Ivano Pasquini, 88 anos, muitas histórias para contar

Tempo de Leitura: 20 minutos

Conheci o Senhor Ivano em sua residência, no dia que fui entrevistar sua esposa, Dona Michela. Quase terminando a entrevista, demos uma pausa para o café e Dona Michela chamou seu marido, Senhor Ivano, para nos acompanhar. Ele sentou junto a nós, tomamos o café e começamos a conversar. A conversa foi ficando tão boa que o convidei para ficar e participar junto com Dona Michela da entrevista. Conversamos os três numa perfeita sintonia.

 

Eles tinham, ainda, muitas histórias para contar. E eu queria ouvir. Continuei gravando.

Agora, era a historia deles. Pensei se daria conta dessa nova experiência; contar a historia de vida do casal.

Quando eu estava quase indo embora, ele me perguntou se eu gostaria de ler a história que ele tinha escrito sobre a vida dele. Levei para casa, li e reli várias vezes, sempre com muita emoção. Tudo o que nós tínhamos conversado estava ali; e tão bem escrita que só tive que fazer algumas adaptações.

O texto original (sem fotos) tinha 20 páginas; reduzi à metade e tentei ser o mais fiel possível. O Senhor Ivano aprovou. Resolvi, então, que seriam duas publicações: Neste mês a historia do Senhor Ivano e no próximo a historia de sua esposa Dona Michela.

A história

Sou filho de Pasquini Gaudenzio e de Salani Bruna. Nasci em Navi, província de Lucca na Itália, no dia 17 de Março de 1919. Minha família era formada por papá, mamãe, nona materna Rosa Salani, meu irmão Lelio o mais velho e Lido o mais novo. Dou graças a Deus por ter nascido numa família pobre, mas cheia de amor.

Meu pai era construtor de casa, minha mãe trabalhava na “Manifattura de Tabacchi”, cidade de Lucca, na Itália. Minha avó, nona Rosa, morava conosco, e foi quem nos criou. Era linda, loira, com grandes olhos azuis. Lido era meu irmão mais novo, e éramos companheiros de brincadeiras. Quando saíamos, minha mãe, sempre preocupada recomendava para que não fôssemos muito longe.

À noite, quando minha mãe voltava do trabalho, trazia o “castagnacci com la ricotta”. Nós corríamos para abraçá-la e ela perguntava se tínhamos ficado bonzinhos. Vovó, dizia que sim. Ela sempre nos protegia.

Aos poucos papai começou a nos dar algumas tarefas, tais como: preparar a semeadura do trigo, acertar a horta e outras pequenas coisas. Ainda menino, fui aprendendo o amor pelo trabalho. Papai me levava para seu local de trabalho, onde eu ajudava carregar cimento, areia, tijolos, etc.

Aos sete anos, comecei a freqüentar uma escola particular perto de casa. Minha professora do primeiro ano do curso primário chamava-se Eginia, a do segundo, Adelina Simi e a do terceiro, Giuseppina Giusti; ela ficou conosco até o quinto ano. Sempre fui bem na escola, mas no quinto ano foi mais difícil. A brincadeira era muita e eu larguei um pouco os estudos. Meus pais sempre enfatizaram a importância dos estudos.

Eu tinha um amigo, mais velho, que se chamava Luigi. Ele queria começar a trabalhar numa fábrica, mas não tinha concluído o quinto ano primário. A licença da quinta classe elementar, como era chamado, era pré-requisito para algumas atividades. Naquela época, o analfabetismo na Itália era muito grande. Um dia eu disse a ele: Luigi, você quer que eu faça a prova para você? No seu nome? Se for promovido, você me dará em troca farinha de trigo e milho. E assim fizemos.

Fiz todos documentos necessários em seu nome, rezando para que tudo desse certo, e, assim, eu ganharia alguma coisa para minha família se alimentar. Luigi era filho de um próspero agricultor, enquanto nossa família padecia de fome.

Quando foi publicado o resultado, o nome dele estava na lista “nós tínhamos sido aprovados”. Luigi ficou muito feliz, e com isso voltei a tomar gosto pelos estudos. Comecei a trabalhar durante o dia e estudar a noite, na Escola Artigianelli em Lucca. Infelizmente, nessa época começou a guerra na África, e a partir daí, nossa vida começou a se transformar. As aulas eram irregulares; às vezes tinha aulas, outras não, não tinha professores. Acontecia o conflito da Etiópia.

Estava com 14 anos nessa época, e comecei a procurar emprego. Precisava ajudar minha família. Um amigo meu, o Mario, me chamou para trabalhar numa oficina mecânica onde ele trabalhava. No primeiro dia de serviço, meu chefe, Oreste Bártoli, percebendo que eu ia sempre trabalhar a pé, me emprestou uma bicicleta da oficina. Eu nem acreditava, parecia que ia sair voando com ela. Meu chefe era muito bom. Mais tarde pude comprar minha própria bicicleta. Era usada, de segunda mão, mas para mim era maravilhosa.

Eu era muito responsável com o trabalho e todos gostavam de mim. Na época do Natal, ganhava muita gorjeta. Sentia-me realizado em poder ajudar meus pais.

Cresci no meio de bicicletas e automóveis. A oficina era um salão muito grande, e lá, aprendi de tudo sobre motores de bicicletas e automóveis. Eu admirava os automóveis da Fiat, modelo Balilla.
Os anos iam passando, e meu sonho era abrir uma oficina como a do Senhor Bartoli. Seu filho, Marcello, que era meu amigo, gostava de aviação e foi fazer um curso para especialista de motores de avião. Meu sonho era fazer o mesmo, mas não passava de um desejo, já que para realizá-lo, era necessário muito dinheiro, livros e tempo para estudar.

A oficina onde eu trabalhava era freqüentada por dois irmãos: Giuseppe e Mario Scacchioli. Eles estavam bem financeiramente e estudavam economia. Ficamos bons amigos. Um dia contei para eles que tinha um sonho de estudar aviação, mas não tinha condições financeiras. Eles me ofereceram ajuda e começaram a me ensinar. Fiquei louco de felicidade. Comprei caderno, caneta, e começamos. Todos os sábados e às vezes até aos domingos, eles vinham me dar aulas, como verdadeiros professores.

A adolescência

Éramos uma turma de amigos de mesmo quintal, chama-se: “Corte Bucaccia”. Jogávamos futebol com uma turma de outro quintal, chamado: Corte Vannucci. “Às vezes acabava em discussão, briga e confusão. Nessas horas, sempre aparecia um senhor de idade, com uma vassoura para nos separar”.
Estávamos a caminho da adolescência.

Conheci então uma garota da minha aldeia que se chamava Tosca. Começamos a namorar, mas durou pouco, ela era muito ciumenta. Eu tinha uma garota em cada aldeia: Sant`Anna, Santo Alesio, Ponte San Pietro, Nozzano e Ripafratta. Era muita diversão, não via a hora de chegar o domingo para reunir os amigos para os bailinhos, que acontecia sempre na casa de alguém da nossa turma.

As coisas eram simples e compartilhadas.Vivíamos tão bem com tão pouco. Tudo isso teve curta duração. Havia chegado o momento de cumprir o serviço militar. Era dia 10 de maio e na nossa aldeia realizava-se a festa de Nossa Senhora. Foram 18 meses de vida militar e muitas histórias para contar.

Fui mandado para a Sicília, para o Aeroporto Comiso. O chefe do governo era Benito Mussolini e todos deveriam se inscrever no “Partido Fascista”, caso contrário, era difícil uma ocupação. Quando tínhamos alguma licença podíamos ir para casa matar a saudade, contar o que acontecia na caserna. Em casa, o tempo passava rapidamente e sempre chegava à hora de voltar para o alojamento.

Quando voltava para caserna, à noite ficava pensando nos meus pais. Tamanha dificuldade de criar os filhos e agora eles estavam sozinhos. Os 3 filhos estavam longe de casa. A última vez que fui para casa fiquei impressionado com minha mãe. Tinha feições de uma velhinha; seus cabelinhos estavam branquinhos. Quanto sofrimento, quanta tristeza. O serviço militar durava um ano e meio e eu rezava para poder voltar para casa e ver a família reunida. Esperava com ansiedade esse momento.

Quando voltei, após um ano e meio, o senhor Bartoli me chamou novamente na sua oficina e lá retomei meu trabalho. Agora eu tinha carta de motorista e o curso de aviação, que havia concluído durante o período de treinamento militar.

Nos finais de semana levava os clientes do senhor Bartoli nas competições de esqui, num lugar conhecido como “Le Mandriole” na estação de esporte de inverno toscana, chamada “L ´Abetone”. Eu me divertia vendo as competições nas montanhas de neve. À tarde, todos reunidos cantávamos a canção “La Montanara”. Éramos 4 motoristas habilitados para aquelas viagens de serviço turístico.

Conheci pessoas importantes e com eles aprendi muito.

Sempre recebia chamados de padres, engenheiros, e outras pessoas importantes. Muitas vezes acompanhei o Professor Bolaffi, um grande médico italiano, até a universidade. Conheci também um conceituado engenheiro eletrônico, o Senhor Ingegner Bianchi, eu o acompanhava à “Empresa Metalúrgica” e outras vezes à “Industria Bélica”. Aprendi muito com ele. .

Aos sábados e domingos eu me divertia nos bailes com meus amigos: Beppino e Mario.

A cada semana uma garota diferente. Vivíamos em paz trabalhando e nos divertindo tranqüilamente. Gostava das festas de finais de Ano. A festa de Natal sempre foi uma data importante para mim e continua sendo até hoje. Era um dia sagrado, onde a família inteira se reunia.

Meu pai trabalhou de pedreiro nos Estados Unidos e quando voltou para a Itália, casou-se com minha mãe, Bruna. Construíram a casa onde nascemos e durante muitos anos, apesar da precariedade das condições financeiras, éramos mito felizes.

Sou o segundo dos três filhos. Fui o que mais deu trabalho, gostava de me divertir com meu irmão e meus amigos, e minha mãe estava sempre preocupada comigo. Agora que tenho família, imagino como minha mãe deve ter sofrido.

Uma vez, brincando com meu irmão, tomando banho num rio perto de casa, pisei em alguns cacos de vidro de uma garrafa quebrada, que estavam no fundo do rio. Fiz cortes profundos no pé, fiquei 40 dias para me recuperar.

Tempos de guerra

Estavam todos tristes e pensativos; as conversas eram sempre sobre a guerra. Não saíamos mais como antes e os encontros com os amigos rareava. Mussolini falava diariamente pelo rádio ao povo italiano, e num desses discursos disse: “A guerra começou”. Vocês jovens, vigorosos italianos peguem suas armas e partam.

Por coincidência era o dia 10 de maio de 1940, mesmo dia em que eu tinha partido para começar o serviço militar, o Dia de Nossa Senhora. Fui despachado para Sicília, meu irmão Lélio para Valdieri e Lido para a Grécia. Não tinha mais jovens nas ruas. As famílias tristes e preocupadas com os filhos. A dor na partida era muita. Eu dizia para meus pais: fiquem bem, eu amo vocês, tenho certeza que nossa senhora vai nos reunir novamente.

A viagem não acabava mais

Passamos por Lucca, Pisa, Roma, Napoli e chegamos a Villa San Giovanni. Deixamos a Calábria, um lugar belíssimo, com as praias totalmente tomadas pelos soldados e pelos canhões. Quando beiramos a montanha do Etna, saía labaredas e fumaça da cratera, sentíamos muito medo.

Chegamos ao nosso destino: Comiso. O aeroporto estava repleto de canhões e metralhadoras. Fomos levados de ônibus até a caserna onde ficamos todos alojados. Recebemos as fardas militares, tomamos banho e fomos dormir. No dia seguinte, às seis horas da manhã, a corneta tocou. Todos na fila, com a gamela na mão recebendo o café. Tomamos café e fomos para o treinamento. Ao meio dia, era o almoço; na fila novamente nos serviam a comida, como davam aos escravos antigamente.

A disciplina era muito rígida e ai de quem cometesse erro. Às vezes tocava o alarme, e sempre dava medo, mesmo sabendo que fazia parte do treinamento. À noite, quando voltávamos para casa, mal conseguíamos andar, de tanto canseira. Eram ministrados muitos cursos e quem fizesse esses cursos, ficava livre da sentinela.Eu não perdia nenhum. À noite com aquele frio, se tivesse que fazer sentinela, em pé, a gente congelava.

Do aeroporto de Comiso fui transferido para o de Parma, o comandante era o Coronel Gattoline, uma peste de ruim, castigava a todos. Depois de algum tempo fui para o Aeroporto de Guidonia, o centro mais importante da Itália. Meu comandante era o coronel Tondi. Pedi a ele para fazer um curso de especialização, assim ficaria livre da limpeza dos alojamentos e da sentinela. Eu sempre tive um bom relacionamento com todos.

Após algum tempo, fui transferido para o Aeroporto de Rieti, na região Lazio, e depois para a “Bastia”, na Córsega. Região das operações militares. Estavam precisando de motorista para caminhão a diesel e como eu conhecia bem o ramo, comecei a dirigir estes transportes pesados, no porto de “Ajaccio”.

A guerra fazia-se presente e cada vez mais próxima.

Quando as sirenes tocavam, tínhamos que nos refugiar por causa das bombas. Vinham àqueles esquadrões de caça americano e as bombas caíam como uma chuva de pedras. Quando terminava o barulho íamos ver quem faltava; sempre faltava um companheiro nosso. Perdemos também nosso comandante.

Vivíamos atemorizados. Até quando ficaríamos vivos?

Um dia, colocaram-nos em uma velha barcaça e atravessamos o “Golfo Del Leone”, não afundamos porque Deus não permitiu. Chegamos à ilha de “Maddalena”, assustados com os aviões que soltavam bombas sobre nós, parecia o fim do mundo. Quando conseguimos desembarcar, chegamos à estação e pegamos um trem que estava em péssimas condições. Acima de nós, os ruídos dos aviões de combate ingleses. Os Spitfire, metralhando a vegetação ou qualquer outra coisa que pudesse esconder algum inimigo. À noite, o trem parava devido o coprifuoco; período em que nenhum civil poderia circular depois de determinado horário.

A Itália inteira estava no escuro, não podíamos acender um fósforo sequer.

Havia só desanimo e tristeza. Pensávamos que a qualquer momento, um de nós, poderia faltar à chamada. Desta forma, tumultuada e trágica, a viagem continuava. Devíamos chegar ao Aeroporto de Elmase. Percebemos ao longo da viagem que as bombas inimigas tinham destruído tudo. Tivemos que fazer o restante da viagem a pé, transpondo por alguns quilômetros, montes de detritos de todo tipo.

Chegamos sujos, cansados, com a cabeça ardendo e o físico em pedaços. Fomos obrigados a trocar completamente a roupa, uniformes e sapatos. O comandante da região não tinha motorista nem para ele nem para outros meios motorizados. Entregou-me um caminhão marca Ceriano, velho e mal conservado; o último que sobrou da destruição. Durou pouco tempo. Logo ele parou por completo. Não existiam peças para substituição e não sabíamos o que fazer. As estradas e as ferrovias estavam destruídas.

O comandante me ordenou que fosse à oficina ver se algo funcionava. Encontrei um Fiat 1500, que me pareceu em melhor estado. Testei o motor e ele funcionou. Fiz uma boa limpeza e o comandante, Coronel Martire, ficou muito satisfeito. Daí em diante passei a ser seu motorista e fiquei com ele por muito tempo. Foi um segundo pai.

O casamento

Após um tempo, cheguei em casa. Era uma alegria abraçar a todos.

Depois de muitos beijos e abraços minha mãe me apresentou uma senhora que tinha alugado uma de nossas casas. Era a senhora Maria Vannucci, viúva com dois filhos. A garota chamava-se Michela e o menino Enrico. Fiquei muito impressionado com Michela, e quando voltei à caserna, escrevi uma carta à ela. Depois uma segunda e mais tarde uma terceira. Enfim, começamos um namoro por correspondência. Falei com meu comandante sobre o namoro e ele sempre me dava uns dias de licença para namorar.

Ficamos noivos e nossa felicidade não conhecia limites.

Um dia meu comandante me disse: Mussolini assinou uma lei autorizando soldados que são casados a prestar serviço perto de suas casas. Diante dessa perspectiva, decidimos casar.
No dia 28 de setembro de 1942, eu e Michela casamos, na Igreja de Navi, às nove horas da manhã. Os sinos da igreja soavam, foi muito emocionante.

Casamento: Ivano e Michela, 1942

Não tivemos festa. Fomos para casa tomar um café com chocolate. À tarde partimos para Firenza em viagem de núpcias e voltamos três dias depois.

Pouco tempo depois, fui transferido para Tassignano, um pequeno aeroporto próximo de casa. Trabalhava durante o dia no aeroporto e à noite voltava para casa, mas após alguns meses, começou a fase aguda da guerra. Fui mandado novamente á Cagliari (situada na capital de Sardenha). No porto desta cidade havia uma numerosa frota de navios de guerra: couraçados, cruzadores e torpedeiras.

O comandante nos reuniu numa sala, do Montecuccoli, um Cruzador da marinha Italiana, onde todos os comandantes estavam reunidos. Estávamos confusos e amedrontados. Logo depois, o nosso navio subiu as ancoras e saímos do porto. Chegando em alto mar, nosso cruzador, o Montecuccoli, fez uma manobra à esquerda e o couraçado Roma, foi em direção oposta.

Naquele momento, estávamos no mar Tirreno navegando de Sardegna para o porto de Nápoli. O alto falante do navio começou a lançar ordens à tripulação. Deveríamos ficar em silêncio, parados em nossos lugares. Fora instituído o “Alerta Maximo”, que era a situação de maior perigo. De repente, o Montecuccoli parou completamente; chovia bombas de todos os lados. Depois de algum tempo, o perigo tinha passado. Estávamos todos salvos, mas, infelizmente, o couraçado Roma fora afundado. Com muita tristeza, saímos ao convés. Que tragédia ver todos aqueles soldados se debatendo no mar; ninguém se salvou. A água do mar era vermelha de tanto sangue. Todos gritavam pedindo ajuda e nada podíamos fazer.

O Montecuccoli prosseguiu por Nápoli, navegando em zig-zag para evitar o perigo das bombas e dos foguetes, que os aviões lançavam contra nós. Depois de tanto susto, chegamos ao porto de Napoli tristes e angustiados, pensando em tudo que o tinha acontecido e nossos amigos mortos.

Após algum tempo, o comandante anunciou: Rapazes, o fascismo caiu, a guerra acabou, mas os alemães ainda estão na nossa terra, portanto, fiquem prontos para defender-se. Sentíamos como ovelhas desgarradas do rebanho. Não sabíamos mais em que mês, dia, e ano, estávamos. Logo pensamos em nossa família.

Nos primeiros momentos da Guerra, mantínhamos contatos pelo correio, mas quando começaram os bombardeios, tudo foi destruído; pontes, estradas, rede elétrica, todos os meios de comunicação. Ficamos dois anos incomunicáveis, sem notícia alguma.

O comunicado de que a guerra havia terminado, não nos deixou completamente à vontade. Eu chorava, pensando se meus familiares estariam vivos. Na cidade de Napoli só existiam escombros. A visão era desoladora, e assim, cada um tomou seu rumo.

Logo que anoiteceu, encontrei-me completamente sozinho, perdido; não sabia para onde ir. Batia em algumas casas que ainda estavam em pé, mas todos tinham medo e ninguém abriaa porta. Vencido pelo cansaço, temeroso e assustado, encostei-me em uma parede e adormeci. Quando acordei no dia seguinte, perguntei que direção teria que tomar para chegar a Roma. Com a mochila nas costas e os documentos à mão, comecei meu calvário. Não existiam meios de transportes; eu teria que ir a pé. Durante a caminhada, tive que atravessar riachos e aproveitava a água para me refrescar um pouco. Tinha fome. Encontrando uma casa, uma senhora me deu um pouco de comida e deixou-me dormir em um quarto de seu quintal. Agradeci mil vezes.

No dia seguinte, deu-me café e uma sacola com frutas e pão. Assim, segui meu caminho. Eu sabia que seria muito longo. De vez em quando, encontrava alguém que me dava um pedaço de pão ou permitia que eu me lavasse um pouco e me oferecia um lugar para dormir. Quando isso não ocorria eu me encostava em qualquer canto para descansar e dormir. A fome era minha companheira constante.

Depois de um longo tempo e muito sofrimento, cheguei em Roma.

Quando avistei “Termini” (a estação principal de Roma), deu-me um calafrio na espinha. Era ruína e escombros por todo lado, os vagões de trem no meio das casas, não havia mais estradas, não se podia nem andar. O relógio da estação estava partido ao meio. Foi difícil acreditar que aquela era a Roma que eu conheci.

Descansei um pouco, criei coragem e continuei sempre a pé, esperando que aparecesse uma alma caridosa que me desse um pouco de comida e lugar para dormir. Em Toscana passei pelas cidades de: Grosseto, Massa Marítima, Cecina, e depois de meses de caminhada, finalmente, cheguei em minha cidade: Lucca. Estava com uma aparência horrível: barbudo, sujo e sapatos rasgados.

No dia 08 de dezembro cheguei em minha colônia: Navi. Estava exausto e maltrapilho.

Bati na casa de um vizinho, perguntei se minha família estava viva e pedi que chamassem meu pai. Queria que ele preparasse minha chegada. Fiquei preocupado que a forte emoção pudesse causar algum inconveniente.

Conversamos a sós, e entre lágrimas e suspiros, ele me disse que deveríamos ir logo para casa; todos estavam ansiosos e preocupados. Quando chegamos em casa, fiquei do lado de fora, meu pai entrou e Michela perguntou se tinha acontecido algo. Meu pai respondeu que sim, mas que era algo bom e completou: Vá ver lá fora: Ivano chegou.

A felicidade daquele momento é indescritível. Abracei Michela, minha mãe, meu cunhado, mas ainda faltavam meus irmãos. Foi um momento triste, minha mãe chorando disse que não tinha notícias deles, e eu disse a ela: quem sabe, logo eles também estarão entre nós.

Como uma rajada de vento, a notícia de minha chegada espalhou-se pela redondeza. Em poucos minutos a casa estava cheia de gente, e muitos pais perguntando se eu sabia de seus filhos. Infelizmente, eu não tinha nenhuma informação.

Naquela noite ninguém conseguiu dormir.

A vinda para o Brasil

Michela ficou grávida e no dia 04 de janeiro de 1946 nasceu meu filho Vinício. A parteira foi uma vizinha de nome Lina. O menino era lindo e saudável, ficamos felizes, mas tambémpreocupados. Não tinha trabalho para ninguém. Eu fazia alguns pequenos serviços nos campos, ajudando os agricultores, mas quando chegava o inverno, não tinha mais nada o que fazer.

Após seis meses do meu retorno, chegou meu irmão Lélio. Ele tinha sido prisioneiro num campo de concentração dos alemães, e tinha um ferimento no ombro. Chegou em casa pesando 45 quilos. Contou-nos que para sobreviver comia a vegetação dos campos em que passava e bebia a água de riachos ou poças de água, que se formavam na estrada, estivesse ela limpa ou barrenta. Demorou um ano para se recuperar.

Depois de algum tempo chegou meu outro irmão Lido, que estava na Grécia. Também chegou em farrapos, mas graças a Deus estavam inteiros.

Nessa época, meu pai não encontrava serviço, somente minha mãe e minha sogra trabalhavam; os outros estavam desempregados. Depois de pensar muito, resolvi vir para o Brasil. Vinício tinha apenas 10 meses.

Embarquei no Porto de Genova no navio Campana.

No dia 01 de dezembro de 1946, cheguei ao Brasil e desembarquei no Rio de Janeiro. Estávamos em cinco. Todos do mesmo país e com pouco dinheiro no bolso.

Na primeira noite dormimos no cais do porto, sobre sacos de cortiça. No dia seguinte juntamos o pouco dinheiro que tínhamos, pegamos um trem e viemos para São Paulo, onde moravam os tios de Michela. Eles nos acolheram por um tempo.

O Natal estava próximo. Este foi o Natal mais triste da minha vida. Pensava muito em minha família, no meu filho, a situação era difícil. Não conhecia ninguém, não falava português e estava sozinho numa terra estranha. Fui até a Igreja de São Bento, olhei o Jesus Menino, lembrei do meu filhinho e comecei a chorar. Todo o domingo ia até lá para encontrá-lo e para que Ele me concedesse a graça de poder abraçar meu filho novamente. Até hoje, ocasionalmente, vou até a Igreja São Bento agradecer ao Menino Jesus.

Meu oficio era Instalador Elétrico. Mas eu me adaptava a qualquer serviço, e aos poucos, fui aprendendo a língua portuguesa. Um dia encontrei um senhor, comandante da polícia, e quando lhe expliquei a minha situação, ele me chamou pra consertar uma instalação elétrica em sua casa. Fui à casa dele. trabalhei o dia todo e à tarde tudo estava em ordem. Ele, muito satisfeito com o serviço, alegando que até então ninguém conseguira resolver o problema, me pagou o dobro do que eu havia pedido. A partir daquele momento me indicou muitos clientes e meu trabalho foi aumentando.

Meus companheiros de viagem foram contratados pela firma “Lenzi di Lucca”, empresa que trabalhava com estruturas de ferro e estavam montando o Viaduto Santa Efigênia. Eu resolvi ir para lá também. Às vezes mandava dinheiro para minha esposa, mas não sobrava dinheiro para pagar a passagem dela e do meu filho para virem para o Brasil.

Um dia resolvi escrever para Michela, e pedir que ela viesse para o Brasil com dinheiro emprestado, e aos poucos iríamos pagando. Pensei que o dinheiro que eu gastava para pagar a pensão daria para todos nós.

Ela escreveu-me dizendo que iria providenciar tudo o mais breve possível. Fiz uma revisão nos meus gastos e vi que não daria para pagar um aluguel. Os tios de Michela permitiram que eu construísse um barraco no quintal deles.

Comprei as tábuas e, sozinho, construí um quarto e uma cozinha. Usaríamos o mesmo banheiro da casa dos tios, que ficava no quintal. Fiz uma pia do lado de fora e o fogão era de alvenaria, aquecido a carvão e também ficava ao ar livre, descoberto. Quando chovia, Michela fazia comida sob um guarda-chuva.

Nessa época Vinício tinha pouco mais de 2 anos. Michela conta que a partida de Genova, com o Vapor Filippi, foi muito triste. Após choros e abraços o vapor partiu. Naquele momento tocava na rádio do porto a música “Partirá la nave partirá”, quando arriverá questo no si sa, “(o navio partirá, mas quando chegará, isto não se sabe)”.

Michela e Vinício chegam ao Brasil, no porto de Santos no dia 09 de abril de 1948, após 23 dias de viagem.

Nosso encontro foi muito emocionante. Depois de muitos beijos, abraços e lágrimas, tomei meu filho nos braços que não me reconhecia mais, ele começou a chorar e disse; mamãe não quero ficar com esse homem. Foi um bom tempo até ele se acostumar comigo.

Partimos de Santos para São Paulo e chegando ao barraco Michela começou a chorar. Imaginou uma casa velha, mas não um barraco. Ela chorava e dizia; maldito Cristóvão Colombo que descobriu a América, porque nosso navio não afundou. Logo que puder, volto para a Itália.

Foram meses difíceis. Ela não conhecia ninguém, tínhamos pouco dinheiro e por longo tempo, comíamos pão e bananas. Michela, para não preocupar os pais, escrevia que estávamos bem e morando numa linda casa. Com o tempo ela foi se acostumando.

Michela tinha trazido sua máquina de costura da Itália e costurava muito bem. Descobriu uma loja de comerciantes toscanos, como nós, na Ladeira Porto Geral, que precisavam de uma costureira. Embora nunca tivesse feito roupas masculinas, fez um modelo e foi aceita. Começou a confeccionar calças de homens para a loja. Costurava em casa, e com isso podia cuidar da casa e da família ao mesmo tempo.

Nós trabalhávamos muito e fomos fazendo nossas economias. Quando terminamos de pagar a dívida da viagem, começamos a economizar para construir a nossa casa. Meu cunhado Eurico veio para o Brasil e foi morar conosco.

Michela engravidou novamente e embora não fosse o melhor momento, deu-nos mais força para superar aqueles momentos difíceis. Quando chegou perto da hora do parto, Vinício era muito pequeno e chorava porque não queria ficar sem nós. Michela esperou para até o último momento para ir à maternidade. Quando chegamos à maternidade Dona Leonor Mendes de Barros, mal descemos do carro, Ivana nasceu, ali mesmo na calçada. Era dia 24 de outubro de 1949, graças a Deus ocorreu tudo bem.

Mais tarde meu irmão Lélio vem para o Brasil e também ficou morando conosco. A família tinha aumentado, agora éramos seis.

Onde morávamos existia uma grande propriedade chamada quintalzão, quando foi loteada, compramos um terreno. Em 1956, eu, meu cunhado e meu irmão, começamos a construção do nosso sobrado no Bairro do Pari. Trabalhávamos dia e noite. Quando o dinheiro terminava, dávamos uma pausa e quando os recursos apareciam, investíamos novamente na construção.

Em 1957, cobrimos o telhado e sempre agradecíamos a Deus pela conquista.

Michela não falava mais em ir embora. Também estava feliz. Após um ano, a casa ficou concluída. Nossa casa tinha três quartos, banheiro, sala, cozinha, jardim, lavanderia e quarto de costura. Nossa família continuava separada por um oceano. Ficaram na Itália: meus pais e meu irmão Lido. Meu pai logo veio a falecer e depois minha mãe. Minha sogra ficou sozinha e assim ela também veio para o Brasil e ficou morando conosco.

Meu cunhado Enrico casou-se, meu irmão Lélio também e cada um construiu sua família. Compramos nosso primeiro carro. Era um Gran Peugeot e pudemos levar os filhos para vários lugares.

Compramos um titulo do Clube Santa Paula em Interlagos e lá passamos muito momentos felizes.

Em 1969, compramos juntos com meu cunhado Enrico, um terreno grande no Planalto Paulista e, juntos, começamos a construir um sobrado para cada um. Em 1971 mudamos para a cá. É esta casa onde moramos até hoje.

Meu filho Vinício formou-se na Escola de Comunicação e Artes da USP, depois cursou Direito. Ivana formou-se como Laboratorista de Análises Clínicas e depois em Turismo. Os filhos casaram e nos presentearam com cinco netos maravilhosos. A família continuou crescendo e hoje temos 2 bisnetos.

Sr. Ivano com os bisnetos

A saúde

Senhor Ivano me conta que nunca teve uma dor de cabeça. Até pouco tempo dirigia seu automóvel, mas parou por causa da vista. Estava com catarata, operou há pouco tempo e está muito bem. Passou a enxergar melhor. Dorme bem à noite e não pensa em problemas. Não tem o que reclamar, que na vida tudo passa e que hoje é uma pessoa feliz. Diz que sua saúde está boa, nunca ficou doente, não tem problema de pressão alta nem diabete. Alimenta-se bem, e come todos os tipos de fruta. Gosta muito de banana, come várias durante o dia. Não faz extravagâncias alimentares. Não come alimentos gordurosos, come pouco e comidas leves. À noite gosta de tomar a sopa que Dona Michela faz para ele.
Sr. Ivano e Dona Michela, 2007

Hoje sou aposentado. Faço todos os dias minha caminhada e tenho uma horta onde passo meus dias plantando todas espécimes de verduras. Preparo a terra com a enxada, faço a semeadura, o rodízio de algumas plantações e preparo o adubo.

Nunca falta manjericão para o molho de tomate e ervas para fazer um chazinho. Há dois anos nós trouxemos mudas de parreira da Itália que estão se desenvolvendo muito bem. Já estão crescendo cachos de uva novamente.

Gosto muito de escrever. Já estou escrevendo a segunda parte da minha história. Escrevo à mão. Tem dias que não dá tempo para escrever porque tenho que cuidar de outros afazeres. Tenho uma oficina de trabalho onde guardo minhas ferramentas e uso esse local também para escrever.

A oficina do Sr. Ivano é um espaço bem cuidado. As ferramentas organizadas na parede, o pequeno ventilador (construído por ele) no teto, uma mesinha onde ele escreve suas histórias e outros objetos de trabalho, traduzem um pouco da sua história.
Sr. Ivano, perto da horta.
A parreira: muda trazida da Itália Em detalhe, a uva italiana

Mensagem à família

Quando completei 87 anos, reuni toda a família aqui em casa. Foi uma festa muito bonita. Li uma mensagem a todos que fica aqui registrada na minha história.

“Meus queridos, estou contente por estarmos todos juntos em mais um aniversário. Agradeço a Deus por me ter concedido esta graça com muita saúde e paz. Tenho orgulho da minha esposa, noras, filha, netos e bisnetos. Que Nossa Senhora nos guarde sempre assim e Jesus nos dê sua benção. Deixo a todos um abraço carinhoso e muitos beijos,
De papá e nonno.”
Ivano Pasquini. (2006)

Portal do Envelhecimento

Redação Portal do Envelhecimento

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