La vecchiaia è bruta

La vecchiaia è bruta… E eu envelheci! Esse termo nunca deveria estar assim, no passado perfeito. Deveria estar sempre no gerúndio, já que o envelhecimento é um processo, que acontece desde sempre em corpos (e mentes) vivos.

Maira Gadel Lima (*)

 

La vecchiaia è bruta. Inúmeras vezes ouvi essa expressão das minhas avós, da minha mãe, das minhas tias… Era uma forma geralmente bem-humorada (mas às vezes nem tanto) de reagir à dificuldade de fazer algo. Uma espécie de reafirmação sempre que se deparavam com situações em que não conseguiam realizar algum movimento ou quando a “cabeça falhava”, como elas diziam, fazendo com que esquecessem algo ou que fossem a determinado lugar e não mais lembrassem o que foram fazer lá…

La vecchiaia è bruta e envelhecer (física e mentalmente) é um processo lento e gradual, mas às vezes parece que nos damos conta dele de repente, num piscar de olhos, quando notamos esta ou aquela mudança física, quando os esquecimentos ficam constantes, ou quando estamos diante de marcos cronológicos concretos (aniversários de 60 anos, as carteirinhas de idosos, o direito disto ou daquilo, o aparecimento de cabelos brancos, de rugas…).

La vecchiaia è bruta… E eu envelheci!

Envelheci. Esse termo nunca deveria estar assim, no passado perfeito. Deveria estar sempre no gerúndio, já que o envelhecimento é um processo, que acontece desde sempre em corpos (e mentes) vivos.

E quando a velhice nos salta aos olhos, a sensação é de que perdemos alguma coisa no caminho. Já? Nem vi o tempo passar! Usei bem o tempo? Como ele passou rápido! Fiz tudo o que podia ter feito? Aproveitei bem a vida?

Vinda pelo olhar do outro ou pela nossa própria percepção, a constatação de que nos tornamos velhos geralmente nos faz ver apenas o que perdemos (e perdemos, de fato, habilidades, pessoas, espaço, autonomia) e não o que ganhamos com o passar do tempo. La vecchiaia è bruta.

Mas, com mais anos vividos, temos experiências acumuladas que nos permitem enfrentar de forma mais serena as questões da vida; temos menos tempo pela frente e ainda assim, mais tempo disponível; nos conhecemos melhor, o que possibilita escolhas mais acertadas sob vários aspectos.

Não se trata aqui de fingir que o envelhecimento não venha carregado de angústia, medo, tristeza e solidão. Mas de perceber que algumas coisas ficam mais difíceis, mas outras, mais fáceis. Que não temos mais condições de fazer isto sozinhos, mas que temos ainda muita condição de fazer um outro tanto de aquilos e, talvez, de forma melhor do que antes! Que pessoas se foram, mas outras estão aqui e outras ainda chegam, se houver espaço para elas. Tudo isso se estivermos abertos, se à medida que coisas forem sumindo das nossas vidas, que nosso mundo for diminuindo, conseguirmos buscar outras, fizermos força para ampliar nosso mundo de novo…

Esse movimento não é fácil, mas é precioso e possível. Quanto antes pudermos tomar consciência das coisas que mudarão com o passar do tempo, quanto mais pudermos nos atentar a isso, cuidar do que for necessário e aceitar que assim será, mais poderemos deixar que a velhice chegue assim, de mansinho, amigável, cercada de cuidados, e a gente cercada de gente, de objetivos, de vontade de continuar vivendo, porque a vida ainda faz sentido.

(*)Maira Gadel Lima – graduada em Fonoaudiologia, com pós-graduação em Psicopedagogia. Atuou de 1997 até 2016 como diretora da Educação Infantil e da unidade de Cursos Extracurrilares na Carandá Vivavida – Educação. E-mail: mairagadel@uol.com.br

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