Linda de viver

Para os jovens, fica o convite: É preciso saber quem foi Hebe Camargo, linda de viver. Para os velhos, a exposição é uma maneira de relembrar a força e energia desta velha amiga nos dois andares reservados à mostra.


Um coração que é todo saudade chega a trocar suas batidas compassadas por longos suspiros.

Minha avó Aurora me faz falta. Muita falta. Sinto falta de tocar seus cabelos de algodão, tão crespinhos que estavam sempre como se tivesse saído do salão. Nunca vi ninguém defender mais a família do que ela. Éramos tudo e mais um pouco. Uma avó que não sorria e que vivia amargurada pela dureza apresentada pela vida ao perder seu marido de maneira trágica. Sua vida não foi fácil mas teve o melhor filho que uma mãe poderia desejar: Meu pai, que para ela era a razão de sua existência.

Minha avó, na sua velhice morou sozinha e só agora compreendo o quanto isso deve ter sido difícil para ela, acostumada a viver naquele casarão cheio de gente e de preocupações de um cotidiano que não era fácil, mas que na juventude dos meus primos, se renovava.

Até os dias de hoje, sou capaz de sentir o sabor do macarrão que ela fazia. O cheiro do molho cozinhando e a maneira que ela pilotava a cozinha serão inesquecíveis para mim.

De uns tempos para cá tenho me sentido saudosa. Acho que é o anúncio da velhice querendo chegar. Quando a vida me presenteou com uma filhotinha, pedi autorização ao meu pai para colocar o nome da sua mãe na cachorrinha e, ele, que bem sabe a loucura que tenho por cachorros, logo entendeu que se tratava de uma homenagem.

Lá de cima, minha avó deve se perguntar a todo instante o porquê de estar sendo sempre chamada e com certeza deve sentir toda alegria que envolve os chamados. É um tal de AUrora! AUrora! AUrora! E minha Aurora, ao contrário de minha avó, é a criatura mais contente que poderia existir. Para a filhote, o mundo é uma grande diversão e todos, aqui de casa, somos levados a esse divertido passeio pela vida.

Quando minha avó foi morar só, as noites das segundas tornavam-se especiais com o programa da Hebe Camargo. Minha avó e o Brasil todo, adorava a autenticidade da apresentadora que levava para a casa dos expectadores assuntos de todos os tipos, até mesmo os polêmicos propostos por debates irreverentes.

Na boca da Hebe, as palavras ditas eram autorizadas e ela não se importava se causasse algum incômodo. Suas verdades eram expostas com autenticidade e até temas como homossexualismo, aborto, amor livre, política e educação eram compreendidos por senhoras como minha avó Aurora que depois me contava: Sabe, foi a Hebe quem disse…

Não há como negar a influência que a apresentadora teve para seu público. Nascida em Taubaté em 8 de março de 1929, Hebe viveu uma velhice também autêntica até os 83 anos quando morre com uma parada cardiorrespiratória decorrente de um câncer que ela jamais escondeu dos seus seguidores e fãs.

Pela quimioterapia, teve seu cabelo, sua marca registrada, todo caído. Mas sua luta pode ser admirada por todos que viam nela uma amiga querida que estava semanalmente na nossa própria casa. Hebe era forte. Sua fé a fazia assim e tudo isso ficava evidente no programa.

Colocava o educador Paulo Freire no mesmo sofá que Paulo Maluf e ela, com sua graça e simpatia, fazia todos seus convidados se sentirem em casa.
Na época do movimento das caras pintadas pelo impeachment do presidente Collor, Hebe não hesitou em apresentar o programa com o rosto pintado de verde e amarelo.

Dona de uma simpatia ímpar, Hebe Camargo conversava diretamente com os corações dos milhares de fãs que não perdiam seu programa.

Dona de uma fé inabalável, seu otimismo era contagiante.

Uma verdadeira “gracinha” de pessoa que ganhou muito dinheiro e que não negava ajuda a quem precisasse.

Era uma dama e como se diz popularmente, uma perua. Das mais peruas que já vi. Morena que se transformou em loira quando rompeu com um companheiro que muito a fez sofrer. Era preciso mudar de vida e de cor de cabelo. Nunca mais voltou a ter os cabelos escuros. No começo da carreira ouviu críticas que diziam que ela não tinha imagem boa para televisão. Nunca desistiu dos sonhos. Transformou-se na rainha da televisão brasileira e encantava a todos com suas roupas de estilistas renomados, seus sapatos de salto e suas inúmeras joias. Nela, todo esse luxo combinava. Ela podia ser Over, ser Plus, ser mais e mais. Hebe podia tudo.

Cultivou amigos e soube viver a vida intensamente.

Exposição Hebe Eterna
Sua amizade com Nair Belo e Lolita Rodrigues renderam muitas histórias e risadas.

Em São Paulo, no Farol Santander, até dia 02 de junho, a exposição Hebe Eterna está lindamente em cartaz.

Uma exposição interativa capaz de nos levar para o universo da apresentadora e cantora que marcou a vida de muitos brasileiros.

Para os jovens, fica o convite: É preciso saber quem foi Hebe Camargo. Para os velhos, a exposição é uma maneira de relembrar a força e energia desta velha amiga nos dois andares reservados à mostra.

Seus principais vestidos e sapatos estão expostos e são mostrados ao lado de fotos suas, usando as roupas. Seu piano vira uma instalação com rosas no teto que nos fazem florir com as canções que ela canta nos vídeos projetados em sua tampa aberta. É possível sentar na penteadeira da apresentadora e ouvir seus principais cabeleireiros contando histórias sobre ela, sem falar na foto do famoso selinho que o visitante pode tirar e receber por e-mail.

Toda sua história e seu dia a dia está lá, numa montagem muito interessante.
Vale cada minuto da visita que não deve parar nesta exposição já que o Farol Santander virou um Centro Cultural com várias mostras interessantes. O famoso mirante com uma vista belíssima da cidade de São Paulo é aberto para quem deseja ver a cidade de outra maneira.

Voltei para casa revivendo a história da televisão brasileira na companhia da minha avó que não saiu mais do meu coração.

Não percam! Convidem sua avó, sua tia, sua amiga que gostava de vê-la no sofá elegantemente vestida. Apresentem Hebe para quem não a conhece. Esta é uma oportunidade! Saia para passear e aproveite para reviver aquela energia inesgotável.

Eu, fiquei encantada! Que perua maravilhosa! Que capacidade de atingir os outros! Quanta facilidade de sorrisos! Vó Aurora, quanta saudades eu sinto de você que não era risonha mas que eu amava imensamente. O que faço com essa saudade infinita? Morro? Ou sigo na fé que me faz forte? Continuo chamando minha Aurora para evocar seu amor? Aurora! Aurora! Amo você! Sejamos assim, lindos de viver, mesmo sabendo que os tempos são sombrios e as mentes estão distorcidas.

Gracinha! Você faz falta. Chama o Boechat pro seu sofá e convida minha avó para a primeira fila.

Nós aqui, estamos carentes de fé e alegria. Estamos carentes de você! Hebe, Eterna! Que gracinha!

Para saber mais sobre a exposição e sobre o Farol Santander clique aqui.

A Exposição Hebe Eterna fica em cartaz até 02/06

Para mais informações acesse: https://www.farolsantander.com.br/#/sp/agenda/exp_1920

Fotos: Cristiane Pomeranz


https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/museu-e-voce-modulo-i-tarsila-do-amaral/

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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