Imediatamente velha

Com a imagem do futuro em mente, procuro adormecer para sonhar com a velha que serei. O amanhecer trará um novo dia para viver e envelhecer. A velhice é hoje.


Nos últimos dias as redes sociais tem sido inundadas com fotos das pessoas envelhecidas e eu tenho refletido sobre os avanços tecnológicos que nos permitem olhar para o futuro e desmistificar o avanço da idade.

Com sorte, velho seremos e não duvide do poder do tempo, muito mais poderoso que aplicações de botox e cirurgias plásticas. Se não quiser ser um velho plastificado, não exagere e envelheça com naturalidade. Não há mal nenhum nisso.

De repente, ficar velho virou uma brincadeira e a diversão em ver os amigos envelhecidos, de um dia para o outro, causa a sensação de que o futuro é agora.

Obviamente não resisti a tentação e eu e minha prima ficamos trocando nossas fotos de futuras velhas pelo WhatsApp e concluímos o que já sabíamos: a genética é poderosa. Ela ficou a cara da nossa avó preocupada e eu fiquei a cara da avó briguenta. O que isso quer dizer? Melhor não pensar no pior pois nós duas temos nos esforçado para deixar de lado algumas características, não tão positivas dos nossos antepassados para focar no tanto que deixaram de saudades.

Confesso que em alguns momentos o tal aplicativo foi, digamos assim, firme e forte comigo. Creio ter sido levada para meus 90 e poucos anos e eu que trabalho com velhices e muito penso sobre o assunto, confesso que fiquei chocada com a transformação ocorrida. Até o olhar se tornou mais opaco.

Precisava tanto? Não podia ter deixado a catarata de lado?

Chego a conclusão que a velhice precisa ser respeitada como uma construção feita ao longo do percurso da vida, caso contrário será uma mudança brusca e não harmoniosa, como espero que seja.

Impossível dar conta de dormir com 54 e no dia seguinte se ver com 90 sem causar alguma reação de espanto. Como desenvolver a sabedoria que nos assegura o belo muito além da beleza física de um dia para o outro? Impossível.

Como olhar para nossa imagem sem achar graça nas mudanças se não tivermos o tempo necessário para aprender a audácia da compreensão?
Minha mãe desenvolveu ao longo dos seus quase 80 anos um humor invejável.

Ao ver as fotos dos seus filhos tão velhos ela manifestou alegria por nos ver assim velhinhos. Agradeceu ao aplicativo por isso.

Tenho me divertido muito com ela que durante a velhice se tornou bastante irônica. Diz não estar enrugada e sim plissada, o que, segundo ela, soa melhor. E assim ela se diverte e envelhece.

Existe algum aplicativo com uma função qualquer capaz de nos mostrar, além de velhos, experientes, sábios e debochados?

Por que não pude olhar para minha foto e dizer que estava bastante plissadinha, como diz minha mãe? Espero chegar lá um dia, ou até quem sabe, supera-la ao me tornar ainda mais sarcástica.

Conto com a ajuda do tempo, implacável e certeiro. Quem sabe a genética, desta vez, não favoreça permitindo que eu seja uma velha cuja beleza se intensificará no plissado, nos cabelos brancos e na inteligência capaz de apontar soluções bem humoradas para o longeviver?

Sem dúvida, ela é o modelo de velha que quero ser.

O amanhã? Ninguém sabe.

Privacidade? Já era. O aplicativo tem seus riscos. A velhice também.
Velhice compartilhada?

Basta um clic.

Com a imagem do futuro em mente, procuro adormecer para sonhar com a velha que serei. O amanhecer trará um novo dia para viver e envelhecer. A velhice é hoje.


Inscrições: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/violencia/

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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