Idosos sofrem golpes até mesmo dos próprios parentes

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Bahia – O homem que roubou R$ 24 mil da poupança e a dentadura da aposentada Maria José de Oliveira Mendonça, 75, levou também a sua confiança nas pessoas. Durante um mês, ela abrigou em sua casa um senhor, que acolheu como uma espécie de cuidador. Mas foi dopada, teve roubado os cartões do banco e senhas. Os saques foram diários.

Mariana Rios *

 

A idosa passou dias sonolenta e esquecida, e quando deu por si, não tinha mais as economias. “É triste, posso até repetir a caridade, mas não acredito que ninguém mais mereça”, resume a lição.

A rotina da aposentada agora se divide entre delegacia e banco na busca para reaver o dinheiro e tentar identificar o criminoso. A história de Maria reúne atitudes arriscadas que colocam o idoso no alvo da ação de criminosos. A diferença é que a aposentada foi vítima de um estranho e, na maioria das vezes, os golpistas são da própria família – segundo a Delegacia Especial de Atendimento ao Idoso (Deati).

Drogas

O promotor do Grupode Atuação Especial em Defesa dos Direitos dos Idosos, César Correia, afirma que os casos mais comuns que chegam ao Ministério Público são de apropriação da aposentadoria pelos próprios familiares. “É crime quando o idoso passa a sofrer constrangimento, físico ou moral, para entregar o vencimento, em detrimento da própria pessoa”, explicou.

Na Deati, a situação corresponde à metade das ocorrências – ao todo foram registradas 761 no primeiro semestre deste ano. “Normalmente são netos, que utilizam o benefício inclusive para compra de drogas. O idoso deve deixar o medo de lado e denunciar”, afirmou a delegada Márcia Telma Bittencourt Chaves.

Quando procuram a Associação dos Pensionistas e Aposentados da Previdência Social da Bahia, em geral desconfiam do golpe dentro de casa, mas preferem não denunciar. “As pessoas envelhecem com suas crenças acostumadas ao passado e acabam lesadas. Muitas vezes, o aposentado acaba descobrindo que foi o neto, o filho e deixa para lá”, reforçou o presidente Gilson Costa de Oliveira.

Recomendação

Dona Maria teve a recomendação do advogado que a atendia. No escritório de advocacia, que acompanha uma ação para receber a pensão do viúvo, conheceu o homem de prenome Sandro. “Ela ia na padaria, mercado, fazia essas coisas”.

Os brancos na memória começaram a ficar constantes e Maria não tinha mais disposição. Os cartões e documentos sumiam e depois apareciam em locais onde não costumava guardá-los. Depois do São João, Maria foi ao banco, e surpresa: não tinha mais a aposentadoria, nem a poupança. Aí, procurou a família.

Aos poucos, ela revelou ao neto que chegou a ser acompanhada ao banco para fazer um empréstimo. “A gente não sabe direito o que acontece. Eu mesmo não sabia que ela tinha esse valor. Até camarão o sujeito comprava”, disse Cícero.

Os saques começaram no dia 8 de junho. Em um deles, foi retirado R$16 mil de uma vez. A titular da Deati, Márcia Telma Bittencourt Chaves, garantiu que o advogado será chamado. “Era a pessoa em quem ela tinha confiança”.

Os riscos de estar só

Em busca da independência, aposentados preferem manter a mesma rotina, indo a bancos e morando sozinhos. Dona Maria, viúva há três anos, por exemplo, mora só em um sobrado no bairro de Santo Antonio Além do Carmo.

Para o neto, a independência quase lhe custa à vida. “Podia ter encontrado minha avô morta em casa. A família tenta dar amparo, mas fica difícil quando o idoso é teimoso, não aceita nossa forma de tentar ajudar. Fomos na casa dela e não nos recebia. Não obedece, não adianta. Já pedimos várias vezes para que venha morar conosco”, desabafa o neto, o técnico em informática Cícero Rogério de Mendonça, 33.

A aposentada reconhece o esforço da família para mantê-la por perto. “Mas, sabe como é, gosto da minha cama, do meu quarto, quero continuar tendo minha vida”. Caso a família perceba que o idoso não tem discernimento para gerir bens pode solicitar avaliação psicológica nos Centros de Apoio Psicossocial (Caps).

Crimes mais freqüentes

Exercício arbitrário das suas próprias razões Reter o cartão de conta bancária relativa a benefícios ou pensão do idoso ou reter qualquer documento para assegurar pagamento de dívidas. Punição para quem comete este crime: detenção de seis meses a dois anos

Abuso de incapaz induzir pessoa idosa a outorgar procuração para que administrem seus bens. Punição: detenção de dois a quatro anos

Extorsão Coagir, obrigar, forçar o idoso a doar, contratar, testar ou outorgar procuração. Punição: reclusão de dois a cinco anos

Ameaça Causar medo ou prometer fazer algum mal ao idoso. Punição: um a seis meses de detenção, mais multa

Estelionato Induzir o idoso a erro, com o objetivo de obter vantagem ilícita para si ou outrem. Exemplo: empréstimos fraudulentos. Punição: reclusão de um a três anos, além de multa

Serviço

Delegacia do Idoso

Rua do Salete, 19, Barris.

Tel: 3117-6080

Ministério Público Estadual

Avenida Joana Angélica, 1.312, Nazaré.

Tel: 3103-6545

Defensoria Pública

Rua Pedro Lessa, 123, Canela.

Tel: 3117-6973

Associação dos Aposentados

Rua Mangueira, 55, Nazaré.

Tel: 3321-3846

Fonte: Correio – 17/07/2009. Disponível Aqui

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