Maudie, ou a arte como estratégia de sobrevivência emocional

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Assim como grandes nomes das artes plásticas usaram a pintura como representação da dor, sofrimento, alegria, doença ou reclusão, Maudie fez da arte o sentido da sua vida.


Para introduzir o espectador neste filme emocionante, vale mencionar que se trata da cinebiografia romantizada da artista naif canadense Maud Lewis, que nasceu em 1903 e alcançou o reconhecimento internacional como pintora aos 62 anos pela sua arte. A história de Maudie, uma saga de opressão, preconceito e humilhação, fascina e comove o espectador da primeira à última cena. Um dos pontos fortes do filme foi a escolha da excelente atriz Sally Hawkins para interpretar Maudie. Sally brilhou também como protagonista do filme A forma da água, que ganhou o Oscar de melhor filme em 2017.

Maudie padece de grave doença de artrite que a tornou deficiente física desde criança. Pela sua condição de debilidade física, Maudie é estigmatizada pela família como sendo também mentalmente incapaz. O desenrolar da narrativa demonstra a inteligência emocional de Maudie e sua habilidade para conviver com os vários tipos de preconceitos e violências que lhe impõem os familiares e o marido. Inclusive as violências física e patrimonial.    

arte

Rejeitada e hostilizada por sua tia e seu irmão, que lhe usurpa a herança da casa dos pais, Maudie toma uma decisão radical de ir trabalhar como empregada de um homem rude e solitário, que acaba se tornando seu marido.

O filme descreve a vida dura e simples de Maudie na pequena casa onde vai viver isolada e servindo ao seu marido. Que logo estabelece a hierarquia da nova família: o homem da casa, os cães, as galinhas e por último, Maudie.     

O filme foi rodado nas belíssimas paisagens rurais de Terra Nova e Labrador, no Canadá. Próximas à Nova Escócia, onde viveu Maudie. 

Humilhada e oprimida de todas as maneiras pelo marido, e pelas condições de vida quase miseráveis na minúscula cabana onde viviam, Maudie encontra uma lata de tinta e começa a pintar as paredes e os móveis da cabana. Sua arte expressa o seu cotidiano modesto e simples, mas sempre com muitas cores básicas e temas alegres. Pinta as galinhas, as flores, a casa e a natureza. O marido era pescador e vendia peixes. Um dia uma cliente do marido vai até à casa deles e se surpreende e se encanta com a própria Maudie e com sua arte. E faz uma primeira encomenda de cartões e quadros.

Assim como grandes nomes das artes plásticas usaram a pintura como representação da dor, sofrimento, alegria, doença ou reclusão, Maudie fez da arte o sentido da sua vida.

O diretor Aisling Walsh foi impecável no casting e na direção dos atores. O co-protagonista, Everett Lewis, o marido de Maudie, interpretado por Etham Hawke, que se destacou nos filmes O Predestinado e Dias de treinamento, entre outros, fez uma excelente caracterização do marido opressor.

A roteirista faz com que o público perceba através das falas de Maudie, a sua inteligência intuitiva e emocional e a sua capacidade de reverter algumas das rejeições impostas pela família e pelo marido.

Ao final, é exibido um curto clip em preto e branco com imagens documentais de Maudie, do marido e da casa repleta com suas pinturas.    

Ficha Técnica
Título original: Maudie
Título brasileiro: Maudie: sua vida, sua arte
Co-Produção: Irlanda, Inglaterra e Canadá
Idioma original: inglês
Data de lançamento: 2016
Direção: Aisling Walsh
Roteiro: Sherry White
Produtores: Susan Mullen e Tyler Mitchell
Atores: Sally Hawkins, Ethan Hawke, Kari Matchett, Gabrielle Rose, Zachary Bennet
Disponível na Netflix


Intergeracionalidade

Maria do Carmo Guido

Maria do Carmo Guido

Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós graduada em Gestão de Políticas Públicas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Pesquisadora e consultora nos temas da Economia do Envelhecimento. E-mail: mariaguidodl@gmail.com

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