Lembranças de antigas moradias podem ser fatores de longevidade?

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Familiares e cuidadores precisam considerar que boas lembranças relacionadas a antigas moradias podem ser fatores de longevidade, com o intuito de oferecer bem-estar a idosos que manifestam essas memórias.


O sonho da casa própria é estimulante ao longo da vida, menos por representar patrimônio e mais por significar a construção de espaços pessoais, especialmente quando se torna a materialização de um desejo de oferecer a melhor condição de vida para a família. Idosos que mudam para moradias institucionais mencionam suas antigas casas de modo recorrente, demonstrando a importância dessa lembrança, seja qual for o nível socioeconômico e em qual local esteja.

A saudade pode estar relacionada aos conviventes, aos objetos ou até aos vínculos formados com a vizinhança, mesmo que verbalizada com relação a ambientes como jardins, salas de estar e até à paisagem descortinada pelas janelas. A essência da lembrança está no sentimento de bem-estar relacionado aos momentos vividos lá.

Uma experiência reveladora, desenvolvida pelo biólogo Curt Richter na década de 1950, no Departamento de Psiquiatria da Johns Hopkins University School of Medicine, demonstra que a esperança e o otimismo aumentam a capacidade de sobrevivência, mesmo em condições adversas. Inicialmente, 12 ratos foram colocados em vidros com água, sem condição de sair, e nadaram por 15 minutos antes de morrerem afogados. A seguir, novas cobaias eram colocadas nas mesmas condições, mas retiradas da água para descansarem por alguns minutos, sendo recolocadas para medir o resultado. Passaram a lutar pela vida por 60h ou mais, demonstrando que, ao acreditarem que poderiam ser novamente resgatados, os ratos cederam apenas no máximo nível de exaustão. A conclusão do experimento, muito elucidativa apesar da crueldade, demonstrou que ratos que tinham um motivo para lutar aumentaram a chance de sobreviver.

Em O Último Desejo de Sardar (Índia, 2021), filme original da Netflix, um neto dedicado se compromete a levar a avó de 90 anos que morava na Índia para rever a casa que havia abandonado 70 anos antes no Paquistão, quando a divisão entre os dois países a obrigou a mudar. Na expectativa da morte em função de uma doença grave, seu desejo não poderia ser atendido porque estava proibida de entrar em território paquistanês. Solução alternativa, mesmo parecendo impossível, seria transportar a casa até ela, o que acontece em meio a muitos percalços. A notícia acaba por mobilizar pessoas ao longo de todo o percurso, que se esforçam para que o projeto seja bem-sucedido, chegando até a avó já em total desistência à vida. As lembranças recuperam o otimismo da matriarca que acaba por viver mais sete anos, resgatando vínculos importantes até mesmo na sua grande família.

Familiares e cuidadores precisam considerar que boas lembranças relacionadas a antigas moradias podem ser fatores de longevidade, com o intuito de oferecer bem-estar a idosos que manifestam essas memórias. Se não é possível que retornem para uma visita, manter o interesse em histórias relacionadas e em fotografias registradas nesses lugares pode oferecer esse prazer com experiências positivas. Momentos significativos trazem memórias estimulantes, garantindo que o otimismo mantenha a saúde física e mental.

Foto destaque: Divulgação


Alzheimer
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Maria Luisa Trindade Bestetti

Arquiteta e professora na graduação e no mestrado da Gerontologia da USP, tem mestrado e doutorado pela FAU USP, com pós-doutorado pela Universidade de Lisboa. Pesquisa sobre alternativas de moradia na velhice e acredita que novos modelos surgirão pelas mãos de profissionais que estudam a fundo as questões da Gerontologia Ambiental. https://sermodular.com.br/. E-mal: [email protected]

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