“Mãe” cuida dos pais

Rabujo igual aos que amam. Quando amamos, temos urgência em proteger, por isso somos mais do que sinaleiros, apontando, assobiando, mais do que árbitros, fiscalizando para que tudo seja certo, seguro. E rabujamos porque as pessoas amadas erram, têm caprichos, gostam de si com desconfiança, como creio que é normal gostarmos todos de nós mesmos.

 

 

mae-cuidar-dos-paisQuem ama pensa em todos os perigos e desconta o tempo com martelo pesado. Os que amam sem esta factura não amam ainda. Passeiam nos afectos. É outra coisa.

Quem tem coragem de falar sobre sua própria vida? Expor ao mundo o motivo de não ter casado? De refletir sobre quem cuidará de nós quando não tivermos mais condições de nos cuidar? De ter o compromisso de cuidar dos pais já idosos até para devolver minimamente o amor que recebeu na infância? Poucos, com certeza. Não é o caso do escritor português Valter Hugo Mãe que, poeticamente, conta ao mundo os seus diversos tipos de amor e medos que o sentimento cria e como eles proporcionam cuidados com pequenos detalhes da vida, presentes em seu cotidiano, em um artigo escrito ao jornal de Portugal chamado Público.

Valter Hugo Mãe estará no dia três de agosto em Porto Alegre, participando do “Fronteiras do Pensamento”, evento que propõe uma profunda análise da contemporaneidade e das perspectivas para o futuro. O projeto Fronteiras do Pensamento é comprometido com a liberdade de expressão, a diversidade de ideias e a educação de alta qualidade, promovendo conferências internacionais e desenvolvendo conteúdos múltiplos com pensadores, artistas, cientistas e líderes em seus campos de atuação.

Mãe é escritor, editor e artista plástico, com vários livros publicados de poesia e narrativa longa.

Ele se destaca no panorama da literatura internacional (não só a portuguesa) pelo carisma e o ecletismo. Ele cursou pós-graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea na Universidade do Porto.

Em 2007 ganhou o Prêmio José Saramago com o seu segundo romance, “o remorso de baltazar serapião”. Seus quatro primeiros romances são conhecidos como a tetralogia das minúsculas. Todos os livros, incluindo o nome do autor, foram escritos sem letras capitais. O objetivo foi valorizar a natureza oral dos textos e reaproximar a literatura do pensamento.

Em 2012 ganhou outro prêmio, de Poesia Almeida Garret, o Prêmio Portugal Telecom, pelo romance “a máquina de fazer espanhóis”. Sua mais recente obra, “A desumanização”, se passa nos fiordes islandeses e é narrada por uma menina de 11 anos, que conta sobre a sua vida após a morte da irmã gêmea.

Leia abaixo trecho de Valter Hugo Mãe de seu artigo “cuidar dos pais”:

“A minha mãe é a minha filha. Preciso de lhe dizer que chega de bolo de chocolate, chega de café ou de andar à pressa. Vai engordar, vai ficar eléctrica, vai começar a doer-lhe a perna esquerda.

Cuido dos seus mimos. Gosto de lhe oferecer uma carteira nova e presto muita atenção aos lenços bonitos que ela deita ao pescoço e lhe dão um ar floral, vivo, uma espécie de elemento líquido que lhe refresca a idade. Escolho apenas cores claras, vivas. Zango-me com as moças das lojas que discursam acerca do adequado para a idade. Recuso essas convenções que enlutam os mais velhos. A minha mãe, que é a minha filha, fica bem de branco, vermelho, gosto de a ver de amarelo-torrado, um azul de céu ou verde. Algumas lojas conhecem-me. Mostram-me as novidades. Encontro pessoas que sentem uma alegria bonita em me ajudar. Aniversários ou Natal, a Primavera ou só um fim-de-semana fora, servem para que me lembre de trazer um presente. Pais e filhos são perfeitos para presentes. Eu daria todos os melhores presentes à minha mãe.

Rabujo igual aos que amam. Quando amamos, temos urgência em proteger, por isso somos mais do que sinaleiros, apontando, assobiando, mais do que árbitros, fiscalizando para que tudo seja certo, seguro. E rabujamos porque as pessoas amadas erram, têm caprichos, gostam de si com desconfiança, como creio que é normal gostarmos todos de nós mesmos. Aos pais e aos filhos tendemos a amar incondicionalmente mas com medo. Um amigo dizia que entendeu o pânico depois de nascer o seu primeiro filho. Temia pelo azedo do leite, pelas correntes de ar, pelo carreiro das formigas, temia muito que houvesse um órgão interno, discreto, que disfuncionasse e fizesse o seu filho apagar. Quem ama pensa em todos os perigos e desconta o tempo com martelo pesado. Os que amam sem esta factura não amam ainda. Passeiam nos afectos. É outra coisa.

Ficar para tio parece obrigar-nos a uma inversão destes papéis a dada altura. Quase ouço as minhas irmãs dizerem: não casaste, agora tomas conta da mãe e mais destas coisas. Se a luz está paga, a água, refilar porque está tudo caro, há uma porta que fecha mal, estiveram uns homens esquisitos à porta, a senhora da mercearia não deu o troco certo, o cão ladra mais do que devia, era preciso irmos à aldeia ver assuntos e as pessoas. Quem não casa deixa de ter irmãos. Só tem patrões. Viramos uma central de atendimento ao público. Porque nos ligam para saber se está tudo bem, que é o mesmo que perguntar acerca da nossa competência e responsabilizar-nos mais ainda. Como se o amor tivesse agentes. Cupidos que, ao invés de flechas, usam telefones. E, depois, espantam-se: ah, eu pensei que isso já tinha passado, pensei que estava arranjado, naquele dia achei que a doutora já anunciara a cura, eu até fiz uma sopa, no mês passado até fomos de carro ao Porto, jantámos em modo fino e tudo.

Quando passamos a ser pais das nossas mães, tornamo-nos exigentes e cansamo-nos por tudo. Ao contrário de quem é pai de filhas, nós corremos absolutamente contra o tempo, o corpo, os preconceitos, as cores adequadas para a idade. Somos centrais telefónicas aflitas.

Queremos sempre que chegue a Primavera, o Verão, que haja sol e aqueçam os dias, para descermos à marginal a ver as pessoas que também se arrastam por cães pequenos. Só gostamos de quem tem cães pequenos. Odiamos bicharocos grotescos tratados como seres delicados. O nosso Crisóstomo, que é lingrinhas, corre sempre perigo com cães musculados que as pessoas insistem em garantir que não fazem mal a uma mosca. Deitam-nos as patas ao peito e atiram-nos ao chão, as filhas que são mães podem cair e partir os ossos da bacia. Porque temos bacias dentro do corpo.

Somos todos estranhos. Passeamos estranhos com os cães na marginal e o que nos aproveita mesmo é o sol. A minha mãe adora sol. Melhora de tudo. Com os seus lenços como coisas líquidas e cristalinas ao pescoço, ela fica lindíssima. E isso compensa. Recompensa.

Comemos o sol. Somos, sem grande segredo, seres que comem o sol. Por isso, entre as angústias, sorrimos.”

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