Inhotim também para os velhos. A arte contemporânea e a velhice

E assim como Dona Flora que precisava buscar um novo rumo para sua vida, que outros idosos possam fazer o mesmo. Inhotim, um museu a céu aberto, é deslumbrante! Um convite para, devagar, passo por passo, divagar, no sentar dos bancos, no respirar profundo, que a arte possa revitalizar a velhice e a vida.

Cristiane T. Pomeranz *

 

inhotim-tambem-para-os-velhos-a-arte-contemporanea-e-a-velhice-Vamos Dona Flora. Te garanto que vai valer o esforço e lembre-se que é preciso andar. Seu médico mesmo falou! Quem fica parado é poste!

Dona Flora acaba de fazer 70 anos e como presente, seu filho deu a ela uma viagem para Inhotim.

Carlos, seu filho mais velho, é arquiteto e sabe bem o efeito que faz a Arte na vida das pessoas. Disse estar percebendo um certo desânimo na vida da mãe que ficou viúva recentemente. Quando soube que eu estaria por lá, pediu que a acompanhasse no passeio já que ele só poderia chegar um dia depois.

O Instituto Inhotim é um museu a céu aberto que ocupa uma área de 140 hectares. Fica na cidade de Brumadinho em Minas Gerais. A 60km de Belo Horizonte, o parque recebe inúmeros visitantes amantes das Artes e da natureza.

Tentar descrever Inhotim em palavras é um grande desafio já que este lugar supera qualquer sinônimo da maravilha existente ali.

O museu possui um enorme acervo de arte contemporânea expostas em galerias e ao céu aberto. O visitante é convidado a percorrer seus espaços e a tomar parte de uma natureza exuberante e muitíssimo bem cuidada. As galerias, todas elas, foram projetadas por arquitetos que fizeram de seu projeto arquitetônico uma maravilhosa moldura para a arte ali exposta.

Inhotim é um convite a quem gosta de arte, arquitetura e botânica e o filho de Dona Flora sabia disso.

Uma experiência indescritível e que todos deveriam experimentar. Inclusive os idosos.

Fiz questão de iniciar nosso passeio na direção da obra “Homem Tartaruga”, do artista Gui Tuo Bei, chinês que vive em Nova York.

Neste trabalho vemos um homem com um casco de tartaruga carregando um totem com escritos em chinês. A tartaruga que representa a longevidade e resistência é um símbolo forte e muito usado em lugares sagrados.

inhotim-tambem-para-os-velhos-a-arte-contemporanea-e-a-velhiceO texto escrito na pedra conta a história de um velho que, apesar da idade avançada, com a ajuda de seus descendentes consegue mover as montanhas que bloqueavam o caminho de casa.

A face do artista é esculpida na tartaruga e a obra revela que através da determinação e esforço é possível realizar qualquer objetivo.

Gui Tuo Bei também nos conta do esforço de seu povo para manter as tradições.

Dona Flora olha a escultura com atenção e através dela pudemos conversar sobre os momentos da vida que nossas forças desafiaram os obstáculos impostos.

A arte é sempre um ótimo fio condutor de boas conversas. E foi assim com Flora.

Continuamos andando pelos jardins com a segurança de quem sabe que, ali na frente, haverá outro deslumbre para ser admirado.

Os caminhos são lindamente desenhados por pedras que nos chamavam a atenção pela irregularidade da forma.

Visitar Inhotim, sim, exige forças. Energia para caminhar, mas mais do que isso, é preciso disposição de pensamento. Inúmeros velhos vivem bem-dispostos, procurando algo que estimule seu viver. Lá se anda muito mas para quem precisa de uma pausa, bancos de madeira artisticamente tratados, são um convite ao descanso e estão em todos os lugares.

Era assim que Dona Flora descansava as pernas e apreciava o paisagismo ricamente composto por inúmeras espécies de plantas.

Algumas galerias ficam bem afastadas da entrada do museu mas sabíamos que idosos com problemas de locomoção e seu acompanhante poderiam fazer uso dos carrinhos elétricos gratuitamente. Bastava avisar assim que chegassem.

Mas não era o caso de Flora que ia à passos lentos, porém certeiros rumo ao que há de melhor em arte contemporânea.

Claro que no dia seguinte, seu filho a acompanharia às galerias mais afastadas fazendo uso do transporte.

inhotim-tambem-para-os-velhos-a-arte-contemporanea-e-a-velhiceAo meu lado, Dona Flora se aventurou pelas redondezas do início do parque.

Encantadas com tudo que víamos, estávamos dispostas a “mergulhar” nas instalações que pedem ao expectador uma entrega que, talvez por estar ao meu lado, Flora acatou de prontidão.

Chegamos na Galeria do Cildo Meireles. Artista brasileiro, nascido em 1948 no Rio de Janeiro. Cildo trabalha com as sensações que a obra transmite ao público.

As experiências sensoriais que suas obras nos trazem ora perturbam, ora nos fazem pensar. Jamais saímos ilesos a elas.

Em sua obra, “Desvio para o Vermelho” somos convidados a entrar sem sapatos em uma sala mobiliada em tons de vermelho fazendo com que a saturação da cor nos cause diferentes sensações. Vermelho de sangue, vermelho de paixão, de alerta, de perigo, enfim, tudo ali sentido por nós, através da cor, durante o percurso na galeria. Após percorrer a sala vermelha, entramos em um espaço escuro com uma tinta vermelha escorrida pelo chão. E quanto mais entramos mais escuro fica, até que nossos olhos encontram uma luz que ilumina uma pia com a torneira aberta. Ao chegar perto, tudo a nossa volta é breu. Apenas a pia é iluminada. Um líquido vermelho escorre pela torneira causando uma estranha sensação.

– Parece sangue, disse Dona Flora

– Sangue é vida, retruco eu.

Sem dúvida, sangue é vida. É ele que percorre nossas veias numa correnteza vital e contínua.

inhotim-tambem-para-os-velhos-a-arte-contemporanea-e-a-velhiceTalvez seja esse o incômodo que sentimos na sala vermelha proposta pelo artista. O incômodo do viver, pintado na cor do sangue em sofás, cadeiras, almofadas, geladeiras e no olhar de Flora e no meu.

Mas Cildo Meireles é provocador. Saímos do Desvio do Vermelho e visitamos a instalação “Através”.

Nela o artista faz uso de diversos materiais cotidianos usados para criar barreiras. Cortinas de chuveiro, grades de prisão entre outros são dispostos em formato de labirinto e montados em cima de um chão com vidros estilhaçados oferecendo diferentes transparências aos olhos. Um aquário de vidro delimita o espaço dos peixes e ao percorrer o labirinto vamos ultrapassando barreiras.

Mais uma vez a arte e a vida se assemelham e Dona Flora gostou da proposta. Cada grade, cada cerca, arame farpado e cortinas em forma de obstáculos estavam ali como empecilho no caminho. Mas o caminho estava lá para ser percorrido. Genialmente pensado pelo artista, a vida estava ali na arte de Cildo Meireles pedindo para ser superada. E a cada obstáculo deixado para trás, fortalecia os passos de Flora por entre os estilhaços de vidro.

Saímos da instalação e através dos nossos olhares nos entendíamos. A Arte era nossa cúmplice.

Foi preciso um café para recuperar o fôlego.

inhotim-tambem-para-os-velhos-a-arte-contemporanea-e-a-velhiceA Arte remexe e na sua sutileza mostra caminhos.

Inhotim é propício para despertar a consciência. Buscar respostas. Rejuvenescer o olhar com o frescor que a vida requer.

Aos idosos que assim como Dona Flora precisam desbloquear o viver, este é o destino. Talvez seja uma solução para reconstruir os caminhos árduos que o envelhecer possa nos levar a trilhar.

É a arte contemporânea dialogando com a vida e com a sabedoria dos velhos.

E assim como Dona Flora que precisava buscar um novo rumo para sua vida, que outros idosos possam fazer o mesmo. Inhotim é deslumbrante! Um convite para, devagar, passo por passo, divagar, no sentar dos bancos, no respirar profundo, que a arte possa revitalizar a velhice e a vida.

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Saiba mais

Inhotim possui 23 pavilhões com exposições de arte contemporânea, 22 obras externas e uma área de visitação com 140 hectares que reúne milhares de espécies botânicas. Maiores informações Acesse Aqui

* Cristiane T. Pomeranz é arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte e mestranda em Gerontologia Social PUC-SP. Email: crispomeranz@gmail.com

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