Longevidade e hábitos alimentares em idosos longevos

Pesquisa fornece subsídios para políticas públicas e práticas educativas no campo de hábitos alimentares em Centros-Dia, ILPIs e grupos intergeracionais de convivência.

Nicole Debia (*)

 

Quais as percepções e representações de idosos longevos sobre seus hábitos alimentares, considerando a relação entre alimentação, longevidade e seu significado sociocultural? Esta foi a pergunta norteadora da pesquisa de mestrado em Gerontologia Social na PUC-SP, defendida no ano passado, intitulada “Longevidade e hábitos alimentares: questões socioculturais e representações de idosos longevos”.

Parti do pressuposto de que o envelhecimento é um processo que incorpora mudanças não somente biológicas, mas também socioculturais, psíquicas e históricas, caracterizando-se por sua heterogeneidade. Com o avanço de diversos setores da sociedade brasileira, incluindo saúde primária e secundária, nos deparamos com a progressão da longevidade e do número de idosos que atingem a oitava década de vida ou mais. Porém, juntamente com o aumento dos anos vividos, aumenta a probabilidade de vulnerabilidade e dependência. Atitudes que envolvam hábitos alimentares adequados, prática de exercícios físicos e abstenção do tabagismo podem contribuir para a prevenção de doenças e favorecer a longevidade. Entretanto, incorporar alimentação adequada na rotina depende de diversos fatores de ordem econômica e sociocultural.

Para isso sistematizamos a base teórico-conceitual das análises para composição de referências sobre envelhecimento, velhice, cultura e alimentação; delineamos o perfil dos idosos entrevistados; caracterizamos hábitos alimentares e suas representações sobre alimentação e longevidade. Trata-se de um estudo exploratório de abordagem qualitativa por meio da análise de conteúdo e entrevista com 13 idosos longevos residentes no município de São Paulo. O perfil da amostra consistiu em maior prevalência de mulheres, viúvas, imigrantes estrangeiros e internos (zona rural), em coabitação com outros parentes, presença de doença crônica, católicos, ausência de tabagismo e de vulnerabilidade financeira, além de baixo nível de analfabetismo.

Todos os entrevistados apontaram mudança de hábitos alimentares ao longo da vida, principalmente em relação à ingestão de maior variedade de alimentos. Dentre os principais fatores que influenciaram nessa prática, foram incluídos: informações sobre a relação entre alimentação e longevidade recebidas principalmente pela mídia; restrição alimentar a partir de concepções religiosas ou culturais e o trivial consumido ao longo dos anos.

Por que a pesquisa é relevante?

O aumento da expectativa de vida é um fenômeno atual que ocorre tanto nos países desenvolvidos quanto em desenvolvimento. Esse acontecimento é repleto de significados positivos para o indivíduo e para a sociedade, em especial quando acompanhado de boa condição de saúde e propósito de vida. No entanto, a expectativa de vida pode ser reduzida na presença de doenças crônicas, obesidade, tabagismo, consumo de álcool, drogas e sedentarismo.

Hábitos alimentares inadequados também são responsáveis pela redução da longevidade. Os hábitos podem se originar a partir de preceitos religiosos, cultura familiar, migração, mas também podem ser influenciados pela condição econômica de cada indivíduo. Essa problemática justifica a necessidade de investigação sobre crenças alimentares em idosos longevos com o objetivo de interpretar cientificamente seus significados.

O conhecimento científico pode oferecer subsídios para a promoção da saúde por meio da educação nutricional da população, cuja relevância acentua-se principalmente na fase adulta e entre 70 e 89 anos. O destaque a essas faixas etárias deve-se ao fato de que esses grupos sofrem maior risco relativo para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, por influência de fatores genéticos e ambientais, incluindo o estilo de vida. Em reforço a essa constatação, a WHO na publicação Top Ten Causes of Death complementa a interpretação ao afirmar que as doenças cardiovasculares são as principais causas de morte nos países em desenvolvimento (WHO, 2017).

A investigação sobre hábitos alimentares relacionados à cultura de idosos permite identificar seu estilo de vida, suas relações sociais, a preocupação com a saúde e como essas variáveis podem influenciar no processo de envelhecimento e longevidade.

Quais foram as conclusões?

As considerações decorrentes da finalização desta pesquisa expressam suas possíveis contribuições estimuladoras para a realização de estudos complementares sobre o tema, bem como configuram pontos de partida para a possível sustentação de novos projetos e programas de educação nutricional na velhice e para a velhice. Concebe-se também seu caráter provocador para a proposição de ações relacionadas à melhoria do comportamento alimentar de pessoas idosas, por meio de atendimentos diversificados na área da nutrição e afins.

Não somente o aumento do número de idosos, mas também da expectativa de vida associados a reestruturações constantes nos modos de viver e no comportamento individual e em sociedade, são elementos sinalizadores de que condutas relacionadas à nutrição devem estar em constante atualização e revisão. Novos modelos de conformação familiar, menor número de filhos, maior número de idosos morando sozinhos e na zona urbana das cidades, bem como as inserções no mundo tecnológico apontam a necessidade cada vez maior de cuidados que possibilitem a ressignificação da vida mais longeva, da autonomia e independência humana.

Essa realidade e suas perspectivas contínuas de mudança exigem múltiplas adaptações, dentre elas, nos padrões nutricionais em relação à modificação de hábitos alimentares nocivos, as quais se tornam imprescindíveis a partir da premissa de que a alimentação adequada não somente atua como adjuvante no tratamento de patologias, mas também apresenta potencial preventivo e mantenedor da saúde.

Deste modo, investigar as representações alimentares, crenças e influências socioculturais, econômicas e religiosas relacionadas à longevidade na velhice avançada mostraram-se pertinentes por possibilitar o avanço da compreensão sobre a influência dos padrões socioculturais nos hábitos alimentares e sua relação com a expectativa de vida de idosos 80+. Insere-se no contexto desta investigação, além de outros fatores, a qualidade e impacto das informações absorvidas sobre o tema, a partir da mídia e do conhecimento popular.

A realização do estudo resultou no alcance dos objetivos propostos por meio de análises e sistematizações realizadas por procedimentos como o levantamento de crenças, sabedoria popular, transmissão de informação sobre alimentos contribuintes para o longeviver, além de seus significados socioculturais.

A amplitude das abordagens sobre o objeto de pesquisa, representado por sua temática “Longevidade e hábitos alimentares: questões socioculturais e representações de idosos longevos” extrapolam a dimensão da relação do consumo alimentar com a expectativa de vida, ao constatar-se que concepções importantes relacionadas a outros aspectos se mostraram expressivas, como a adoção de determinado estilo de vida, a força da religiosidade e fé, abstenção do tabagismo, esperança, resiliência, vontade de viver, prática de exercício físico, senso de humor e a convivência com família e amigos.

As reflexões de caráter teórico conceitual e empírico reforçaram a concepção da complexidade do envelhecer em toda sua grandeza, ao mostrar as diversas faces que compõem a trajetória do ser humano, bem como a necessidade de engajamento multiprofissional ao se pensar na promoção da saúde, bem-estar e qualidade de vida dos velhos, em especial os 80+, e no envelhecimento em todas as faixas etárias, contemplando a questão da intergeracionalidade.

Um dos aspectos mais relevantes deste estudo foi a importância da família na história de vida dos entrevistados, pois a totalidade dos idosos longevos mencionou de forma positiva a convivência pregressa ou atual com filhos, cônjuges, netos e outros familiares, inclusive no que tange à responsabilidade sobre a compra de alimentos.

Outro elemento de extrema magnitude mencionado foi a influência da religião – ou religiosidade – na longevidade e nos moldes do consumo de alimentos. Fé relaciona-se diretamente com o prolongamento da vida na concepção de alguns idosos, enquanto práticas permissivas ou proibitivas modulam o comportamento alimentar de outros.

O processo migratório, tanto externo quanto interno, se mostrou fator preponderante na mudança dos padrões alimentares, pois grande parte da amostra é proveniente da zona rural ou do exterior onde vivenciaram o cultivo de gêneros no próprio quintal, colhidos e consumidos imediatamente, com baixo ou nenhum acesso a produtos processados e ultraprocessados.

A mídia teve seu papel reforçado na transmissão da informação sobre alimentação e saúde, porém foi percebido que a qualidade deste desempenho pode necessitar de redimensionamento, pois o que foi captado pela nossa amostra nem sempre foi compreendido ou, mesmo que compreendido, não necessariamente foi considerado integrante do comportamento alimentar.

Ainda em relação à mídia, foi notado que a informação absorvida pelos sujeitos não obrigatoriamente é o que acreditam que contribua para o longeviver. E, mesmo que haja crença na informação, nem sempre ela é incorporada. Informações esporádicas, soltas e complexas podem dificultar o entendimento e até mesmo deturpar seu significado, o que pode gerar descrença total tanto no que a mídia reproduz quanto essa percepção ser associada à ciência como um todo.

Descortina-se como desafio para a mídia e grupos religiosos se reinventarem e revisarem suas práticas, com o intuito de reconceber seu impacto principalmente na vida dos idosos, se realmente essas instituições se conscientizarem da relevância de suas contribuições para a longevidade. Ambas têm potencial para estimular e despertar o indivíduo para o valor da alimentação na iminência de uma vida longeva e saudável, considerando o peso que apresentam na tomada de decisão do indivíduo.

No aspecto das crenças e representações, religiosas ou não, relacionadas ao que é permitido e proibido consumir, a quebra de tabus mostra-se essencial, pois pode contribuir com a exploração de novas experimentações no campo da alimentação, tornando o padrão dietético mais amplo e variado, culminando com a ingestão de maior diversidade de nutrientes. Quanto menor a restrição alimentar, maior a possibilidade de relacionamentos interpessoais, uma vez que os alimentos e as refeições estão impreterivelmente presentes em reuniões familiares, celebrações e eventos.

Não pode deixar de ser observada a relevância do profissional da nutrição em todos os aspectos citados acima, pois somente profissionais habilitados têm condições de fornecer informação e orientação correta de maneira clara e precisa, respeitando o contexto que os idosos vivem e viveram, sua cultura, hábitos e memórias. É essencial que a família participe da educação nutricional dos idosos de seu núcleo, pois ela exerce papel fundamental sobre o comportamento alimentar, no que se refere ao o que, quando e como se come.

Menor incidência foi notada nas relações sociais dos sujeitos da pesquisa com pessoas fora do núcleo familiar. Observou-se que a maioria tem como hábito permanecer a maior parte do tempo dentro do domicílio em atividades sedentárias e solitárias, como assistir à televisão. Estimular a relação interpessoal, principalmente intergeracional, reinsere o indivíduo como membro importante da sociedade e pode contribuir de maneira grandiosa e singular para a transmissão de conhecimentos adquiridos ao longo da vida, principalmente práticas antigas e de outros países e regiões que podem ser desconhecidas, mas de extrema relevância para gerações mais novas.

Para finalizar, mas ainda longe de concluir as discussões sobre o tema abordado, pode-se visualizar que a presente pesquisa, por meio das sistematizações de suas análises, poderá contribuir para a realização de novos estudos no campo da nutrição no e para o envelhecimento e a velhice, assim como incentivar a proposição de programas de educação nutricional.

No que se reporta à educação nutricional muitas instigações se colocam, principalmente após o Congresso Nacional decretar a Lei 13.666, de 16 de maio de 2018, a qual determina o acréscimo do artigo 9ºA à Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional):

9º-A. A educação alimentar e nutricional será incluída entre os temas transversais de que trata o caput (NR) (BRASIL, 2018, grifo do autor).”

Além da educação nutricional por meio do ensino curricular ou informal, esta dissertação pode fornecer subsídios para políticas públicas e práticas educativas no campo da alimentação e nutrição em Centros-Dia, Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) e grupos intergeracionais de convivência, em especial aqueles relacionados à atenção primária e secundária à saúde.

Quem deveria conhecer os resultados?

Pesquisadores da área da Nutrição, Antropologia, Sociologia, áreas correlatas da saúde, gestores e público leigo com interesse sobre a relação entre hábitos alimentares e longevidade.

Referências
BRASIL. Lei nº 13.666, de 16 de maio de 2018. Altera o artigo 26º da Lei 9.394 de 20 de dezembro de 1996, que dispõe sobre as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/L13666.htm>. Acesso em: 17 jun. 2018.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Japan, Statistics. Geneva: WHO, 2015. Disponível em: http: <//www.who.int/countries/jpn/en/>. Acesso em: 10 mar. 2017.

Serviço
Dissertação de Mestrado: Longevidade e hábitos alimentares: questões socioculturais e representações de idosos longevos
Pesquisadora: Nicole Debia
Orientadora: Profa. Dra. Nadia Dumara Ruiz Silveira
Banca: Profa. Dra. Flamínia M. M. Lodovici; Profa. Dra. Sandra Maria Lima Ribeiro
Defesa: 21/08/2018
Instituição: Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

(*)Nicole Debia é nutricionista e mestre em Gerontologia Social pela Pontifícia Universidade católica de São Paulo. E-mail: nicoledebia@hotmail.com

 

 

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A Rede de Programas Interdisciplinares em Envelhecimento - REPRINTE, consolidada oficialmente em outubro de 2017, integra os programas de pós-graduação que têm como problema de pesquisa o envelhecimento, objetivando intercâmbios, compartilhamentos e fortalecimento de objetivos e/ou temáticas comuns.

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