Marie Curie, “As coisas que nos enfraquecem são as coisas que nos fortalecem”

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Mais de 1 milhão de homens fizeram raios-x nas unidades móveis de radiografia, salvando inúmeras vidas. As descobertas de Curie levaram a tratamentos de câncer eficientes que são usados até hoje. Na França, são conhecidos como curieterapia.


Paris, 1934…

Lá está ela, a altiva, determinada e intrépida Marie Skłodowska Curie, física e química polonesa, naturalizada francesa, que conduziu pesquisas pioneiras sobre a radioatividade. Uma mulher, diga-se de passagem, muito além de seu tempo. E nesse recontar de histórias de personagens célebres e reais, que deixaram suas importantes e definitivas marcas e feitos no mundo, o cinema com um tom romantizado e, em alguns momentos criando situações que não ocorreram ou que não se pode comprovar, brinda-nos com uma trajetória preciosa e mensagens que nos dá forças para seguir, mesmo em tempos tão delicados e sofridos como esses em que vivemos.

A mão que conduz o longa em questão, “Radioactive”, pertence à Marjane Satrapi, a mesma que tão brilhantemente fez de “Persepolis” (2007), uma joia da animação francesa. Mas o filme de Marie Curie talvez não atingisse seu objetivo se não fosse a atuação de Rosamund Pike (Garota Exemplar, Eu me importo…), impecável na pele da cientista. Além dela, completa elegantemente como Pierre Curie, companheiro e marido, Sam Riley numa atuação emocionada e ao mesmo tempo precisa.

E no corredor de um hospital, talvez nos seus últimos minutos ou, quem sabe, horas, algo como uma vida inteira retorna em avalanches de sentimentos, dores, estudos e realizações.

A primeira lembrança, que só os apaixonados compreendem, não poderia ser outra: Pierre Curie, o homem que viria a ser seu parceiro nas pesquisas, seu amor, aquele que a compreendia nos mínimos olhares e gestos, nas intransigências e nos inúmeros insights brilhantes. Ele sabia ler seus silêncios, algo raro.

Paris, 1893…

Se o encontro entre Marie e Pierre se deu dessa maneira ou não, pouco importa, cedemos a um tantinho de ficção que não faz nenhum mal aos corações.

– Pierre: Quer uma carruagem? Vai a algum lugar? Duclaux? Se interessa por microbiologia?

– Marie: Eu me interesso por qualquer ciência que confronte atitudes prevalecentes.

Apenas um esclarecimento: Émile Duclaux foi um biólogo e bioquímico francês, sucessor de Louis Pasteur na direção do Instituto Pasteur, estudou fermentação e doenças microbianas.

Bem, depois de muitas recusas do Departamento de Ciências (Universidade de Paris) à Marie, que não se entrega à arbitrariedade, nem às manifestações claramente machistas, um reencontro a coloca novamente na vida de Pierre.

Tudo diante da arte de Loïe Fuller, na verdade Marie Louise Fuller, atriz e dançarina norte-americana, pioneira das técnicas, tanto da dança moderna quanto da iluminação teatral. É a inventora da serpentine dance.

Diante do olhar curioso e encantado de Marie, Pierre, explica: “Loïe chama sua dança de ‘dança do fogo’, por se interessar em como as chamas se movem”.

Resistente, relutante em compartilhar suas ideias, seus trabalhos com Pierre, Marie ainda hesita, mas ele está determinado a convencê-la.

“A Academia também não deve gostar tanto assim de mim. Fui preterido em todos os avanços, magistérios e financiamentos. Talvez eu os entedie ou assuste, mas eles também não me agradam”, confessa Pierre.

– Marie: Mas você é um cientista de renome.

– Pierre: Então estou pedindo para que divida comigo este espaço “básico”, mas renomado. Tenho um instinto sobre a senhorita.

– Marie: Um instinto não é um motivo científico.

– Pierre: Não, mas ainda é um motivo.

Como não ceder às palavras desse homem? Assim, ela decide e partilha seu mundo de trabalho e, claro, sua vida com Pierre. Os trabalhos avançam e acontece o casamento, uma consequência natural que dele nascem Irene, futura cientista e filha mais velha do casal, e Eve.

Não tardou para que o casal anunciasse a descoberta:

– Pierre: Achamos que encontraríamos um novo elemento. Estávamos errados. Levou 4 anos… Estamos aqui para apresentar dois novos elementos: polônio e rádio.

– Marie: Achávamos que os átomos fossem finitos e estáveis. Acontece que alguns não são e, na instabilidade deles, eles emitem raios. Eu dei o nome disso de “radioatividade”. Estamos aqui para dizer que os senhores incompreenderam o átomo.

A Academia encantada com o trabalho dos dois pesquisadores se rende aos aplausos e as manchetes explodem:

Marie, descobridora do rádio e do polônio
Violação da lei fundamental
Radioatividade. Vida. Morte

Pierre, reflexivo e preocupado com os caminhos da descoberta confessa à Marie: “Posso sentir nosso trabalho se expandindo por aí.”

Discurso de Pierre no Nobel: “O exemplo das descobertas é característico, pois explosivos de alta potência permitiram realizar um trabalho incrível. Eles também são um terrível meio de destruição nas mãos de grandes criminosos que levariam o povo à guerra.”

Otimista, o cientista continua: “Sou um daqueles que acredita que a humanidade terá mais bem do que mal com essas novas descobertas.”

No filme, surgem cenas neste momento de Nevada, 1961. Propositalmente, a cena é bruscamente cortada para um cartaz, num tempo futuro, não muito distante. E em seguida outras cenas, Bomba Atômica – Veja a explosão, Só US$ 0,50 por pessoa.

A tragédia invade a vida de Marie quando perde seu Pierre ainda jovem. Ele é morto em um acidente, ao mesmo tempo que sofria por envenenamento de radiação.

Pierre, homem da ciência, nutria um profundo interesse nas pesquisas místicas, entretanto o filme não aprofunda o longo envolvimento com a espiritualista Eusapia Palladino. O estudioso chegou até a convidar membros da comunidade científica para acompanhar esse trabalho.

Marie chegou a acompanhá-lo, mas permanecia incrédula até o momento da dor de ter perdido Pierre. Ela procura a dançarina Loïe, presente naquele tempo nas sessões espíritas, e implora: “Eu não entendia este lugar… Pode fazer o que ela [Eusapia] fazia? Quero que faça meu marido aparecer”.

– Loïe: Acho que nem ela prometia isso.

A morte faz dessas coisas. Deixa um gosto amargo de saudade, vazio que nos faz recorrer ao inimaginável. Nesse momento, toda racionalidade desaparece e queremos apenas que nosso “ele” retorne, apareça e nos conforte.

O tempo passa, as feridas se aplacam e Marie se torna a primeira professora da Sorbonne, uma promoção que já deviria ter acontecido para a primeira ganhadora do Prêmio Nobel da França e do mundo.

“Quero falar sobre o rádio, um elemento muito peculiar e notável porque ele não se comporta como deveria.” (Marie, em sua primeira aula na Universidade)

Cenas – Chernobyl, 1986

Marie vivia a vida que queria e por essas e outras razões começa a sofrer graves insultos: “Escória polonesa! Só judeus! Vá para casa!”

– Irmã: Esses nacionalistas te chamam de polaca imunda e judia suja.

– Marie: Tentei dizer que sou uma católica suja e não praticante, mas… não deram ouvidos. Bem, quando a opinião dos outros afetaram algo que eu fiz?

E a brilhante pesquisadora recebe seu segundo Prêmio Nobel, desta vez de química pela extração dos elementos rádio e polônio, mas, mesmo sendo aconselhada pela própria Academia Real de Ciências da Suécia a não comparecer para “evitar controvérsias desnecessárias”, lá está ela, pronta para seu discurso “A química do imponderável”, acompanhada pela filha.

O movimento feminino em Estocolmo a apoiou com grande força e convicção, e as homenagens mais do que justas, tiveram seu protagonismo no momento.

“Há uns 15 anos, a radiação do urânio foi descoberta por Henri Becquerel. E, 2 anos depois, o estudo desse fenômeno foi estendido a outras substâncias, primeiro por mim e depois por Pierre Curie e eu. Esse estudo nos levou à descoberta de novos elementos cuja radiação, embora análoga à do urânio, era bem mais intensa. Graças à descoberta de substâncias novas e altamente radioativas, o estudo da radioatividade progride com uma rapidez maravilhosa,” disse Marie Curie.

O tempo passa, novamente… estamos em plena segunda guerra mundial.

Irene, como cientista, implora a mãe: “É hora de fazer desta guerra sua guerra”. E lá seguem as duas, mãe e filha em busca de verba, acesso e financiamento para irem aos campos de batalha.

“Essa é minha última luta e vou vencê-la. Jovens estão morrendo… com uma unidade de radiografia móvel, podemos fazer raios-x das tropas antes de decidir pela amputação. Rapazes estão perdendo as pernas por tornozelos torcidos. Minhas máquinas de raios-x podem salvar vidas. Usaremos radiação de radônio para cauterizar feridas. É rápido, eficiente e pode parar a perda de sangue. Nossas propostas darão mais homens aos campos de batalha. Pode me dar minhas máquinas de raios-x e ambulâncias?” (Marie Curie ao Ministro…)

O desfecho real e não o narrado no filme é que para conseguir os recursos necessários, Marie compra títulos de guerra com o dinheiro que ganhou com as vitórias no Prêmio Nobel.

Marie em seu último suspiro, agora já amparada por Pierre que diz: “Você Marie, fez o extraordinário, mudou o mundo. Se foi do jeito certo? Bem, prefiro esperar que o mundo seja cheio de esperança e tema as trevas. Você jogou uma pedra na água, não consegue controlar as ondas. Há coisas para se temer, mas há muito para comemorar.

– Marie: Espero que tenha razão. As coisas que nos enfraquecem são as coisas que nos fortalecem.

Marie morreu em julho de 1934 e foi enterrada ao lado de seu amado Pierre. Irene Curie ganhou o Prêmio Nobel com o marido, Frédéric Joliot, pela descoberta da radioatividade artificial.

Mais de 1 milhão de homens fizeram raios-x nas unidades móveis de radiografia, salvando inúmeras vidas. As descobertas de Curie levaram a tratamentos de câncer eficientes que são usados até hoje. Na França, são conhecidos como curieterapia.

Para saber mais
SANTOS, Carlos Alberto dos, e SILVA, Leandro Londero da.  A história que o filme Radioactive não conta e a percepção de de alunos de licenciatura em física. Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 43, e20210037, 2021. DOI: https://doi.org/10.1590/1806-9126-RBEF-2021-0037


literatura
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Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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