Mais malvadezas

Em março de 2000, ainda era um convicto resistente ao uso do computador e poderia, logo mais, me tornar um campeão como colecionador de textos anti-internet. Pra mandar minhas broncas para as redações, usava apenas o velho fax.

Waldir Bíscaro *

 

Por essa ocasião era assinante da revista de temas de gestão, HSM – Management e foi lá que localizei o cochilo de uma articulista:

“… A internet nos lembra as lutas dos gladiadores que vimos no filme “Spartacus”. Em vez de cristãos sendo atirados aos leões …”

Mandei então meu recado: Acho que a moça confundiu-se com outro filme.

Spartacus morreu quase cem anos antes de o primeiro cristão virar iguaria de leão. É isso que dá estudar história pelos filmes de Hollywood.

Ainda a respeito dos temas “coaching”, “counseling” e quejandos, captei algumas pérolas ouvindo a CBN, no programa do Heródoto Barbeiro: “Mundo Corporativo” (Set – 2004). Alguma jovem consultora interrogada pelo repórter sobre há quanto tempo existia a prática do counseling? A moça voou longe:

“Já na antiga Grécia, os Faraós tinham seus counselors…

Fiquei imaginando a cara do Heródoto diante de tamanha erudição.

Ainda nessa entrevista a jovem diz com muito orgulho que no Brasil, foi sua consultoria que introduziu essa prática nas organizações, em 2001. (O counseling já era praticado no Brasil desde 1960, Pierre Weil e equipe)

Mais adiante a moça radicaliza: “…não é importante que o counselor entenda de pessoas, ele precisa entender mesmo é de negócios”

Nessa hora, Rogers deve ter dado murros no caixão…

O mais comovente, porém, nessa entrevista é quando essa profissional faraônica fala da elite das empresas. É que o counseling, para ela, só se destina a atender presidentes e diretores. Por que? Ela explica: “essa categoria anda muito desassistida, pois o poder cria em torno dos altos executivos um vácuo e eles ficam desorientados…”

Como disse é muito comovente, mas, pensando bem, ela tem razão. Um instrumento já indicado para os “faraós da Grécia” jamais poderia chegar a meros peões de chão-de-fábrica, afinal: noblesse oblige. Só que, para Rogers, esse instrumento era destinado aos empregados para resolver seus problemas pessoais, sem qualquer elitismo.

Bronca especial reservei para um cidadão entrevistado pela revista de treinamento “T&D” e que vou chamar de senhor G; essa pessoa já se apresentara em programa de TV exibindo habilidades mediúnicas, psicografando pinturas de grandes artistas.

Na entrevista de Julho 2000, esse senhor esbanja generalização, preconceito e arrogância.

Ele começa dizendo que sua profissão se chama Metafísica. Isso me fez lembrar dos sofistas da velha Grécia que vendiam sabedoria em praças públicas, a preços módicos. Veio, em seguida, uma fiada de generalizações do tipo: “Católico é muito atrasado”, “O povo do nosso país é muito invejoso”, “A psicologia está toda furada”. Ele ainda nos brinda com grandiloquências vazias: “Desde que a pessoa consiga manipular o seu universo interior…”.

Isso soa bem paca!…mas, o que mais esconjuro em pseudo-intelectuais é o vício da generalização.

Lá pelas tantas ele avança em terreno fora de sua competência: “As relações humanas são a principal causa dos fracassos empresariais”.

Além de reducionismo, pura alienação. Caberia aqui a frase de Apeles ao sapateiro: Ne sutor ultra crépidam…*

Ao final mando um recado para o senhor G: Preste mais atenção quando falar para uma revista séria e para gente mais bem informada. V S não está no programa circense…

*Trad. livre: Não suba o sapateiro além da sandália.

* Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br

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