A longevidade não será igual para ricos e pobres

a-longevidade-nao-sera-igual-para-ricos-e-pobresRemédios caros destinados ao prolongamento da vida podem fornecer aos ricos a oportunidade de viver 120 anos ou mais – mas o resto da sociedade morrerá jovem?
Os ricos vão experimentar um aumento acelerado de suas expectativas de vida e saúde, e todas as outras pessoas irão na direção oposta. Estamos no limiar de dois futuros distintos – um no qual existe uma população frágil, em rápido envelhecimento que gradualmente enfraquece a economia, e outro futuro, no qual todos vivem vidas mais produtivas e longas.

Carolina Lucena *

A disparidade entre os mais assalariados e o resto da sociedade é surpreendente em nações como os Estados Unidos, onde 10% da população são responsáveis por 80% do crescimento de renda desde 1975. A vida que se pode levar como um sujeito pertencente a essa minoria de nada se parece com a do resto da sociedade: esse cidadão possui casa própria, carro híbrido e consome alimentos orgânicos, estilo de vida que de longe é melhor do que o carro alugado e a quantidade exorbitante de alimentos processados consumidos. Há também uma outra disparidade brutal que pode provocar uma luta de classe: a crescente diferença entre os que têm longevidade e os que não têm.
A diferença de expectativa de vida entre os ricos e a classe trabalhadora e pobre nos EUA é atualmente 12,2 anos. Homens brancos com diploma universitário têm expectativa de vida de 80 anos, seus colegas sem diploma de ensino médio morrem aos 67 anos. As mulheres brancas com diploma universitário, por sua vez, possuem expectativa de vida de 84 anos, já as mulheres sem diplomas vivem até os 73 anos.
E essas disparidades estão se ampliando. De acordo com um estudo de 2012 da Health Affairs, as vidas de mulheres brancas e desistentes do ensino médio são agora cinco anos mais curtas do que as de gerações anteriores de mulheres sem um diploma do ensino médio, enquanto os homens brancos sem um diploma do ensino médio vivem três anos a menos do que os seus homólogos fizeram 18 anos atrás.
Este é apenas um prenúncio do que está por vir. O que acontecerá quando novas descobertas cientificas aumentarem a expectativa de vida e intensificarem a desigualdade entre esses grupos em uma escala mais massiva? Parece que a guerra entre os que têm e os que não têm não será sobre dinheiro per se, e sim sobre se poder viver até os 60 versus 120 anos ou mais. Se aceitará o fato de que os que têm vão poder viver o equivalente ao dobro da vida de um sujeito que não tem.
Devemos discutir essa questão agora pois estamos perto de alcançar uma fonte de juventude que pode expandir nossas expectativas de vida produtiva para a centena – não é mais material de ficção científica. “Nos últimos cinco anos houve muitos avanços”, diz o geneticista de Harvard David Sinclair, “Há agora uma variedade de compostos que estão sendo testados nos laboratórios e que retardam extremamente o processo de envelhecimento, assim como o aparecimento de diabetes, câncer e doenças cardíacas.”
Sinclair, por exemplo, liderou uma equipe de Harvard que recentemente descobriu uma substância química que inverte o processo de envelhecimento em células. Os cientistas alimentaram ratos com NAD, um composto natural que melhora as mitocôndrias – as fábricas de energia das células – resultando em um metabolismo mais eficiente e menos resíduos tóxicos. Depois de apenas uma semana, o tecido de ratos mais velhos se assemelhava ao de ratos de seis meses de idade, uma taxa de reversão “incrivelmente rápida” que surpreendeu os cientistas. Na escala humana, seria o equivalente a uma pessoa de 60 anos se converter em uma de 20, oferecendo o sonho tentador de combinar maturidade e sabedoria com a robusta vitalidade da juventude. Os pesquisadores esperam começar os testes em humanos em breve.
Também no começo do ano de 2016, duas equipes de cientistas – uma da Universidade da Califórnia em São Francisco, e outra de Harvard – anunciaram que o sangue de ratos jovens rejuvenesceu os músculos e cérebro dos mais velhos. Eles também identificaram proteínas no sangue que catalisaram esse crescimento, sugerindo a possibilidade de outro medicamento de longevidade.

Extensa pesquisa sobre centenários atingindo a idade de 100 anos e além mostra que não são os hábitos mais saudáveis ou atitudes positivas que contribuem para a longevidade e sim, em grande parte, os genes.

a-longevidade-nao-sera-igual-para-ricos-e-pobresAgora os cientistas estão ocupados peneirando milhões de marcadores de DNA procurando detectar a constelação de genes da longevidade carregadas em cada célula do corpo desses centenários. A esperança é de se inventar uma pílula anti-envelhecimento ao se sintetizar a ação desses genes.
Nos próximos 50 anos, os avanços na ciência da longevidade podem tornar uma pessoa de 60 anos e mais, dinâmica. Esta será a regra, e não exceção na nossa sociedade. Pense em Pablo Picasso, Pablo Casals ou Dave Brubeck, todos permaneceram deslumbrantes artistas e músicos mesmo em suas nonas décadas. Pessoas que hoje estão nos seus 40 ou 50 anos poderão ser os beneficiários desta mudança sísmica. “Pode acontecer no meu período de vida”, diz Sinclair, de 44 anos.
Como os novos compostos podem diminuir ou até mesmo reverter o envelhecimento, a divisão da longevidade pode se tornar um golfo tão grande quanto o Grand Canyon. Os ricos vão experimentar um aumento acelerado de suas expectativas de vida e saúde, e todas as outras pessoas irão na direção oposta, diz S Jay Olshansky, pesquisador da longevidade e professor da Escola de Saúde Pública da Universidade de Illinois em Chicago. “E com o avanço tecnológico a disparidade só vai crescer”, assinala.

Como será o novo mundo? Nós já temos uma pista

Ser pobre, por si só, é estressante pois é uma situação que circunscreve todos os aspectos da vida. Dificuldade de gerenciar as despesas – alimentação, abrigo, cuidados médicos, transporte – pode causar insônia crônica e ansiedade, aumentando os níveis de cortisol, o hormônio do estresse. Essa situação já torna a população de baixa renda mais vulnerável a uma cascata de doenças debilitantes e com risco de vida, de diabetes a doenças cardíacas. “A pobreza é uma ladra”, disse recentemente Michael Reisch, professor de justiça social da Universidade de Maryland. Segundo ele, “A pobreza não só diminui as chances de vida de uma pessoa como também rouba anos de sua vida.”
Nos EUA já existem vantagens distintas que contribuem para uma vida melhor e mais longa. Essas vantagens variam, desde simplesmente crescer em um ambiente menos tóxico com dois pais financeiramente estáveis até a capacidade de garantir bons salários e seguro de saúde adequado. Esses privilegiados moram em comunidades mais prósperas, com menos crimes, escolas públicas de qualidade, quantidade suficiente de médicos e hospitais, melhor alimentação e serviços sociais superiores ao da maioria que fornecem a ajuda necessária para cada empasse.
Caleb Finch, um gerontólogo da Universidade do Sul da Califórnia, nomeia esse grupo de “elites saudáveis”. Elas se envolvem na promoção de comportamentos saudáveis, são pessoas que não fumam e são mais propensas a ter tempo livre para se exercitar. Finch ainda completa dizendo que pessoas com renda baixa ficam doentes mais frequentemente, como geralmente moram em casas com um número maior de pessoas, quando alguém fica doente, todos ficam doentes. Para o gerontólogo essas disparidades apenas vão se expandir.
No que se refere ao futuro, é possível perceber grande preocupação com o envelhecimento dos baby boomers. O tsunami cinza dos doentes e frágeis idosos será um fardo emocional e financeiro para suas famílias e amigos e cujas enfermidades poderão levar à falência o sistema de saúde. O estereótipo de um octogenário é de uma pessoa envolvida numa nuvem de confusão, que se movimenta sem objetivos e com a ajuda de um andador – o oposto de Clint Eastwood, 84, energético em seu Filme Jersey Boys de 2014, ou a senadora americana Dianne Feinstein, 81, que se dedica e se impõe fortemente na política. Oculta nessas previsões alarmantes sobre o envelhecimento sem precedentes da humanidade está uma história completamente diferente, a história de um número cada vez maior de pessoas como Eastwood e Feinstein.
Estudos recentes mostram que quase 30% das pessoas com mais de 85 anos – marco que é considerado como a transição para o verdadeiramente velho – permanecem com sua saúde excelente, outros 56% afirmam que sua saúde não os impede de trabalhar ou fazer atividades domésticas. No futuro, aqueles que puderem usufruir dos novos medicamentes caros poderão compor uma nova camada de pessoas super-velhas saudáveis com a idade de 100, 120 anos ou mais. Para Olshansky, a experiência do envelhecimento está prestes a mudar, e as pessoas idosas terão uma trajetória relacional entre idade e saúde substancialmente diferente da de seus antecessores – especialmente se esse grupo tiver acesso a medicamentos que serão improváveis de serem fornecidos por seguros, uma vez que o envelhecimento não é uma doença.
Se essa tecnologia ficar disponível em breve, Finch, 74 anos, pode se tornar um beneficiário, afinal o gerontólogo não apresenta sinais de diminuição de seu ritmo de vida. Claro, ele tem amigos e colegas que há muito tempo se aposentaram – ou se “desconectaram” como ele prefere chamar. É uma metáfora apropriada para o fenômeno da aposentadoria, na qual no geral o que se vê é um retiro gradual das pressões diárias do funcionamento da vida de trabalho que nos força a nos manter afiados e atuais. Essas pessoas parecem diminuídas, imagens de uma vida vibrante vai aos poucos se desmanchando.
Mas para Finch, sua carreira é um chamado que preenche sua existência, é mais do que uma simples jornada de trabalho. Seu escritório sempre ocupado e ativo é o centro nervoso para um prato cheio de projetos, incluindo uma expedição científica recente ao Peru onde ele fez a autopsia de restos mortais mumificados pertencentes a pessoas que morreram há mais de 1800 anos. Além disso Finch também se mantém fisicamente ativo, ele nada regularmente desde seu tempo na Universidade de Yale.
Pense nos remédios que podem fazer todos os que estão nos seus 70 anos ou até 90 anos mais parecidos com Finch. E se o mantra “80 é o novo 50” puder se aplicar a todos nós? Ocorre que a lacuna da longevidade nos encaminha para um caminho diferente: um movimento tão cheio de raiva que faria com que o Ocupar Wall Street (contra o 1% dos maiores assalariados) parecesse brincadeira de criança. O fato de os ricos eventualmente viverem duas vezes mais tempo que a classe de baixa renda que estará fadada a morrer mais jovem que seus próprios pais pode se tornar motivo para revolução.
Em vez de permitir que a diferença de riqueza se transforme em uma lacuna de longevidade, talvez encontremos uma maneira de utilizar o talento de todos e de compartilhar o dividendo da longevidade em todos os níveis de renda. Esse compartilhamento pode prevenir o colapso econômico que muitos previram com a tsunami cinza e evitar a revolta contra a camada que mais eficientemente colherá os frutos do avanço tecnológico. Estamos no limiar de dois futuros distintos – um no qual existe uma população frágil, em rápido envelhecimento que gradualmente enfraquece a economia, e outro futuro, no qual todos vivem vidas mais produtivas e longas.

* Artigo publicado na revista “Aeon”, com tradução livre de Carolina Lucena.
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