Incontinência urinária: um desconforto comum no cotidiano da velhice

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A incontinência urinária é um problema de saúde pública, mas apenas 59% das pessoas afetadas do sexo feminino procuram ajuda médica ou tratamento. Isso ocorre devido à vergonha que sentem em relatar a perda urinária ou até em alguns casos essa perda nem ser percebida como um distúrbio. No Brasil, cerca de dez milhões de pessoas, ou 5% da população do país, sofrem de incontinência urinária.

Maria Amélia Ximenes (*)


O Brasil é um país que caminha para o envelhecimento de sua população. O número de brasileiros acima de 65 anos deve praticamente quadruplicar até 2060, confirmando a tendência de envelhecimento acelerado da população já apontada por demógrafos. A expectativa de vida hoje, para o homem, em média é de 71,5 anos, enquanto para a mulher é de 78,5 anos. Os dados confirmam que as mulheres continuarão vivendo mais do que os homens. Em 2020, segundo projeções do IBGE, teremos 4 milhões de idosos com mais de 80 anos. Destes 4 milhões de idosos com mais de 80 anos, 2,5 milhões serão mulheres (IBGE, 2010).

A chamada feminização da velhice tem preocupado a comunidade científica que chama atenção principalmente para os aspectos médico-sociais por envolver a qualidade desse envelhecer afetando diretamente o cotidiano dessas idosas. Dentre estes aspectos está a incontinência urinária.

Segundo explicações médicas, a incontinência urinária é a perda involuntária da urina pela uretra. É um distúrbio que pode manifestar-se tanto na quinta ou sexta década de vida. Isso acontece pelo fato de a mulher apresentar, além da uretra, duas falhas naturais no assoalho pélvico: o hiato vaginal e o hiato retal. Isso faz com que as estruturas musculares que sustentam os órgãos pélvicos e produzem a contração da uretra para evitar a perda urinária e, o músculo que forma um pequeno anel em volta da uretra, sejam mais frágeis nas mulheres. Daí esse distúrbio ser mais comum nas mulheres, no entanto ele também atinge os homens e as pessoas idosas.

Os fatores que levam à incontinência urinária do idoso são: o uso de diuréticos, ingestão hídrica, situações de demência e delírio, problemas de locomoção. Às vezes, a perda de urina nessa faixa de idade é mais um problema social do que físico.

A perda urinária pode ocorrer de forma transitória, geralmente associada ao uso de fármacos, a infecções urinárias, a constipação ou problemas de deficiência hormonal, desaparecendo após o tratamento da causa subjacente ou ainda pode ocorrer de forma persistente ou definitiva com instalação e piora progressiva.Existem três tipos ou apresentações clínicas:ade esforço (quando há perda de urina ao tossir, rir, fazer exercícios, etc.) de urgência (quando há súbita vontade de urinar e a pessoa não consegue chegar a tempo ao banheiro) e a mista que é a associação dos dois tipos anteriores.

Alguns especialistas apresentam um quarto tipo: a incontinência urinária por transbordamento que ocorre quando a bexiga não é esvaziada por longos períodos. Isso pode acontecer quando existe diminuição da sensibilidade ou da contratilidade vesical ou, ainda, quando existe uma obstrução uretral crônica. A principal causa de incontinência por transbordamento está associada ao aumento prostático (hiperplasia prostática benigna), com consequente obstrução uretral. Por essa razão, esse tipo de incontinência é mais comum no homem.

A Sociedade Internacional de Continência considera a incontinência urinária como uma condição clínica que afeta dramaticamente a qualidade de vida, comprometendo o bem estar físico, emocional, psicológico e social dos portadores.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) relata que a incontinência urinária afeta mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo e é considerado um problema de saúde pública, mas apenas 59% dos pacientes do sexo feminino procuram ajuda médica ou tratamento. Isso ocorre, principalmente, devido à vergonha que sentem em relatar a perda urinária ou até em alguns casos essa perda nem ser percebida como um distúrbio.

Os dados da OMS ainda mostram que, duas em cada dez mulheres sofrem dessa enfermidade no período da menopausa, podendo inclusive provocar a diminuição do apetite sexual devido à baixa autoestima que este problema acarreta. Explica que muito embora as mulheres em todas as idades e os homens com mais de 60 anos estejam mais sujeitos à perda de urina, este sintoma pode aparecer em qualquer fase da vida do ser humano, independente de classe socioeconômica ou nível cultural. Quando isso acontece a vida social destas pessoas fica prejudicada, levando-os ao isolamento. No Brasil, cerca de dez milhões de pessoas, ou 5% da população do país, sofrem de incontinência urinária.

Barros et al. (2007) explicam que somente um quarto das mulheres com perda urinária procuram auxilio médico, mesmo com os sintomas incômodos deste problema, adotando um comportamento introspectivo para impedir os episódios de perda de urina.

A busca pelo tratamento pode ser também influenciada por crenças e valores que estas mulheres possuem acerca do que é ser incontinente. Além dos fatores culturais e familiares ou ainda pelo constrangimento aliado ao desconhecimento de possibilidade terapêutica (BORDA, et al, 2008).

É consenso entre os autores que mulheres com incontinência urinária assinalam limitações em níveis físicos (praticar esportes, carregar objetos), alterações nas atividades sociais (medo de frequentar lugares públicos, viajar, dormir fora de casa, fazer visitas aos amigos), atividades ocupacionais e domésticas, influências emocionais e na vida sexual, além de atrapalhar o sono. Nos relatos observa-se, também, desconforto social e higiênico pelo medo da perda e odor urinário, necessidade de utilização de protetores (absorventes, fraldas ou forros) e de trocas mais frequentes de roupas.

Segundo especialistas o tratamento pode ser a terapia comportamental e reabilitação da musculatura pélvica, medicamentoso ou cirúrgico. A terapia comportamental e reabilitação da musculatura pélvica ou reabilitação uroginecológica consistem em orientações sobre o funcionamento da bexiga e da musculatura pélvica, mudanças comportamentais do hábito urinário e exercícios passivos e/ou ativos para a musculatura do assoalho pélvico. Esses exercícios visam fortalecer o esfíncter uretral para diminuir as perdas. Alguns exercícios são ensinados com auxílio de um aparelho de “biofeedback” ou realizados com auxílio de eletroestimulação ou estimulação por campo magnético.

Além dos exercícios, ter hábitos saudáveis auxiliam na prevenção: evitar o sedentarismo e a obesidade; controlar o ganho de peso nas gestações; praticar exercícios para fortalecer o assoalho pélvico; tratar a constipação (prisão de ventre); não fumar para diminuir a tosse e a irritação da bexiga.

A perda da continência é considerada um problema de saúde pública, gerando gastos desnecessários ao governo e muitas vezes levando a institucionalização precoce da pessoa idosa. Procurar um médico para diagnóstico e identificação da causa e do tipo de perda urinária é imprescindível para uma vida com qualidade e dignidade.

Referências

BARROS, J.D.; LUCENA, A.C.T.; ANSELMO, C.W.S.F. Stress urinary incontinence among female athletes: a literature review. Anais X Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco; Recife, Brasil. 2007; 52(2):173-80.

BORBA, A.M.C.; LELIS, M.A.S.; BRÊTAS, A.C.P. Significado de ter incontinência urinária e ser incontinente na visão das mulheres. Rev Texto Contexto Enferm. 2008; 17(3):527-35.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Disponível Aqui. Acesso em: 01/09/2014.

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(*)Maria Amélia Ximenes – Graduada em Terapia Ocupacional (UNIFOR/CE) tem Especialização em Psicologia da Saúde (UNESP/Bauru) e em Saúde do Trabalho e Ecologia Humana (FIOCRUZ), Mestrado em Gerontologia Social e Doutorado em Ciências Sociais (Antropologia) pela PUC/SP. É Professora Adjunta da Universidade do Sagrado Coração (USC/Bauru), Curso de Terapia Ocupacional e Departamento de Ciências da Saúde. É membro da Rede de Colaboradores do Portal do Envelhecimento. Email: mameliaximenes@yahoo.com.br.

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