Liette Cinelli, 85 anos

Liette foi muito receptiva. Antes mesmo de sentarmos para a entrevista, ela percorre comigo, todos os cômodos do apartamento. Nesse trajeto, vai me narrando pedacinhos de contos que compõe esse cenário íntimo onde construiu e vivenciou tantas histórias. Ela me fala da estátua de mármore branca que ganhou de presente de casamento de seu pai, dos detalhes românticos da cortina do seu dormitório, das flores na varanda, do quartinho de “leitura” onde estão os” livros falantes” e dos personagens das fotos dos porta-retratos.

Marisa Feriancic

 

Aos poucos fui viajando no tempo junto com Liette, que mostra orgulhosa a “cristaleira-biombo” com iluminação e o lustre de rosas, que o Cláudio desenhou com exclusividade para ela.

Enquanto a chuva caía torrencialmente sobre São Paulo, naquela tarde de terça feira, tomávamos café com biscoitinhos e conversávamos sobre as alegrias e as tristezas que compõe as histórias de vida de todos nós.

A história

Tenho 85 anos, nasci no dia 19 de setembro de 1924, no Rio de Janeiro. Sou carioca de Vila Isabel, terra do samba. Tenho 4 filhas, 10 netos e 3 bisnetos. Meu pai Humberto Cinelli, italiano, chegou ao Brasil com 7 anos e foi morar no Rio de Janeiro. Minha mãe Francisca de Souza Lima era brasileira, filha de portugueses.

Fui muito feliz com meus pais. Pena que os dois faleceram cedo. Tive 2 irmãos e uma irmã que era 5 anos mais nova que eu.

Quando éramos crianças ainda, meu pai comprou uma fazenda, em Piraí, no estado do Rio de Janeiro. Minha mãe era da cidade e não se conformava em mudar-se para a fazenda, mas não tinha outro jeito, papai precisa sustentar a família. Meus irmãos interromperam os estudos e foram com meus pais para a fazenda, ajudar na administração. Eu e minha irmã fomos para o Colégio interno da Cia de Santa Tereza de Jesus, onde fiquei até 18 anos. Mamãe não permitiu que parássemos de estudar. Fomos bonitinhas, sem reclamar. Minha irmã foi fazer o antigo primário e eu o ginásio.

Víamos pouco nossos pais. Foi uma época muito difícil. Meu pai, por ser italiano, ficava preso na fazenda. Eu não entendia direito o por quê. Talvez ele tivesse algumas idéias revolucionárias na época. Não sei explicar. Ele não saía da fazenda, nem participou da minha formatura.

Alguns anos depois, meu pai vendeu a fazenda, mas foi ludibriado. Saímos quase sem dinheiro, pagaram uma quantia irrisória por 280 alqueires geométricos de terras. Meu pai mantinha no Rio de Janeiro uma casa de cambio, onde ficou trabalhando. Meus irmãos já crescidos, o ajudavam.

O namoro

Eu ainda estava no colégio quando conheci o Cláudio. Fui passar umas férias na fazenda e o Cláudio também. Ele era meu primo de quarto grau, mas eu não o conhecia. O Claudio era levado, namorador, eu era quieta, muito reservada, gostava de ler.

Quando fomos uma segunda vez passar as férias na fazenda, nas vésperas de irmos embora, o Claudio perguntou se eu tinha namorado. Respondi que não e ele pediu meu endereço, pois queria me escrever.

Lá no internato tinha uma professora, a Dona Celeste, que gostava muito de mim. Dei o endereço dela para o Claudio. Ele foi embora para São Paulo, onde morava, e eu fui para o Rio de Janeiro. A partir daí, começamos a nos corresponder. Dona Celeste ficou minha cúmplice; levava e trazia minhas correspondências. Se as cartas chegassem no internato, tinham que passar pela superiora. As cartas do Cláudio eram cartas inocentes, ninguém precisava se preocupar. Assim, começamos a namorar por correspondência. Eu já tinha 16 anos e minha mãe me dizia para tomar cuidado, não fazer nada que magoasse meu pai. Minha mãe e os pais dele sabiam do namoro, só meu pai que não.

Quando ele me telefonava era um dia de festa. Não tínhamos telefone, ele ligava para a casa de uma vizinha.

Namoramos durante 2 anos. Já não tínhamos mais a fazenda e meu pai ainda não sabia de nada. Minha mãe gostava muito dele. Ele também a agradava. Levava sempre um presentinho para ela. Quando ele vinha em casa, mamãe fazia o ravióli que ele gostava.

Meus pais iam comemorar as Bodas de Prata, e os pais do Claudio foram para a nossa casa. Nesse dia, o pai do Cláudio reuniu todos em volta da mesa e disse ao meu pai que queria pedir a “minha mão em casamento” para o filho dele. Foi muita emoção. Meu pai chegou a chorar. Dizia que nunca tinha percebido nossas intenções, mas estava contente com a notícia. Meu irmão abriu um champanhe para brindarmos e depois do brinde, o Cláudio e meus 2 irmãos resolveram sair. Eu fiz o maior “bico”. Meus irmãos saíram, mas o Cláudio percebeu minha mágoa e voltou atrás. Imagine: eu acabo de ficar noiva e ele sai com meus irmãos para farrear. Nunca esquecemos esse momento.

Durante o namoro nos encontramos pouco. Nos vimos somente umas 6 vezes antes do casamento.

Em 1946, o Cláudio entrou na Escola Politécnica, mas só cursou 2 anos. O pai dele perguntou se ele queria continuar os estudos ou se queria casar e ele respondeu que queria casar. Não dava para fazer as duas coisas. Os outros irmãos estavam estudando, ele era o mais velho, tinha mais responsabilidades. Cláudio começou a trabalhar cedo. Meu sogro tinha uma rede de lojas de louças e ferragens na Avenida Rangel Pestana. Ele optou em ficar trabalhando com o pai. Eles tinham também a Fábrica de Fogos Trovão, onde comercializavam fogos de artifícios.

Meus sogros eram pessoas maravilhosas, muito dinâmicos, dedicadas à família, lutaram muito pelo bem estar dos filhos. Meu sogro ajudava a todos. Quando alguma criança ficava doente, não chamavam o médico, chamavam ele.

O casamento

Liette e Claudio, 24 de janeiro de 1948
Casamos no dia 24 de janeiro de 1948, na Igreja da Candelária no Rio de Janeiro.

Era um dia de calor insuportável. Antigamente os casamentos não tinham tanta pompa como tem hoje, mas foi muito bonito. Depois do casamento, saí da Igreja e fui até a capelinha do Colégio onde estudei, porque as freiras queriam me ver. Depois desse dia, nunca mais voltei ao colégio. Não sou muito de voltar ao passado.

Passamos nossa noite de núpcias no Hotel Serrador, no centro do Rio de Janeiro. Chegando ao Hotel encontramos um maço de rosas vermelhas que meu pai tinha enviado. No dia seguinte tomamos o café e fomos fazer uma visita para meus pais. Quando cheguei, meu pai estava lendo jornal. Foi a última vez que conversei com ele.

Fomos passar nossa Lua de Mel em Poços de Caldas e sempre que sentávamos para almoçar no restaurante do Hotel, um senhor velhinho, abria e fechava uma porta, e ficava olhando para nós. No quarto dia, ele não agüentou e perguntou: Maninho e Maninha?

Nós achamos tão engraçado que começamos a nos tratar por Maninho e Maninha. E assim foi até o final da vida.

Após uma semana de casados, ainda estávamos viajando em Lua de Mel, quando avisaram do falecimento do meu pai. Ele tinha 50 anos.

Na época, minha mãe contou que ele terminou o almoço, comeu um pedaço de melancia e falou que estava com dor de cabeça. Ela pediu que ele fosse para o quarto deitar enquanto ela lhe preparava um chá. Quando ela chega no quarto com o chá, ele cai para trás, na cama. Teve um enfarto e faleceu na hora.

Minha mãe ficou muito mal, não aceitava o falecimento dele. Sofreu muito, não se conformava. Ninguém dizia que era a mesma pessoa que tínhamos visto há uma semana antes. Não queria mais viver. Mamãe era muito “paparicada” por ele.

Logo após a morte do meu pai, ela desenvolveu um câncer. Em 6 meses ela estava com um câncer galopante.

Foi uma época difícil. Ela no Rio de janeiro, e eu em São Paulo; recém-casada, recém-saída do colégio, com meu primeiro bebê, não sabia fazer nada, numa casa enorme, de 300 m2. Era uma vida tumultuada.

Minha mãe faleceu 2 anos após meu pai. Ela estava com 50 anos. Penso que ela já estaria doente quando casei e foi depois que desenvolveu a doença.

Em 1949 tive a minha primeira filha, depois de 3 anos, tive a segunda, depois a terceira e após 2 anos e meio, tive a quarta filha. Queria um menino para perpetuar o nome Sinneli, mas gosto de ter 4 filhas, elas são muito boas.

Quando eu e o Claudio casamos, fomos morar em São Paulo, na Praça Portugal. Depois de 36 anos, com as filhas já casadas, compramos um apartamento no Morumbi, mas não me sentia bem lá. Ficamos só 3 meses e depois viemos para este apartamento, onde estou há 30 anos. Há um tempo atrás, pensei em vendê-lo, mas resolvi que vou ficar aqui. Gosto dele e das histórias que construí aqui dentro.

Não sou de ficar remoendo o passado, mesmo em fases tristes da vida. Estou bem aqui, tenho amigas próximas, bons vizinhos, e sei onde fica cada objeto aqui dentro.

Liette e Claudio, 1989

Não tivemos namoro, nem noivado, mas depois do casamento viajamos e passeamos muito. Festejávamos todos os aniversários de casamento. Um dia convidei o Claudio para namorar no carro, no mirante, porque eu nunca soube o que era namorar no carro. Aproveitamos bastante, principalmente depois dos 60 anos. Quando as meninas já estavam casadas.

A viuvez

Ficar viúva não foi fácil. Estou viúva há 12 anos. Sempre converso muito com Deus. Às vezes brigo com ele, mas depois faço as pazes. Eu digo a ele que não quero ser uma pobre coitadinha. Nunca fui. Sempre fui uma pessoa alegre. Não sou de ficar remoendo passados, coisas tristes e mau humor, mas acho que meu marido poderia ficar um pouco mais comigo… mais uns 3 aninhos pelo menos. Todos eles foram muito companheiros. Deram-me muito apoio.

Cláudio faleceu em 1996. Teve um câncer de pulmão, ele fumava muito. Ficou 6 anos doente. Nós não contamos a ele sobre sua doença. Foi um médico que contou a ele já no final da doença.

Ele fez um tratamento com uma vacina que estava sendo testada no Rio de Janeiro, foi essa vacina que permitiu que ele sobrevivesse mais.

Minha filha mais velha tem um filho com o nome de Claudio e uma filha com o nome de Liette em nossa homenagem. Ele chegou a conhecer os netos.

Claudio e Liette, 1994

O que me ajudou a superar a viuvez foi um grupo de apoio religioso. Ele é muito acolhedor. Eu e umas amigas temos um grupo de oração há 12 anos. A gente se reúne uma vez por semana. Com isso aproximei-me mais de Deus, o que me ajudou e me confortou.

Nunca pensei em me casar outra vez. Só tive um homem na vida, porque eu iria me expor agora? Nunca beijei outro homem na boca. Eu e o Claudio éramos muito parecidos, ele supria tudo que eu precisava.

Em 26 de fevereiro de 2004, perdi também minha irmã. Ela me fazia muita companhia.

Envelhecimento

Aos 85 anos passamos por muitas adaptações, não adianta se desesperar. Tem que aprender.

Eu me adapto bem às mudanças. Antes conseguia fazer uns “biquinhos” de crochê, hoje já não consigo mais. Minha vista não deixa. Com o meu problema de visão, fiquei um pouco receosa de andar sozinha na rua, então tenho que me adaptar.

Tive vários tropeços na vida, mas consegui me erguer.

Depois do falecimento do Claudio tive um enfarte, fiz 4 pontes de safena e uma mamaria. Tive também um câncer, do qual me curei.

Tenho diabetes, mas controlo a insulina todos os dias.

Estou fazendo um tratamento da vista, por causa de uma degeneração da macula. A leitura me faz muita falta. A gente aprende muito lendo. Já doei muitos livros. Sinto muita falta de ler, sempre li muito, comecei a me sentir analfabeta, minha linguagem tornou-se restrita. Às vezes a palavra me falta.

Digo à Liette que isso não é verdade, que não pude constatar isso nenhuma vez durante nossa conversa. Acrescento que ela fala com muita desenvoltura e se expressa muito bem, mas ela me responde prontamente: É que sempre fui oradora de turma, oradora de reuniões. A palavra sempre vinha fácil, hoje não é mais assim.

Em 24 de maio de 1997, acordei cega, não enxergava nada das duas vistas. Fiquei desesperada. Fui para uma clinica especializada, fiz vários exames, e após alguma peregrinação, descobri uma medicação, da qual eles preparam uma injeção que é aplicada, com anestesia, diretamente no olho.

Tenho expectativa boa de melhorar a visão. Faço essa aplicação a cada 40 dias. É um produto importado, muito caro. É um medicamento usado no tratamento de câncer de intestino. Está dando resultados. Na vista direita já fiz mais de 10 aplicações. Eu tinha zero de visibilidade, já estou com 30%. A vista esquerda estou na 3ª aplicação e ainda não recuperei tão bem, ainda tem um pano preto na frente, ou melhor, já está acinzentado.

Agora não dá mais para ler. Arrumei os “livros falantes” e estou me distraindo com eles. Já “li”

O Alienista, de Machado de Assis, Perdas e Ganhos, de Lya Luft e agora estou “lendo” O Caçador de Pipas.

Meu telefone tem os números bem grandes. Se não consigo ler, peço auxílio. Tenho duas acompanhantes. Uma de dia e outra à noite. As filhas não querem que eu fique sozinha. Eu acho que não precisava à noite, mas não quero que ninguém fique preocupado comigo.

Sempre fui vaidosa. Passo meus cremes na pele, faço ginástica em casa, todos os dias. Aprendi os exercícios com uma professora e agora eu faço sozinha. Faço um circuito de caminhada no prédio, dou várias voltas e consigo percorrer alguns quilômetros. Nunca deixei de me cuidar.

É preciso muita paciência para envelhecer, senão você fica uma velha resmungona, ranzinza. Graças a Deus que eu cheguei até aqui. Preciso agradecer a Deus de chegar até este ponto, apesar dos tropeços da vida, e também à Nossa Senhora.

Estou com uns probleminhas de saúde, mas todos controlados. Então, estou bem.

Foi muito bom conversar, as pessoas não têm paciência de ouvir os mais velhos.

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