Leci Brandão

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A entrevista foi concedida pela artista dia 26 de março, momentos antes do show promovido pela Prefeitura de Santo André, em comemoração ao “Mês da Mulher”. Com extrema simpatia e humildade fez questão de responder todas as questões, enfatizando o valor da entrevista a um site acadêmico como o Portal do Envelhecimento.

Marilene Bombana

 

Leci Brandão nasceu e foi criada nas proximidades de redutos do samba carioca, como a Portela, Vila Isabel e Mangueira. Tendo Jorge Ben como primeiro ídolo, é influenciada também pelo rock norte-americano. Nos anos 60 começou a atuar como cantora e compositora, e em 1968 ganhou o primeiro prêmio do programa A Grande Chance, da TV Tupi. Em 1972 entrou para a ala dos compositores da Mangueira, sendo a primeira mulher a conseguir esse feito. Participou de festivais de MPB e samba, lançou o primeiro disco em 1974, um compacto com músicas suas. Em 1975 veio o primeiro LP, Antes que Eu Volte a Ser Nada, seguido por outros três ainda nos anos 70. No início da década de 80 brigou com a gravadora Polygram e passou alguns anos sem gravar, época em que se acentuou a atuação política ligada ao sindicalismo, aos direitos humanos e às minorias. Também foi o período em que desenvolveu sua carreira no exterior, apresentando-se no Japão, Dinamarca, Angola, Estados Unidos. Trabalhou com o grupo Fundo de Quintal, voltando a gravar em 1985. Em 1990 seu disco Cidadã Brasileira ganhou dois prêmios Sharp. Atua como comentarista dos desfiles do carnaval carioca e lançou, em 1999, o CD Auto-Estima. Entre os maiores sucessos gravados por Leci estão “Isso É Fundo de Quintal”, “Só Quero Te Namorar”, “Café com Pão”, “Papai Vadiou” “Olodum Força Divina” e “Deixa pra Lá” (www.cliquemusic.com.br/artistas/leci-brandao.asp).
Marilene Bombana e Leci Brandão

Portal: Como você se sente aos 61 anos?

Leci: Muito feliz e muito grata a Deus pelas coisas que tenho recebido em minha vida, principalmente da virada do milênio para cá, acho que tudo o que deveria acontecer em minha carreira nos anos anteriores vieram depois de 2000. Consegui fazer o meu primeiro CD ao vivo, fiz o segundo, tenho tido reconhecimento de vários Estados, fui chamada para o Conselho da Igualdade Racial em Brasília e faço palestras para o Ministério da Educação. E curiosamente, o meu público é jovem. É muita criança, é muito adolescente, é muito jovem que comparece aos nossos shows. A interação que existe entre o nosso trabalho, o trabalho musical, e essas pessoas é uma coisa de plena felicidade, de entendimento, de identificação, porque sempre procurei fazer da minha arte uma forma de ajudar as pessoas. A minha meta sempre foi: “o que eu posso fazer na minha luta para contribuir na melhoria de vida, da qualidade de vida, das pessoas?”. Minha expressão é através das músicas politizadas que componho, sou compositora. Durante algum tempo fui chamada de xiita, de radical, porque sempre contestei muito, mas consegui também mudar esse discurso, esse olhar, porque acho que você pode fazer uma coisa de forma mais objetiva, mais sutil, com mais alegria e falando das mesmas coisas. Aí você consegue atingir muito mais pessoas.

Portal: O que você pensa sobre o seu processo de envelhecimento e em que medida a música interfere sobre ele?

Leci: Olha, veja bem, sou uma pessoa que tem uma vida absolutamente normal, não tenho vida de artista, vida de estrela, ou seja, acordo cedinho, porque já acordei cedo durante algum tempo da minha vida para trabalhar. Eu morava no subúrbio, Senador Cabará, e trabalhava em Botafogo no Rio de Janeiro, bairros bem distantes. Estou acostumada a acordar cedo. Hoje, embora meu trabalho aconteça mais nos finais de semana, continuo acordando cedo, gosto de ver o noticiário, ver o que se passa no país. Cuido da alimentação, tenho tendência a engordar, mas quando percebo que estou ficando mais gordinha passo a comer menos, como mais saladas, peixe e frango. Diminuí a carne, hoje já não como tanto como anteriormente. Não fumo, mas bebo; bebo caipivodka, tomo meu whiskinho e tomo cerveja no verão, porém minha bebida predileta é o vinho branco, adoro vinho branco, gosto de frutas, gosto de legumes, como de tudo, gosto de sopa. Em função da minha convivência em São Paulo, freqüento cantinas, mas nem todo dia nem toda hora, porque volto a engordar. Procuro comer fora mais nos finais de semana, gosto de sair para comer fora. Gosto de comer um peixinho, uma salada, um camarão. Meu vinho branco sempre acompanha todas essas coisas. Não faço absolutamente nada para dizer que quero ficar em forma, inclusive acho que deveria caminhar, mas não caminho, nunca tenho tempo para caminhar, porque num dia tenho que viajar, no outro isso e aquilo. Nos shows eu transpiro demais, saio do palco literalmente encharcada, esta é minha atividade física, mas gostaria de freqüentar uma academia, gostaria de fazer caminhada diariamente. Reconheço que poderia ser mais saudável e um pouquinho mais magra se fizesse exercício, mas por enquanto ainda não deu tempo para fazer, minha vida é extremamente ocupada.

Portal: Em sua opinião como viver bem a velhice?

Leci: É procurar ter uma vida de equilíbrio emocional, é procurar fazer tudo aquilo que tem vontade. É o seguinte: eu sempre trabalhei, eu sempre fui arrimo de família, sempre ajudei as pessoas da minha família, enfim, moro com a minha mãe, minha irmã, com dois sobrinhos, todo mundo depende literalmente de mim e tenho muito prazer de poder sobreviver até hoje, poder trabalhar e dar um conforto para essa família. Eu poderia ter pensado mais em mim e deixar as coisas para lá, mas nunca fui assim, sempre fui preocupada com o meu povo. Então, meu povo estando bem, para mim está tudo certo. Primeiro atendo às pessoas, depois é que cuido de mim. Hoje, posso dizer que sou feliz porque minha mãe mora em apartamento próprio no Rio de Janeiro, tenho também meu apartamento, tudo pago direitinho. Quando tenho alguma chance de lazer, gosto de viajar. Semana passada, por exemplo, fui para Maceió, passei o sábado e o domingo lá. Não sei nadar, mas fiquei dentro da água o tempo inteiro, tomei sol, comi um peixinho, comi camarão, fiz tudo o que tinha direito, voltei e estou feliz. Não precisei necessariamente ir aos Estados Unidos ou à Europa para dizer que estou curtindo, até porque eu adoro o Brasil. Tem muita coisa no Brasil que não conheço. Sempre digo às pessoas que, se ganhar na loteria um dia, tenho uma lista de cinqüenta pessoas que vou ajudar e a outra coisa que vou fazer é conhecer o Brasil. Acho que o Brasil é maravilhoso e ainda não o conheço totalmente. Conheço as capitais em que faço os shows, canto na correria. Agora, tirar foto, conhecer, pegar barco, conhecer o Pantanal, conhecer Fernando de Noronha, enfim, conhecer tudo, acho que seria minha vontade. E outra coisa, é importante quando você tem uma religião, quando acredita em Deus, respeita a natureza, acredita nessa coisa de energia, eu, por exemplo, não consigo ficar perto de pessoas que sinto alguma coisa como “baixo astral”, eu corro disso. Tenho meus rituais, gosto de rezar, gosto de rezar antes de entrar no palco, gosto de cantar, gosto de entrar de branco nas sexta-feiras. Acredito no meu anjo de guarda, tenho a maior fé nele. Estou sempre passando mensagens positivas para as pessoas, não tenho preconceito de nada, nem ninguém. Sou uma pessoa de cabeça totalmente aberta. Detesto gente preconceituosa, seja em que circunstância for. Acho que dessa forma consegui atingir meu equilíbrio, não sou uma pessoa ansiosa. Se a agenda está cheia, maravilha, se está mais ou menos, entendo que virão dias melhores, nada me abala. O que me abala é na hora do trabalho, por exemplo, o som não estar bom ou, de repente, tal coisa não pode, ou não achar o lugar do show e ficar rodando não sei quanto tempo para chegar. Essas coisas estressam um pouquinho, porque é a hora do meu trabalho. Meu camarim, como vocês estão vendo aqui, é bem simples, a gente pede uns frios, pão, suco, café e só. Conheço listas descomunais de camarim, histórias de artistas por aí, uma coisa absurda. Meu camarim é desse jeito aí, tudo o que está aí me agrada. Procuro respeitar as pessoas do jeito que elas são. Levo minha filosofia de vida com seis palavras que minha mãe ensinou: bom dia, boa tarde, boa noite, com licença, por favor, muito obrigada. São essas as palavras que conduzem minha vida, entendeu?
Portal : Você que sempre abraçou as causas de minorias, como as da mulher e as da raça negra, como vê o grupo de idosos?

Leci: Olha, já fiz uma série de atividades para a Terceira Idade nos anos 80, anos 90, sempre que fui convidada. Participei levando alegria, levando inclusive um repertório diferenciado, porque quando a gente faz show para a Terceira Idade procuro levar músicas tipo marcha-rancho, sambas antigos de Ataufo, Ismael, coisas de Dalva de Oliveira, Elizete Cardoso, misturo com meu repertório e eles adoram, ficam fascinados. Fiz uma música com o Alceu Maia, que está no meu CD Somos da Mesma Tribo, chamada “A Terceira Idade”, é um partido-alto, nela digo que a Terceira Idade é a felicidade, a Terceira Idade é a voz da verdade: “não faz só tricô e bolinho, também gosta de ouvir um chorinho, de vez em quando toma um choppinho, vai no pagode legal”… Fala que freqüentam academia… A Terceira Idade hoje está fazendo uma série de coisas, ou melhor, fazendo tudo.

Portal: Apenas para citar alguns: Paulinho da Viola, 63 anos, Martinho da Vila, 78, Dona Ivone Lara, 83, Monarco 72, Jamelão, 93. O que pôde aprender com os sambistas mais velhos?

Leci: Eu acho que a humildade. Todas as pessoas que você citou têm como característica principal: a humildade. O próprio Jamelão, que todo mundo implica, tem o jeito dele, uma coisa dele, ele é assim. Sempre me trata com muito carinho, até porque trabalhou com a minha mãe na fábrica de Tecidos Confiança em Vila Isabel, os dois foram colegas de fábrica, me via como sobrinha. Paulinho é um gentleman, um doce. São pessoas de muita simplicidade, que têm competência, têm valor, mas nunca se consideraram celebridades, não vivem super luxuosos, não… São pessoas de muita sabedoria e de muita tranqüilidade. Eu não me considero melhor do que ninguém, não me acho a melhor artista, canto mais na interpretação do que, propriamente, do potencial de voz, que é meio rouca, enfim, procuro acima de tudo valorizar as pessoas. Para mim, o ser humano é fundamental, seja ele de que profissão for, seja ele de que raça for, eu trato bem. Quando chego ao aeroporto, lá estão aqueles meninos que recolhem os carrinhos e varrem o chão: “Oi dona Leci, sou seu fã, dá um autógrafo?”, eu dou. Até a carteira de trabalho eles pedem para autografar. Atendo qualquer pessoa que venha falar comigo, que demonstre gostar de mim. Em seguida, sou abordada por um executivo na fila do check in: “Oi Leci, gosto muito do seu trabalho”. Quando no embarque em Congonhas você precisava andar pela pista, quantas e quantas vezes ouvia os meninos transportando as malas: “Oi Leci! Não sei o que…”. Eu atendo e jogo beijos para eles, enfim, é assim minha vida.

Portal: E com a geração nova, o que você pode aprender?

Leci: Olha, acho que a geração nova tem autenticidade, é muito verdadeira, ela não deixa as coisas passarem assim desapercebidas, não deixa barato não. Não gostou, reage. Procura mostrar seus pontos de vista, vão paras as ruas. São pessoas que reivindicam, têm muita sinceridade nas suas atitudes. A única coisa que lamento muito por essa geração é que não tenham tido a oportunidade, por exemplo, de brincar de roda, de brincar na rua, de entender o que é brincadeira de criança, porque é a geração da tecnologia, todos estão no computador. Eles esquecem que existem outras formas de se distrair, esquecem não, eles não sabem, porque nunca mostraram a eles. Quem é da classe média fica enfiado dentro de um prédio e quem não é fica enfiado numa favela. Hoje, você não tem mais quintal para brincar, para pular carniça, para jogar amarelinha, para jogar peão, para soltar pipa, só a meninada do subúrbio ainda solta uma pipa, mas a maioria não tem essa oportunidade. No meu tempo, toda casa tinha uma correia, qualquer coisa que a gente fizesse, apanhava. Não podíamos tomar parte de uma conversa de adulto, não podíamos expressar nossas vontades, não podíamos fazer nada, era muito rígido. Existem coisas que minha mãe fazia comigo que não deixo fazer com as filhas da minha irmã. Lá em casa, sou aquela que não digo não, digo apenas para as coisas que tem necessariamente que se dizer. Nunca tive a oportunidade de viajar com minhas amigas do colégio que tinham casa fora do Rio, minha mãe não deixava: “Ah, eu não sei quem é essa família, eu não conheço, não sei o que”. Nunca fui porque era pobre, não podia. Eu estudava no colégio público, tinha amigas mais ricas e gente mais pobre, tinha de tudo, eu não ia. Hoje, vejo de modo diferente. Não há problema se algum coleguinha vai lá em casa, ou se há um telefone para sabermos onde está e temos o endereço; sabemos que vai estudar ou sair, é preciso fazer uma socialização. Porém, hoje em dia, é um pouco mais fechado. Em função de morarmos no Rio de Janeiro, cidade violenta, ninguém pode sair com disc man, ninguém pode sair com um relógio, ninguém pode sair com uma bicicleta, não podemos sair com nada, podem roubar. Acho que essa geração não teve a chance que tivemos. Eu andei de bicicleta na rua, eu pude usar o relógio que a minha mãe deu quando fiz aniversário, eu usava cordãozinho com Deus no pingente, eu dormia na condução e ninguém me roubava, não havia nada disso, havia mais segurança. Hoje, infelizmente…

Portal: Você tem planos para o futuro?

Leci: O p róximo plano é gravar meu DVD, porque já participei do DVD de outros artistas e só não gravei o meu ainda…

Portal: O que você tem a dizer sobre a vida?

Leci: A vida? Olha, acho que Deus colocou tudo no mundo para sermos felizes. Ele deu tudo: deu terra, deu mar, deu chuva, deu os animais, deu as flores, deu os frutos, deu tudo, só que infelizmente a vida para ser vivida, tem uma coisa nesse meio chamada dinheiro. Se não houvesse esse tal do dinheiro, se as pessoas não precisassem do dinheiro para estudar, para se vestir, para se alimentar, para ter saúde, porque você hoje tem que ter plano de saúde, tudo seria melhor. Eu não queria que a vida fosse assim, queria que fosse de uma outra forma. A palavra tivesse mais força que o dinheiro, as atitudes tivessem mais força que o dinheiro, mas, infelizmente… O dinheiro é que faz toda essa diferença de classes sociais, o dinheiro é que faz a guerra, é por causa do dinheiro que o Bush mandou invadir o Iraque, é por causa do dinheiro que o Brasil está do jeito que está, essa bagunça toda. Se não fosse o dinheiro não haveria problema algum, trocaríamos as coisas: me dá uma maçã que eu te dou uma pêra, seria uma maravilha, mas o homem fez isso aí. Ele vai destruir o mundo, ele e ninguém mais, porque Deus dá tudo para crescermos bem.

Agradecimentos

Agradecemos a Vanderlei Lopes de Faria (Lela), nosso contato no Departamento de Cultura da Prefeitura de Santo André, pela intermediação com o empresário de Leci Brandão. E à Leci Brandão pela disponibilidade em nos atender e o prazer que nos proporcionou nessa entrevista

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