Linguagem e Memória, que tal ampliar possibilidades?

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Curso, a ser iniciado nesta sexta, dia 24/09, trabalhará com a memória e como o dizer, as ações e os pensamentos de outras pessoas constroem aquilo que dizemos e pensamos sobre o mundo e nós mesmos. Inscrições abertas.


Avanços na medicina e melhoria nas condições gerais de saúde têm alongado os anos vividos e proporcionado a pessoas idosas um protagonismo cada vez maior na biografia contemporânea. No entanto, se por um lado o aumento da expectativa de vida germina entusiasmo, por outro, irriga o medo da doença, da dependência, do esquecimento. Esquecer… Eis a assombração imaginária do envelhecer. Esquecer as chaves do carro, o ferro ligado, uma data importante, o número do telefone, o que fez no dia anterior, o que comeu no almoço. Esquecer as conversas recentes, a palavra certa, o uso dos objetos, o caminho de casa, a fisionomia no espelho, o nome – esquecer a si mesma/o.

Com a promessa de tanta deslembrança, desajuste, debilidade, de, de, de… A pessoa idosa é facilmente deslocada para um cenário de desvalor e descrédito. Isso porque, na fantasia de grande parte da população, a capacidade de memória relaciona-se exclusivamente ao funcionamento biológico e, de acordo com certo discurso instituído, necessariamente declina, ou seja, presume-se que quanto maior a idade, menor a lembrança.

Curioso pensar que costumamos ser generosas/os quando uma criança se esquece de amarrar o tênis, porque entendemos que ela não tem o compromisso de lembrar-se de tudo. O mesmo ocorre com a pessoa adulta quando não se recorda onde deixou o celular – justificamos o deslize através da sobrecarga de afazeres, cansaço, estresse. Para a pessoa mais velha não há clemência, se esqueceu de algo é porque está ficando “coroca”. E a idosa/idoso aceita e incorpora tal discurso preconceituoso e depreciativo como seu. As histórias que viveram, as quais garantem continuidade aos que virão, são relegadas a um segundo plano e cedem lugar à preocupação com a “hora do remédio” que teima em escapar da lembrança.

É como se o lembrar/esquecer na velhice não guardasse relação com a subjetividade e/ou com as emoções/motivações, tampouco com os sentidos que atribuímos a nossas interações e ao mundo que nos rodeia, mas tão somente à degeneração cronológica do corpo – considerada inevitável.

Evidente que não se pode negar a existência de algumas enfermidades que, de fato, contribuem para a desmemória das pessoas que envelhecem e que merecem cuidado e atenção especiais. No entanto, mesmo nestes casos, acreditamos que é possível uma paisagem do envelhecer menos organicista e mais histórica, social e cultural – cujo horizonte reluz a solidariedade existente entre linguagem e memória e compõe um feixe de processos abraçados: cognitivos, biológicos, culturais e linguísticos.

Assim, a partir de uma abordagem histórico-social de desenvolvimento, consideramos que tanto a linguagem quanto a memória têm natureza social e dependem mais da qualidade das vivências proporcionadas às pessoas longevas do que da integridade cerebral propriamente dita. E esta qualidade, a nosso ver, encontra amparo na dimensão estética da humanidade – aberta, desinteressada e disponível para os efeitos que a expressão de outra pessoa produz em nós, em nossa percepção e em nossos sentimentos.

Outro aspecto importante que esta perspectiva nos permite pensar é que a possibilidade de significar (dar sentido, interpretar e fazer-se entender) de cada pessoa passa a existir pelo significado que as/os outras/os atribuem às suas expressões. Inseridas/os em um mundo simbólico/linguístico encontramos na linguagem a gênese do significado de nós mesmas/os e de nossos pensamentos.

O curso

O Curso “Linguagem e Memória na Longevidade – ampliando possibilidades”,compreender que a subjetividade das pessoas não existe a priori, mas concretiza-se no processo de internalização das práticas sociais/culturais, evidenciando que nossa constituição acontece de modo partilhado. O dizer, as ações e os pensamentos de outras pessoas constroem, através de um processo mais ou menos criativo, aquilo que dizemos e pensamos sobre o mundo e sobre nós mesmas/os. Tal movimento marca a forma como atuamos na realidade. Neste sentido, pressupomos que desmontar a ideia de que a memória fatalmente degringola com o passar da idade contribui sobremaneira para uma existência mais potente e menos discriminatória na velhice.

Além disso, acreditamos que compartilhar instrumentos/estratégias dialógicas e atitudes estéticas/criativas que ampliem as possibilidades da pessoa idosa de interagir por meio da linguagem – constituindo sentidos que garantam um ser e estar no mundo mais satisfatório – pode auxiliar cuidadores, familiares, profissionais e longevas/os a um melhor convívio.

Por isso o curso visa desconstruir estereótipos negativos sobre o envelhecer; pensar a linguagem e a memória a partir de uma perspectiva sócio histórica; situar a velhice no campo de possibilidades; compreender a Arte como instrumento de transformação e constituição de novos sentidos, outras lembranças.

Para atingir tais objetivos, o curso foi dividido em três partes. No módulo 1 será visto a constituição social de sujeito, linguagem, memória e suas inter-relações: a A linguagem do envelhecer, Reflexões sobre o normal e o patológico; e Linguagem, memória e subjetividade. No módulo 2, o tema a ser trabalhado é a arte e criatividade como instrumentos de transformação: potências de vida na longevidade, a dimensão estética como propulsora de um envelhecer inventivo, e memória, ressignificação e novos possíveis. Por fim, no módulo 3, interações dialógicas mediadoras de linguagem: diálogos que afloram lembranças, a escrita como processo de reflexão, elaboração, organização e orientação, e narrativas e suas marcas autobiográficas.

Serviço
Curso: Linguagem e Memória na Longevidade – ampliando possibilidades
Datas: Sextas-feiras: 24/09 | 01/10 | 08/10
Horário:  19h às 21h
Carga horária: 6 horas
Certificado: será encaminhado após a conclusão do curso
Docente: Cinthia Lucia de Oliveira Siqueira – Graduada em Fonoaudiologia pela USP; Especialista em Linguagem e Mestre em Educação pela UNIMEP; Dra. em Psicologia pela UNESP-Assis. Lecionou as disciplinas de literatura e teatro na Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI) do Centro Universitário das Faculdades Integradas de Ourinhos (UNIFIO). Tem experiência em oficinas criativas e de desenvolvimento humano voltadas a crianças, adolescentes, adultos e idosos e em cursos de formação de professores. Contadora de histórias e atriz, mantém projetos culturais e educativos desde 2010. Atualmente integra o quadro de docentes da UNICENTRO (PR).
Mais informações: [email protected]

As aulas acontecerão online ao vivo nos dias e horários especificados a seguir pelo Google Meet. As instruções para usar a plataforma e o Manual do Aluno são enviados por e-mail antes do curso começar.

Foto destaque de teona-swift/pexels


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Redação Portal do Envelhecimento

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