratamento e melhorei, mas aquele vinho que todos dizem que faz bem à saúde, eu não posso mais. O álcool desencadeia a arritmia. Posso tomar um pouquinho, bem espaçadamente. Minha mulher me ajuda neste sentido, me fiscaliza.

Sei que os exercícios físicos também são importantes, mas faço apenas umas caminhadas com minha mulher, para passear, nada sistematicamente. Isso é ruim, principalmente quando se vai envelhecendo. Admito que seja falta de vontade mesmo. Admirava muito meu sogro, ele tinha mais de 80 anos e nadava todos os dias. Tinha uma força de vontade tremenda. Ele saía casa às sete horas da manhã e ia ao clube nadar 500 metros, diariamente. Independente se tinha sol ou chuva.

Essa força de vontade eu não tenho. Mas sei que exercício é importante.

Nunca tive nenhuma doença séria. Recentemente fiz uma cirurgia de próstata, mas não era nada grave. Estou atento ao meu peso, cuido da alimentação, porque a idade vem chegando e precisamos deixar de consumir determinados alimentos. Eu adoro feijoada, mas hoje como menos e tem que ser mais leve, mais couve do que carnes. Não me sinto mal se comer alguma coisa diferente, mas estou consciente que eu preciso cuidar da saúde. Minha mulher colabora muito. Se você comer errado sabe que a satisfação é só imediata.

Sexualidade

O homem, principalmente os mais velhos, tem muita dificuldade de conversar sobre sexualidade, muito preconceito e muita vergonha. Eu não tenho esse problema. Acho fundamental falar sobre o assunto. Falando, você pode ajudar, pode esclarecer e instigar a busca de mais conhecimentos. Pode ajudar a afastar os fantasmas. O psiquismo do homem é importante na questão sexual. Culturalmente, pelo fato de ser homem, pode sofrer mais do que a mulher se tiver um problema sexual.

Meu pai também teve problema de próstata. Acho que todo homem, depois de certa idade tem. Eu faço acompanhamento médico porque meu PSA é muito alto. Faço exames periódicos e desde os 40 anos, faço acompanhamento médico.

Fiz uma cirurgia da próstata porque ela estava grande, era um aumento normal, não tive câncer de próstata. A cirurgia, embora moderna, é agressiva, mas saí muito bem dela. Tive uma boa recuperação. Geralmente as pessoas associam qualquer problema de próstata à câncer. A cirurgia foi para liberar o canal da urina. Antes da cirurgia conversei muito com os médicos e com pessoas que também tinham feito. Acho fundamental a informação.

Tem que saber tudo que vai ocorrer na cirurgia, no pós-operatório e as conseqüências. Existe muito medo da disfunção erétil, mas têm muita falta de informação.

Com 64 anos, tenho uma vida sexual bastante satisfatória

Meu pai falava muito de prevenção. Se você detecta no princípio, pode evitar riscos maiores. A medicina está muito evoluída e os tratamentos são modernos. Acho que vale para tudo, se você detectar uma doença no início, é mais fácil se recuperar. Tive pólipos intestinais e faço acompanhamento. Meu pai também tinha por isso eu disse que é importante conhecer a hereditariedade. Na época, ele teve que operar, abrir a barriga toda. Hoje é mais simples. Você faz uma colonoscopia, dorme meia hora, acorda e já retiraram todos os pólipos. Se você não fizer um acompanhamento, não retirar, pode degenerar e se transformar em câncer do intestino. Estamos falando do homem, mas é importante também a mulher se cuidar.

Entendo que sexo não é animal. Tem que ter amor, bom relacionamento e envolvimento. Se tiver isso, pode durar muito. A cirurgia não perturbou minha sexualidade acho que até melhorou. Temos que entender que os anos vão passando, e como dizia meu sogro: ninguém fica impune à idade. Com certeza, vai mudando a questão sexual, mas também não é porque você não tem mais o mesmo ritmo sexual, ou não tem uma vida sexualmente ativa que tudo acabou. Você tem o carinho, o amor, o relacionamento que permanece. Tanto para o homem e para mulher ocorrem transformações, mas não acaba.

Meu relacionamento com minha mulher é muito gostoso. Estamos sempre abraçados, se beijando, dormimos abraçados, isso é amor.

A sociedade muda, mas não podemos viver criticando os mais jovens, tem muita coisa moderna que os mais velhos não aceitam, mas acho também que a sexualidade hoje, está muito banalizada. Fica com um, fica com outro, acho complicado.
Temos também que aceitar, que filhos chegam numa idade, e você já fez o que podia por eles. Já ensinou o que sabia. Meus filhos já estão criados eu não tenho mais esse problema.

Agora, é época de mostrar para os netos nossos valores. Minha vida é da casa para o trabalho e do trabalho para casa. Essa união é importante entre os casais. O amor é fundamental na relação.

A sexualidade nos idosos: AIDS, disfunção erétil e viagra

Para mim, a informação de que a AIDS está aumentando nos idosos é nova. Penso que é falta de informação, as pessoas idosas estão praticando sexo sem proteção.

No casamento, é fundamental ter um relacionamento honesto. Minha mulher é minha parceira e nunca tive vontade de procurar nada fora do casamento. Não tenho nenhum escrúpulo em confessar isso. A cumplicidade, a parceria, é muito importante

Se o homem quer buscar a virilidade juvenil, correr atrás de moças, cada um tem a opção de fazer o que quer, mas tem que se proteger para não contrair AIDS. Não estou aqui para condenar ninguém. Se o homem precisa tomar algum medicamento, tem que tomar, é válido. Para usar também com sua parceira, não vejo nada de errado. Penso até que é uma forma de amor, de preocupação com a parceira, para ela ter prazer. Isso não é machismo, o fato é que idade traz mudanças. Tomar viagra ou medicamento dessa natureza deve ser usado de forma adequada, com orientação médica.

Existe ainda preconceito: que as a relações entre os casais cuja mulher é mais nova e o homem é mais velho, não tem amor, é só interesse econômico. Eu acredito que pode existir amor. O contrário também e verdadeiro; a mulher também pode encontrar um homem mais novo. Se as pessoas forem interessantes, não importa a idade.

No caso de acontecer um relacionamento de um homem mais velho com uma mulher mais nova, ele vai querer oferecer um relacionamento sexual melhor para ela. Neste caso, ele pode precisar usar medicamento. Mas, as pessoas mais velhas teriam que ter mais maturidade e fazer sexo com segurança.

O envelhecimento

Quando a família é unida você tem suporte emocional para envelhecer com mais qualidade.

Eu gosto de agregar as pessoas. Se eu pudesse, teria todo final de semana a família aqui em casa.

Quando fiz 60 anos organizei uma festa. Convidei parente e amigos do Rio de Janeiro e de Santos. Imaginei que viriam umas 50 pessoas. Para minha surpresa vieram 72 pessoas. Sou muito apegado à minha família. Se eu tivesse dinheiro eu construiria um prédio de cinco andares e colocava cada filho em um apartamento.

O psiquismo é importante no processo de envelhecimento. Quero envelhecer bem, mas ninguém está livre de uma doença. Não saberia ser dependente. Se precisar vou ter que aprender. Vai ser muito difícil.

Temos que fazer tudo para se cuidar, para prevenir, para ter uma vida saudável. Não tenho medo de envelhecer, tenho medo de ser dependente Sou uma pessoa que estou sempre pronto, adoro ajudar os outros, talvez tenha que aprender a pedir ajuda também.

Se eu estiver alheio, não saberei da dependência, paciência.

Esta é minha maior preocupação na velhice, porque envelhecer, todos nós vamos, uns mais outros menos.

Gostei muito de conversar, é bom falar, a gente aprende junto.

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Redação Portal do Envelhecimento

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