Longe do olhar, perto do coração

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Francisco está longe e colocou em causa a sua decisão de emigração ao ver a mãe debilitada. Pensou levá-la para perto de si, “quem sabe pelo menos parte do ano?”… “Mas seria esta uma decisão egoísta?”. Pois, tais mudanças dependem das circunstâncias de cada família. Francisco passará a ser um cuidador à distância, algo que em Portugal começa a ser frequente, fruto da vaga de emigração a que assistimos.

Carla Pacheco *

 

longe-do-olhar-perto-do-coracaoFrancisco é engenheiro civil, com uma carreira de sucesso a nível internacional. Ao recorrer ao apoio domiciliário fala pela primeira vez do estresse que sente fruto da situação clínica da mãe. Embora relativamente autônoma, foi-lhe diagnosticada doença de Parkinson há cerca de 2 anos, o que lhe tem causado aumento da debilidade física (tremores e dificuldades de locomoção). Francisco é filho único, vê a sua mãe fragilizada, ela que sempre cuidou de si com tanta dedicação, e sente-se angustiado. Ponderou bastante e decidiu procurar a ajuda de cuidadores profissionais.

A Dra. Belina Nunes, no livro Alzheimer em 50 questões essenciais, assinala que entre os desafios que o envelhecimento traz às sociedades humanas, a necessidade de solidariedade entre gerações é talvez o maior. Os avós são fundamentais na educação dos netos, aliviando as responsabilidades e o aumento dos momentos de lazer dos pais; e por outro lado, a proximidade entre pais, filhos e netos é necessária para assegurar uma velhice tranquila.

Francisco está longe e colocou em causa a sua decisão de emigração ao ver a mãe debilitada. Pensou levá-la para perto de si, “quem sabe pelo menos parte do ano?”… “Mas seria esta uma decisão egoísta?”. Pois, tais mudanças dependem das circunstâncias de cada família. Francisco passará a ser um cuidador à distância, algo que em Portugal começa a ser frequente, fruto da vaga de emigração a que assistimos. Alguns dos maiores desafios encontrados por estes cuidadores espelham-se em sentimentos negativos, tais como:

Culpa

Para quem cuida à distância a culpabilização é frequente – “será que estou fazendo o necessário e o correto enquanto cuidador?”, “devo procurar ajuda especializada, como devo organizar-me?”. Não se deixe bloquear pelos medos, esteja atento aos sinais e atue por antecipação. Comece de forma simples através de fóruns on-line. São ótimos espaços para cuidadores se conectarem trocando ideias, conselhos e experiências. Passo a passo elabore o seu plano de ação.

Incerteza

As tecnologias servem para colocar o cuidador em alerta. “O meu pai pareceu-me triste, será que está com algum problema?. “A minha mãe tem falado muito sobre uma amiga nova, será que é alguém de confiança?”. Não sendo a solução milagrosa, o celular pode ser um ótimo recurso para despistar problemas, assim como o skype, que permite uma visão mais precisa, inclusive do comportamento não verbal.

Impotência

“E se houver uma emergência, como agir?”. Muitos cuidadores temem que o seu familiar caia ou adoeça repentinamente, receiam ser precisos e não estarem lá imediatamente. Esta é uma angústia muito válida e sendo de todo impossível eliminar os infortúnios, há que prevenir. Para o idoso que vive sozinho, mas que é independente (não precisa de cuidados), um bom recurso é a teleassistência. No caso de queda ou mal-estar, o idoso poderá com um simples acionar de botão, pedir ajuda e, se for preciso, de imediato será encaminhado para a assistência médica. Tem a vantagem de ser uma solução econômica.

longe-do-olhar-perto-do-coracaoSimultaneamente desenvolva uma rede social de suporte. Estabeleça relação com os vizinhos e amigos do seu familiar. Peça-lhes para partilharem uma refeição, ocasionalmente, ou para realizarem uma visita de rotina. Mantenha-se em contato. Se existir um grau de confiança muito elevado, faculte o acesso à habitação entregando-lhes a chave. Sempre, obviamente, com o consentimento do dono da casa!

Organize e fotocopie toda a documentação relevante, para quando for necessária. Inclua documentos legais, pessoais, médicos e financeiros, tais como: procurações, testamentos, registros de imóveis e veículos, cartão de cidadão, carta de condução, entre outros. Guarde todos os números de contas bancárias, registros fiscais anteriores, cartões de crédito, fontes de rendimentos e ativos.

No dossiê clínico devem constar tipo sanguíneo, relatórios médicos, registros de internamentos anteriores, agenda de consultas, medicação atualizada e outros particulares do idoso. Toda a informação clínica deve estar identificada e acessível em caso de emergência.

Quando estiver presente, em caso de férias, ou por outros motivos, aproveite para avaliar o estado do seu familiar. Esteja atento aos sinais, verifique, por exemplo, como estão os reflexos ao nível da condução, pedindo que o leve a um determinado local. Procure agendar uma consulta no dentista, oftalmologista, médico de família ou outro especialista enquanto estiver por perto. Sentir-se-á mais confortável ao acompanhá-lo.

Com estas ferramentas estará no caminho para se tornar num cuidador à distância mais prevenido. Se a situação clínica se agravar deverá procurar outras opções que o remetam para cuidados de saúde especializados.

* Carla Pacheco – Psicóloga. Directora Técnica da Good4life| Family & Career Services. Porto/Portugal. Site: Acesse Aqui. Email: [email protected]

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