A importância dos Cuidados Paliativos até a finitude

Devido ao desenvolvimento da tecnologia médica, dos diagnósticos e tratamentos, a vida tem sido prolongada e, às vezes, sem a proporcional garantia de qualidade. Como também há aumento de expectativa de vida da população, que é acompanhada, frequentemente, por patologias crônicas-degenerativas. Daí a importância dos cuidados paliativos.

Por Selma Lúcia da Silva Cabral (*)

 

Os cuidados paliativos estão em desenvolvimento no nosso país e no mundo, fornecendo resposta humanizada e interdisciplinar aos doentes e famílias, tanto nas unidade de internamento, como pela ação das equipes intra-hospitalares e de apoio domiciliário. Assumindo cada vez mais importância no contexto da saúde, face ao crescente aumento de doenças crônicas, incapacitantes e oncológicas, predominante na sociedade atual, consequência direta do aumento da esperança de vida e envelhecimento populacional. A prestação dos cuidados paliativos visa oferecer a máxima qualidade de vida possível de acordo com as preferências e necessidades do indivíduo com a doença avançada.

Ás últimas décadas foram marcadas, na área da saúde, por um avanço técnico-científico com diminuição da mortalidade por doenças infecciosas e no aumento da esperança média de vida. Os Cuidados Paliativos inserem-se numa etapa da vida onde a reflexão do cuidar, as relações humanas e o trabalho, pluridisciplinar, têm um papel crucial. Para alcançar um estado de bem-estar, o doente deve ter a percepção que as suas necessidades são satisfeitas.

A definição de Cuidados Paliativos da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1990, faz referência à necessidade de oferecer a máxima qualidade de vida possível ao indivíduo com doença avançada, incurável e progressiva e aos seus familiares no processo de confronto ou vivência do fim de vida, por identificação precoce, prevenção e alívio do sofrimento, avaliação e tratamento adequados da dor, assim como os outros problemas físicos, psicossociais e espirituais. Gobbens e colaboradores, citado por Lana e Schneider (2014), assinalam que “O conceito em saúde é muito mais complexo, e mesmo a ideia de fragilidade que contempla apenas a fragilidade física, ou diminuição de reservas e capacidade de conservação e recuperação, não basta, já que deixa de levar em conta os fatores sociais e psicológicos, inerentes à saúde, qualidade de vida, e consequentemente, à fragilização do idoso”.

Na contramão dessa perspectiva, a abordagem de cuidados paliativos, que dá assistência a pacientes acometidos de doenças sem possibilidade de cura, tem como proposta auxiliar essas pessoas e seus familiares no cuidado dos desdobramentos surgidos quando do adoecimento. Nesse momento, imbrica a dor física, a dor social, a dor psíquica, impondo ao sujeito uma nova forma de criar sua existência diante daquilo que é inexorável. A equipe profissional em cuidados paliativos assume a conduta de não eliminar a morte da vida, encarando-a de frente, não recuando desse encontro, falando sobre a vida, os fantasma da morte e a vida que há na morte.

Reconhece-se que, devido ao desenvolvimento da tecnologia médica, dos diagnósticos e tratamentos, a vida tem sido prolongada e, às vezes, sem a proporcional garantia de qualidade. Como também há aumento de expectativa de vida da população, que é acompanhada, por vezes, por patologias crônicas-degenerativas.

As doenças que ameaçam a vida, como o câncer, são geradores de estresse para os pacientes e as famílias, mesmo quando o tratamento tem sucesso.

Um dos aspectos defendidos nos cuidados paliativos é o apoio que deve ser oferecido à família do paciente. Fitch (2006) comenta a infinidade de emoções vivenciadas pelo paciente e sua família ante a morte. Todos sentirão algum grau de impacto da doença e, consequentemente, perturbações emocionais, e muitas mudanças, e estas são mais do que físicas, são também sociais, psicológicas e espirituais.

A doença quando surge, não afeta uma pessoa nem uma família de igual forma. Cada ser humano tem uma realidade interna formada pelo que se poderia chamar de sedimentação de experiências, isto é, uma realidade interna intimamente ligada a um processo em que se misturam sentimentos, afetos, relações e recordações resultantes do intercâmbio entre o meio e o sujeito. Na fase final pode provocar nos familiares uma série de reações emocionais, comportamentais, relacionais, etc. Nesse sentido, a tarefa da equipe é estabelecer uma relação de ajuda que permita aos familiares passarem por este processo sentindo que são acompanhados.

Os esforços tem que proporcionar os cuidados necessários à pessoa doente, os profissionais de cuidados paliativos devem direcionar os esforços aos familiares e/ ou pessoas relacionadas, com o objetivo de reforçar as suas capacidades e potencialidades, possibilitando assim que a família recupere a confiança tantas vezes perdida. Esta confiança refere-se à tomada de consciência das suas próprias capacidades (doente/família) que irão permitir transitar por este período de vida tão sobrecarregado de experiências agudas e assim para chegar à etapa da morte da melhor maneira possível (Hudson, 2006).

Quando analisamos situações de pré-morte e pré-luto, tanto na pessoa doente como na família, é, em si mesmo, um elemento preventivo de grande riqueza para a equipe. Talvez a família, mesmo ainda com expectativas de cura em relação à pessoa doente, não se encontre capacitada para lidar com esta situação ou, mesmo estando consciente do que está a acontecer.

“A comunidade médica e de paramédicos têm dificuldade em lidar com o processo de morrer. Muitas vezes queremos tirar desse indivíduo o direito de morrer de maneira que ele quer, junto com sua família e com seus amigos, inclusive com a possibilidade de fazer uma reflexão sobre a finitude e encerramento da sua vida com todo ritual que se faz necessário nesse momento, mas que a medicina tecnológica e institucional insiste em tirar ou negar ao paciente que está morrendo.

Esse era um quadro muito comum antigamente, quando a expectativa de vida da humanidade não ultrapassava 40 anos e o processo de morrer estava muito presente no meio da sociedade, mas com a evolução da ciência, a longevidade humana também cresceu, fazendo com que o processo de morrer ficasse oculto dentro dos hospitais.

Trabalhando com idosos pude perceber mais que teria que saber lidar com a morte, aquela que não fazia parte da minha vida. Confesso que não tive uma experiência normal de lidar com ela, sofri muito até que aprendi que faz parte do ciclo da vida. Cada reflexão me fazia compreender que a morte faz parte do desenvolvimento humano, pois “todo ser vivo nasce, cresce, desenvolve-se e morre”.

O respeito ao ser no fim da vida é uma meta a ser atingida, exigindo formação adequada dos profissionais envolvidos no atendimento. A ampliação dos horizontes através do estudo trouxe-me conforto e maior serenidade para lidar com a morte. Ainda restam muitos horizontes a ampliar por meio do estudo, da prática e da vivência.

“A finitude é o destino de tudo”, como já dizia José Saramago.

Referências

ANCP. Academia Nacional de Cuidados Paliativos (2006). Organização de serviços de cuidados paliativos

CARVALHO, RICARDO T. PARSONS, Henrique A. (Orgs). Manual de Cuidados Paliativos. Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), São Paulo. 2012

FITCH, M. Necessidades emocionais de pacientes e cuidadores em cuidados paliativos. In: PIMENTA, C. A. M.; MOTA, D. D. C. F.; CRUZ, D. A. L. M. (Org.). Dor e cuidados paliativos: enfermagem, medicina e psicologia. São Paulo: Manole, 2006. p. 67-85.

HUDSON, Peter. How well do family caregivers cope after caring for a relative with advanced disease and how can health professionals enhance their support?.
J Palliat Care Med, v. 9, n. 3, p. 694-703, 2006

LANA, L. D., SCHNEIDER, R. H. Síndrome de Fragilidade no Idoso: uma revisão narrativa. Rev. Bras. Geiatr. Gerontol., Rio de Janeiro, 2014; v. 17 n. 3, p. 673-680. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/rbgg/v17n3/1809-9823-rbgg-17-03-00673.pdf>

 

(*) Selma Lucia Silva Cabral. Formação em Educação Física. Pós graduada em Psicopedagogia. Extensão no curso Fragilidade na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento PUC – SP. Leciona Educação Física para crianças e adolescentes. Larga experiência com atividade física para idosos. E-mail: diselmel@superig.com.br

 

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