Liberdade!

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A Vida pede mais. Precisamos ir atrás dos sonhos e da nossa liberdade antes que o fim se aproxime e traga com a velhice o sofrimento de encontrar na finitude a sensação de que nada foi feito de verdadeiramente relevante. Não podemos viver a velhice nesse pensar pequeno de que a vida passou em branco.

Cristiane T. Pomeranz *

 

Os livros devem ser modificadores e libertadores. Muitos livros me fizeram voar.
Ultimamente, o livro Vigiar e Punir de Michel Foucault tem absorvido o meu pensar e transformado minha maneira de ver o mundo. Refletir sobre nossa existência nesta sociedade de controle me fez escrever uma carta ao meu filho de 22 anos que muito tem questionado o conceito de liberdade.

Nela, minhas palavras são inquietas como meu pensamento. Meu coração está todo ali. E se Foucault modifica o meu pensar, espero, modestamente através desta carta, iluminar os caminhos, cheios de desvios conflitantes do meu filho que busca caminhar com liberdade e alegria.

Carta para a liberdade:

Sabe, filho, quando te vejo nesta busca desesperada pela liberdade, sinto um aperto no peito e uma angústia que mata qualquer esperança da existência de uma vida livre como você ainda acredita existir.

A sociedade nos aprisiona, você sabe disso, mas ainda é jovem demais para admitir tal constatação. Somos obrigados a viver rotulados, vigiados e punidos com uma dificuldade absurda de encontrar meios que possibilitem a nossa libertação. Como nos livrar de tudo que nos sufoca e revolucionar nossos pensamentos para que nossa liberdade possa ser conquistada?
Segundo o filósofo italiano Giorgio Agambem, é preciso revolucionar já que a revolução é um deslocamento que tira as coisas do lugar e as coloca um pouco fora da ordem.

E nós com toda modernidade que faz parte de nossa vida, estranhamos qualquer coisa que modifique nosso viver robotizado por uma sociedade que nos aprisiona e nos normatiza. Difícil aceitar algo que sai da organização habitual.

Dura tarefa essa de ser revolucionário da própria vida e de se inventar a fim de compreender que um novo sujeito só se constitui a partir da negação daquilo que já fomos um dia e que não toleramos mais ser.
É preciso nos modificar a cada instante. E é nisso que está nossa busca pela liberdade.

Precisamos nos posicionar como seres contemporâneos, mesmo que para isso tenhamos que nos encher de coragem para nos relacionar com o tempo presente com um solene NÃO. E eu, filho, espero que você diga muitos nãos na sua vida e, por favor, quando for dizê-los, diga-os gritando.

A Vida pede mais. Precisamos ir atrás dos sonhos e da nossa liberdade antes que o fim se aproxime e traga com a velhice o sofrimento de encontrar na finitude a sensação de que nada foi feito de verdadeiramente relevante. Não podemos viver a velhice nesse pensar pequeno de que a vida passou em branco.
Quando jovens buscamos encontrar nossa liberdade enquanto somos adestrados por um poder maior e incontrolável.

A juventude sofre com esse adestramento e você, meu filho, tem sofrido muito.
Na velhice é possível incorporar o passado no presente com um sentido de transformação de si próprio. Sábio aquele que consegue se modificar durante a vida.

Caso a velhice chegue com a sabedoria exacerbada e com um domínio de si, finalmente conquistado, aí chegará com ela, finalmente, o momento de revolucionar essa vigilância de uma sociedade totalmente disciplinada.

Filho, tenho aprendido muitas coisas nesse meu caminhar pela Gerontologia e gostaria de te contar que o conhecimento que vamos adquirindo através dos estudos são nossa maior forma de exercer a liberdade.
Quando Foucault escreve sobre o poder pastoral, eu pensei em você que tem se questionado tanto a respeito das vigias que somos submetidos.

Mas saiba que precisamos conhecer e entender esses dispositivos de poder para conseguirmos pegar as linhas de fuga e nos desviar disso tudo.

É triste constatar que somos seres vigiados, mas saiba que ao escapar de cada imposição, através de pequenos desvios, damos a vida um gostinho de traquinagem deliciosamente conquistada.
Viver, meu filho é conquistar uma liberdade subjetiva, completamente diferente da liberdade utópica que só existe na ordem do desejo.

Se me perguntarem se me sinto livre, direi que ao longo da minha vida conquistei alguns momentos de liberdade que me serviram como um grande suspiro, em meio a esse sufoco de viver dominada pelo estado, pela sociedade, por tudo e por todos.
Precisamos estar atentos aos dispositivos e detectar quais os efeitos que cada tipo de poder causa em nossa vida.

Filho, você poderá fazer disso tudo uma grande brincadeira, ou melhor dizendo, um grande jogo de vídeo game real onde cada desvio conquistado somará uma conquista em forma de alívio para sua vida.

liberdade-foto2Na Filadélfia, existe uma escultura chamada Freedom do artista Zenos Frudaski, que é um verdadeiro hino à liberdade. Nela, corpos se desprendem de um mural de bronze e ao se desprenderem vão conquistando um novo espaço até se tornarem corpos livres das amarras.

Acho que esta obra é uma leitura artística do que Foucault fala sobre os dispositivos de controle, sobre o poder pastoral e a biopolítica que regula nossas vidas através do Estado, das mídias, empresas entre outros. Mas o artista nos conforta com a ideia de que há possibilidade de fuga. Sim! Elas existem!
Somos vigiados e controlados, mas temos que nos desprender do bronze que aprisiona nossos corpos e nossos pensamentos.

Nas minhas aulas discutimos e eu me deparo com esta total falta de liberdade que impera em nossas vidas. E tudo foi pensado e escrito por esse filósofo francês que tem encantado meus pensamentos.

Ao dividir minha angústia na sala de aula com colegas e professora, pude ouvir que a ideia de viver a vida como potência é a única saída. Este é o pensamento Spinozista, vindo de outro filósofo genial. Ou seja, é preciso ir ao encontro daquilo que potencializa nosso caminho a favor da nossa alegria, aprendendo a nos desviar daquilo que nos faz mal e diminui nossa potência de viver. Foucault também fala da vida com estética, onde o cuidar de si é fundamental para transformar o sujeito na própria obra de arte. Talvez esta seja a única maneira de atingir a liberdade.

Espero filho, que você encontre seus caminhos e que eles possam ser felizes. Que saiba se desprender para respirar fundo e continuar.
Aprenda com a vida a fazer escolhas de um viver que eleve e reverbere positivamente na sua potência de existir.
Que seu hino à liberdade, possa em meio a tanto controle tornar-se o poema de Ricardo Reis: Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas, o resto é a sombra de árvores alheias.
Te amo.

Referências

AGAMBEN, G. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007.
AGAMBEN, G. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009, pp. 27-51.
ESPINOSA, B.; ESPINOSA, B. Ética-V: Da potência, da inteligência ou da liberdade humana. B Espinosa. Pensamentos metafísicos; Tratado da correção do intelecto, p. 277-299, 1991.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Leya, 2014.
ZENOS FRUDASKI – Disponível Aqui

* Cristiane T. Pomeranz é arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte e mestranda em Gerontologia Social PUC-SP. E-mail: [email protected]

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