Idosos solitários

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Neste cenário que estamos vivendo, o ideal seria que desenvolvêssemos a solitude. Solitude é o estado de privacidade de uma pessoa, não significando, propriamente, estado de solidão. Pode representar o isolamento e a reclusão, voluntários ou impostos, porém não diretamente associados a sofrimento. Quem encontra a solitude, não sente receio de estar sozinho, no prazer de sua própria companhia.


Em meio a pandemia do Coronavírus muitos sentimentos estão emergindo neste momento, mas existe um que, ao meu ver, precisa de uma atenção especial, que é o sentimento de solidão. Em tempos normais, a solidão é o medo mais preponderante na faixa etária acima dos 60 anos, de acordo com uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia em parceria com a Bayer, seguido pela preocupação com a incapacidade de enxergar ou se locomover e o desenvolvimento de doenças graves em terceiro lugar.

Seguindo este raciocínio, podemos pensar que neste momento muitos idosos estão justamente vivenciando o seu maior medo. E será que estão tendo recursos internos para enfrentar essa situação?

A solidão é um estado de quem se sente só, provocado por um sentimento de vazio interior, que na maioria das vezes é proveniente da falta de interação, de diálogo e de convívio com outras pessoas, ou seja, sentimento propício para emergir neste momento que estamos vivenciando.

Independente da causa, se pelo coronavírus ou não, é fato que a solidão afeta, e muito, o bem-estar, a autoestima e a rotina de quem sofre com ela. Os sentimentos de vazio e tristeza são comuns a pessoas que se sentem solitárias e, com eles, dificilmente há motivação para reverter o caso. A solidão, apesar de ser universal, é complexa e única a cada indivíduo.

A solidão se torna mais grave quando está atrelada ao sentimento de desamparo. O desamparo desperta a sensação de não proteção e abandono, a pessoa passa a ficar desorientada porque sente que não tem um ponto de referência e um apoio em sua vida.

A solidão é uma condição que se conecta fortemente com a depressão podendo ser uma de suas consequências, sendo que o contrário também é verdadeiro, a depressão também é uma das possíveis causas do sentimento de solidão, já que ela pode levar a pessoa a um estado de isolamento, ainda maior que este momento exige, sensação de desesperança e a ideia de que a vida não vale a pena.

Para muitos idosos estar só não é problema, pois veem o tempo que se está sozinho como um momento de dedicação pessoal, ou seja, um período no qual se pode fazer coisas de que gosta, que lhe trazem bem-estar. Mas isto normalmente acontece quando o idoso tem certeza da força dos seus vínculos sociais. Apoio e presença de familiares e amigos, mesmo que virtualmente, são um forte fator de proteção contra o sentimento de solidão. Uma vez que o idoso se percebe amparado e bem atendido, ele sente mais confiança em estar sozinho.

Neste cenário que estamos vivendo, o ideal seria que desenvolvêssemos a solitude. Solitude é o estado de privacidade de uma pessoa, não significando, propriamente, estado de solidão. Pode representar o isolamento e a reclusão, voluntários ou impostos, porém não diretamente associados a sofrimento. Quem encontra a solitude, não sente receio de estar sozinho, no prazer de sua própria companhia.

É nesse momento que podemos desenvolver o autoconhecimento, de nos encontrar ao invés de tentar fugir e de nos aceitarmos como realmente somos, independentemente da aprovação do outro. Todos os dias, procure marcar um encontro com você mesmo. Ter um tempo sozinho é essencial para seu desenvolvimento. É um momento onde conseguimos ouvir pensamentos que se escondem quando estamos com muitas pessoas ao nosso redor.

Dicas para vencer a solidão e manter a saúde mental em tempos de coronavírus:
– Manter uma rotina diária, pois ela é estruturante para o nosso psiquismo;
– Ler um livro (muitas editoras estão disponibilizando versões em ebook);
– Assistir um bom filme;
– Escutar música e por que não dançar junto;
– Escrever sobre os sentimentos da quarentena;
– Realizar atividade física dentro de casa (tem muitos vídeos disponibilizados de exercícios);
– Acessar informação de forma ponderada;
– Se familiarizar e utilizar a tecnologia para se aproximar das pessoas através de ligações ou vídeo chamadas;
– Se dedicar a alguma atividade que goste (artesanato, culinária, jardinagem, etc);
– Praticar meditação, sua prática melhora os sintomas de ansiedade, diminui o estresse, melhorando inclusive o seu sistema imunológico (tem vídeos na internet de meditação guiada, para quem ainda não é praticante);
– Manter-se intelectualmente ativo pois estudos evidenciam que a solidão está ligada a piora das funções cognitivas;
– E por fim cultivar pensamentos positivos, pois os pensamentos pessimistas são os maiores responsáveis pelo nosso adoecimento psíquico.

Este período complicado vai passar, seguiremos nossas vidas, porém cada um precisa fazer a sua parte, que é se cuidar. A prevenção segue sendo o melhor remédio.

A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho.” (Tillich)

Foto destaque: weedlyr


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Lidiane Andreza Klein

Lidiane Andreza Klein

Psicóloga, Especialização em Neuropsicologia (UFRGS), Mestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA) e Doutoranda em Ciências da Reabilitação (UFCSPA). Blog: https://www.lidianekleinpsicologa.com/blog. E-mail: lidiklein@msn.com

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