Intergeracionalidade: uma experiência praticada em um Centro-dia de São Paulo

Mensalmente eles se encontram na sala de aula, para dividir suas (auto) biografias de acordo com o tema da aula a ser desenvolvida. A última foi sobre a ditadura. Ouvir um relato pessoal de quem viveu naqueles dias deve ter sido inesquecível. Trata-se de um Centro-dia, que também oferece cursos profissionalizantes para jovens, uma parceria público-privada.

Por Gisele da S. Sarmento Kreigne (*)

 

As atividades começam por volta das oito horas da manhã. Jovens e idosos se preparam para suas respectivas atividades. Um grupo busca capacitação no mercado de trabalho, na tentativa do seu primeiro emprego. O outro busca basicamente um novo convívio na sociedade. Estes realizam artesanato, vários tipos de atividades manuais, praticam atividade física e, o melhor: eles mesmos que escolhem todas as atividades por meio de uma assembleia. E o espaço de convívio desses dois grupos é praticamente o mesmo. O refeitório, o banheiro, a quadra. Somente durante suas aulas específicas há a separação. E mensalmente eles se encontram na sala de aula, para dividir suas (auto) biografias de acordo com o tema da aula a ser desenvolvida. A última foi sobre a ditadura. Ouvir um relato pessoal de quem viveu naqueles dias deve ter sido inesquecível. Outro exemplo concreto de convívio: enquanto os jovens aprendem a profissão de cabeleireiro, os (as) idosos (as) arrumam um tempinho para cuidar de suas madeixas, facilitando o exercício do mais novo profissional da área. Enfim, alguns momentos onde esse convívio vai muito além de trocas de poucas palavras. Trata-se de um local que além de ser um Centro-dia, também oferece cursos profissionalizantes para jovens, uma parceria público-privada.

Por definição, relações intergeracionais é o termo utilizado para referir-se às relações que ocorrem entre indivíduos pertencentes a diferentes gerações. No contexto social moderno, o conceito de geração extrapola o âmbito familiar, para agregar indivíduos de uma mesma faixa etária, e também de outras, que compartilham vivências de eventos sociohistóricos. Assim, a definição de relações  intergeracionais não deve restringir ao contexto familiar, mas envolver todo o campo social da vida dos indivíduos, como aponta Debert (1998).

E este Centro-dia da capital, São Paulo,  vem inovando seu serviço, permitindo uma quebra de preconceitos existente em ambos os grupos.

Há evidências dos efeitos positivos advindos das relações entre as gerações, como assinala Uhlenberg (2000): o fato de os idosos poderem oferecer contribuições produtivas que vão ao encontro de necessidades dos jovens, tais como cuidado, treinamento, supervisão e transferência de recursos materiais; os jovens poderem canalizar seu potencial e sua energia para atender às necessidades dos idosos quanto à informação e à tecnologia e, assim, terem oportunidade de aprender a ser úteis e de desenvolver o senso de cidadania; preconceitos e estereótipos existentes em ambos os grupos, por influência de ambientes altamente sectários, podem ser dissipados.

Outros benefícios são apontados como frutos de relações intergeracionais. Birren (2001) defende que a transmissão de ideias, cuidado e afeto são benefícios transferidos a outras gerações pelos idosos, que por sua vez têm a oportunidade de serem produtivos por meio dessa ação.

Num sentido positivo, considera-se a convivência plena com todas as fases da vida (infância, juventude, adultice e velhice), o que permite que nos reconheçamos e nos identifiquemos de alguma forma com cada uma delas.  Portanto, segregar os grupos etários, tão comum no nosso mundo atual, só aumenta a distância entre esses mundos.

Acredito que essa convivência poderia e deveria ser mais explorada. A princípio, deve-se falar mais a respeito do tema. O tanto de benefícios que esse convívio pode trazer. Mas para isso é necessário quebrar tabus há muitos anos impregnado na nossa sociedade.

Como outro exemplo inovador de relacionamento intergeracional temos um estudo realizado por Carlson (2009), na Universidade de Washington, nos EUA. Ele concluiu que as relações intergeracionais são importantes na prevenção de doenças e na promoção de um envelhecimento saudável. Neste estudo participaram 2000 voluntários com mais de 55 anos de idade, os quais tinham que acompanhar no máximo dois alunos com dificuldades escolares, na sala de aula e sendo os seus tutores. Estes alunos por norma tinham problemas de concentração e dificuldades de aprendizagem. Cada tutor acompanhava os alunos de acordo com o seu ritmo de aprendizagem, utilizando exercícios para melhorar o rendimento dos alunos. Este estudo foi desenvolvido em 22 escolas, com a participação de 20.000 jovens. No final, 60% dos alunos envolvidos melhoraram o seu rendimento escolar, particularmente a leitura; sentiam-se mais confiantes e mais calmos. Os professores conseguiram, desta forma, melhorar o aproveitamento do grupo. Em relação aos voluntários, foi possível observar a melhoria das capacidades psíquicas.

Uma parceria com alunos da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, criou um projeto “adote um amigo”, que visa combater a solidão de pessoas idosas de uma ILPI (Instituição de Longa Permanência) da redondeza. Segundo a coordenadora do projeto, “os jovens visitam os idosos como se fossem um neto ou um sobrinho, fazem-lhes companhia, veem televisão, vão ao café, acompanham-nos a fazer alguma compra, ouvem-nos”, mas, na realidade nem sequer fazem parte da família. A responsável acrescentou ainda que, para os jovens, “também é um benefício muito grande, porque desenvolve sentimentos como compaixão, espírito de partilha, tolerância e compreender melhor a outra geração”.

Dessa forma, fica claro o benefício que ambos os grupos conquistam ao longo do tempo. Aqui fica claro que o foco da intergeracionaldade está na relação, acima de tudo.

Para Andrade (2002), nem todos os que se relacionaram com pessoas idosas tiveram experiências que lhes permitiram aprender a conhecer os idosos e a valorizá-los mais. A garantia de uma velhice melhor para todos dependeria de uma transformação de valores em que os jovens sejam considerados como motor e catalisador dessa “revolução”.

No entanto, acredito muito que a maioria desses jovens que de alguma forma estreitaram o relacionamento com um idoso, acumulou conhecimento e empatia para encarar a velhice de forma mais leve e entusiasmada, o que nos faz pensar que se existisse mais incentivo para esse convívio, mais relações seriam promovidas a favor de uma velhice mais justa.

Referências 

ANDRADE, F. (2002). Uma Experiência de Solidariedade entre Gerações: Contributos para a formação pessoal e social dos alunos de uma escola secundária. Lisboa: Instituto de Inovação Educacional.

BIRREN, J.E. (2001). Psychological implications of productive aging. In N. Morrow-Howell, J. Hinterlong & M. Sherraden (Eds.) Productive Aging. Concepts and challenges. (pp. 102-119). Baltimore: The John Hopkins University Press.

CARLSON, M. (2009). Evidence for Neurocognitive Plasticity in At-Risk Older Adults: The Experience Corps Program. The Journals of Gerontology Series A: Biological Sciences and Medical Sciences. Volume 64A Issue (12).Pp.1275-1282.

DEBERT, G.G. (1998). Pressupostos da reflexão antropológica sobre a velhice. In DEBERT, G. G. (Ed) Antropologia e Velhice. (2ª ed., pp. 7-27). Textos didático, Campinas: IFCH/UNICAMP, 13.

LOPES, E. S. L. (2008). Relações Intergeracionais. In A. L. Neri (Org.), Palavras-chave em Gerontologia (pp. 175-178). Campinas, SP: Editora Alínea.

SILVA, H.S. JUNQUEIRA P. G. (2013) Reflexões e Narrativas (auto) biográficas sobre as relações intergeracionais: resultado de uma intervenção socioeducativa com mulheres idosas. Psicologia & Sociedade, 25 (3), 559-570.

UHLENBERG, P. (200). Integration of old and young. The Gerontologist 40 (3), 276-279.

 

(*) Gisele da S. Sarmento Kreigne é fisioterapeuta. Texto escrito no curso Fragilidades na velhice: gerontologia social e atendimento, do Cogeae/PUC-SP, no segundo semestre de 2017. E-mail: sarmento.gisele@gmail.com

 

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