Idosos, sexualidade e infecções sexualmente transmissíveis

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O aumento do número de casos de HIV e AIDS em idosos está relacionada a três motivos: invisibilidade da sexualidade, diagnóstico tardio da doença e fragilidade na solicitação da sorologia.

Em colaboração com Camila Satie Kawahara, Fernanda Morgan Gandolfi e Thayane Augusta Vilela (*)


A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA), também conhecida como AIDS (Acquired Immunodeficiency Syndrome), é uma doença que reativou no mundo a ideia de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Quando surgiu, na década de 1980, espalhou o medo, forjou mitos e estereótipos – muitos dos quais persistem até hoje – e foi, durante muitos anos, ligada à morte certa e às relações homoafetivas, gerando discriminação e preconceitos.

Com o maior tempo de evolução da epidemia de HIV por todo o mundo e, consequentemente, no Brasil, o vírus e a AIDS mudaram de estereótipo com o tempo: desde o reconhecimento da doença, nos anos 1980, nos Estados Unidos, onde foi inicialmente classificada como uma doença de homens que fazem sexo com homens e bissexuais masculinos, associada à promiscuidade, e também aos profissionais do sexo, para uma doença presente em heterossexuais, predominantemente em mulheres, atingindo atualmente a faixa etária de 50 anos e mais.

No Brasil, depois da maior infecção em homossexuais, a doença passou por uma heterossexualização, e se difundiu entre os usuários de drogas injetáveis. Em um terceiro momento, aumentou o número de mulheres infectadas e com isso uma maior transmissão do HIV de mãe para filho.

Estima-se que dois milhões de pessoas vivem com HIV/AIDS no mundo e destes, aproximadamente 50% são mulheres. No Brasil há um ‘desbalanço’, pois estima-se que para cada mulher com AIDS existam 1,7 homens com a doença (OKUNO et al, 2014). Como a doença completa quase 40 anos, é possível compreender uma das razões pelas quais o HIV vive uma mudança de faixa etária.

O aumento do número de pessoas de 60 anos e mais convivendo com o HIV pode estar relacionado a diversos fatores: admitidos como assexuados por grande parte da sociedade, inclusive nos dias atuais, os idosos têm sua sexualidade cercada de preconceitos e tabus, com grande parte da população, incluindo profissionais de saúde, desconhecendo que as pessoas idosas possam ter relações sexuais (QUEIROZ et. al. 2015).

Segundo alguns autores, os idosos de hoje fazem parte de uma geração que teve educação mais repressiva, não desenvolveram o hábito do uso da camisinha e, até hoje, grande parte deles desconhece os riscos de relações sexuais desprotegidas, mesmo quando estas ocorrem com parceiros fixos (OLIVEIRA et. al., 2013; ARDUINI e SANTOS, 2013).

Os meios de comunicação e os órgãos governamentais também contribuem, por omissão, para que esse segmento populacional permaneça com pouca informação sobre a AIDS, o que contribui para que não se considerem passíveis de contrair doenças relacionadas à prática sexual.

No final da década de 1990, surge o medicamento sildenafil, vasodilatador específico para tratamento das disfunções eréteis e que permite melhora da qualidade sexual. Tanto este fármaco quanto o desenvolvimento de cremes tópicos de estrógeno permitiram que a pessoa idosa, homem e mulher, respectivamente, tenham mais relações sexuais. Sem campanhas sobre o assunto, o tema AIDS continua sendo estigmatizado e cada vez mais aumenta o número de idosos infectados pelo vírus.

Além de compartilhar, muitas vezes, os mitos sobre o idoso assexuado, mesmo quando a pessoa idosa procura atendimento com queixas típicas da doença, a sorologia é tardiamente pedida. Assim, demora-se mais para realizar um diagnóstico que deve ser feito precocemente, aumentando as chances de transmissão. Os profissionais de saúde, na grande maioria dos casos, ainda associam o envelhecer com o surgimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), ignorando as demais enfermidades que podem acometer o segmento etário.

A AIDS acelera o processo de envelhecimento, tanto como consequência da própria doença quanto mediante sua terapêutica, levando a complicações clínicas, tais como doença cardiovascular, demência e osteoporose, e pode ser transmitida para o idoso não só por práticas sexuais, mas também pelo uso de drogas.

Deve-se destacar também que não há apenas transmissão na velhice, mas há a cada dia mais indivíduos soropositivos envelhecendo, graças à distribuição gratuita da Terapia Antirretroviral pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o Boletim epidemiológico sobre HIV e AIDS do Ministério da Saúde (2018), o número de casos que no ano de 2007 era de 7.290, aumentou para 17.248 casos em 2018. Segundo Alencar e Ciosak (2016), o aumento do número de casos de HIV e AIDS em idosos está relacionada a três motivos: invisibilidade da sexualidade, diagnóstico tardio da doença e fragilidade na solicitação da sorologia, como comentado.

Há também o fato de que as pessoas com 50 anos infectadas pela doença são consideradas idosas, padrão que foge da definição de idoso pelo Brasil e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo o Ministério da Saúde, essa foi a faixa etária infectada pelo HIV que mais cresceu de 1993 a 2003, com um aumento de 130% entre os homens e 396% entre as mulheres, enquanto as demais se mantiveram estáveis.

Mesmo com o número alarmante, o Ministério da Saúde afirma que é possível que a notificação esteja sendo feita em apenas 50% dos casos, o que, segundo Okuno, et.al. (2014), pode ser explicado pelo tempo de desenvolvimento da doença, que permanece silenciosa por anos, até ser sintomática e levar à busca por uma unidade de saúde, pois o estigma que cerca o soropositivo traz a preocupação com a discriminação contra o paciente. Em alguns casos a própria família pede que não ocorra a notificação.

Referências
ALENCAR, R.A.; CIOSAK, S.I. Aids em idosos: motivos que levam ao diagnóstico tardio. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 69, n. 6, p.1140-1146, 2016.  
ARDUINI, J.B.; SANTOS, Á.S. A Percepção do homem idoso sobre a sexualidade e AIDS. Rev. Enferm. Uerj, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, p.379-383, 2013.
BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. DEPARTAMENTO DE VIGILÂNCIA, PREVENÇÃO E CONTROLE DAS IST, DO HIV/AIDS E DAS HEPATITES VIRAIS. Boletim epidemiológico – HIV/Aids, Brasília, v. 49, n.53, 2018.
OKUNO, M.F.P. et. al. Qualidade de vida de pacientes idosos vivendo com HIV/AIDS. Cadernos de Saúde Pública, v. 30, n. 7, p.1551-1559, 2014.
OLIVEIRA, M.L.C.; PAZ, L.C.; MELO, G.F. Dez anos de epidemia do HIV-AIDS em maiores de 60 anos no Distrito Federal – Brasil. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 16, n. 1, p.30-39, 2013. 
QUEIROZ, M.A.C. et. al. Representações sociais da sexualidade entre idosos. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 68, n. 4, p.662-667, 2015.

(*) Camila Satie Kawahara – graduanda curso de medicina Universidade de Santo Amaro, UNISA. Fernanda Morgan Gandolfi – graduanda curso de medicina Universidade de Santo Amaro, UNISA. Thayane Augusta Vilela – graduanda curso de medicina Universidade de Santo Amaro, UNISA.

Leiam o texto na íntegra que compõe o DOSSIÊ – Sexualidade e pessoa idosa: mitos e desafios, na edição 9 da Revista Longeviver.

Foto destaque de Anna Shvets no Pexels


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Maria Elisa Gonzalez Manso

Maria Elisa Gonzalez Manso

Médica e bacharel em Direito, pós-graduada em Gestão de Negócios e Serviços de Saúde e em Docência em Saúde, Mestre em Gerontologia Social e Doutora em Ciências Sociais pela PUC SP. Orientadora docente da LEPE- Liga de Estudos do Processo de Envelhecimento e professora titular do Centro Universitários São Camilo. Pesquisadora do grupo CNPq-PUC SP Saúde, Cultura e Envelhecimento. Gestora de serviços de saúde, atua como consultora nas áreas de envelhecimento, promoção da saúde e prevenção de doenças, com várias publicações nestas áreas.

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