Idosos e rotinas bancárias – uma gota de reflexão

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Não há expectativa de que os bancos combatam os abusos de crédito por familiares de idosos, mas é possível que os trabalhadores protejam os idosos.

por Fábio Thomazetti (*)


Sentado à mesa de trabalho, a camisa já amarrotada, cabeça repleta de metas a serem batidas e pouco espaço no coração para ser desperdiçado com qualquer empatia, o trabalhador do banco convida uma simpática senhora a também sentar-se. Ela vem a passos lentos amparada por um homem de meia idade. Ambos se sentam, as mãos da senhora, trêmulas, solicitamente ofertam ao bancário um RG muito bem cuidado. Há nele a fotografia em preto e branco de uma jovem muito bonita, logo abaixo das palavras “Estados Unidos do Brasil”, o primeiro nome da República. Ela entrega o documento e prepara-se para dizer algo, mas o homem que a acompanha se antecipa:

“Ela quer fazer um empréstimo consignado”.

Neste momento encontram-se dois universos distintos: o de um trabalhador esmagado por um sistema bancário a cada dia mais sedento por lucros e mais indiferente às pessoas que engraxam suas engrenagens, e o de um idoso vivendo em casa a pressão de tomar, em seu nome, um crédito do qual certamente lhe restará apenas o ônus em sua renda.

Os interesses convergem. O crédito é concedido e todos saem aliviados.

Essa pequena narrativa descreve não um único evento, mas representa algumas milhares de vezes em que filhos, parentes e trabalhadores do sistema bancário se tornam agentes participativos de um enredo que quase sempre envolve uma triste e muito recorrente trajetória de abuso econômico contra pessoas idosas.

Com a edição da Medida Provisória 130, no ano de 2003, o Governo Federal autorizou o chamado Crédito Consignado para os aposentados e pensionistas do INSS. Uma modalidade de empréstimo que, por ter suas parcelas descontadas em folha de pagamento, incorre numa significativa redução dos riscos para a instituição financeira e, portanto, das taxas de juros cobradas de seus tomadores. Um ótimo negócio para as duas partes. Correto?

Poderia ser, mas o que observamos é que sempre que há a facilitação para a disponibilidade do crédito, outros fatores não financeiros entram na jogada. Além de uma tendência muito nociva à saúde financeira de se tomar empréstimos desnecessários em função de um desejo por consumo de bens nem sempre essenciais como celulares, eletrodomésticos, veículos, dentre muitos outros, existe também uma grande pressão – velada ou não – para que um familiar que dispõe de crédito tome-o em favor de outro. E isso, quando o familiar em questão é um idoso aposentado ou pensionista, toma proporções às vezes inacreditáveis.

O filósofo Show Man mais simpático da atualidade, Mário Sérgio Cortella, escreveu dois pequenos livros – “Viver em paz para morrer em paz” e “Porque fazemos o que fazemos” – os quais, em síntese, demonstram que há em nós uma necessidade quase tão fisiológica quanto comer, beber e respirar: a da construção da nossa biografia.

Diante disso é importante que, seja como trabalhadores de qualquer setor ou como filhos e parentes de idosos, nos perguntemos: qual é o nosso papel como ser humano diante da – às vezes gritante, às vezes sutil – presença do abuso de poder contra aqueles que estão aqui há mais tempo?

Estendemos um pouco mais a abrangência dessa pergunta: basta aos trabalhadores das instituições financeiras baterem suas metas e construírem suas carreiras fechando os olhos para esse tipo de realidade? Ou ainda nos questionarmos: é ético que o bom filho, aquele que não busca os parcos recursos dos pais idosos, veja com indiferença – às vezes em nome de uma espécie de “paz sem voz” –  o irmão que o faz?

O que proponho aqui, prezados, não é o policiamento da conduta do outro, tampouco o belicismo inútil e desgastante nas relações – tanto comerciais quanto familiares. Sabemos que às instituições financeiras basta a assinatura, às vezes trêmula, do idoso no contrato. Pouco se lhes dá o inferno astral que o tomador possa ter vivido antes de passar pelas portas giratórias, a biografia do banco não se constrói com ética ou boas práticas, mas com publicidade. A proposta é que firmemos, primeiramente na esfera particular e depois na coletiva, uma espécie de atmosfera de franca reprovação moral a essas práticas, a exemplo do que felizmente já surge quando presenciamos ou nos chega ao conhecimento as muitas violências sofridas pelas mulheres.

Não me parece moralmente aceitável que eu peça à minha vovó que me acompanhe ao banco para fazer um empréstimo consignado assim como não é moralmente aceitável que eu destrate a moça do caixa do supermercado por me dar o troco errado ou por qualquer motivo. O problema é que no segundo caso eu seria prontamente rechaçado pelas pessoas no entorno, no primeiro não.

Jiddu Krishnamurti, um homem muito sábio, disse que “a verdadeira revolução não é revolução violenta, mas a que se realiza pelo cultivo da integração e da inteligência de entes humanos, os quais, pela influência de suas vidas, promoverão gradualmente radicais transformações na sociedade”.

Se você está lendo esse texto, não vejo a menor possibilidade de que você seja um desses filhos que infligem esse tipo de sofrimento aos idosos da família. Mas pretendo fazer aqui uma provocação um pouco incômoda: para além de não provocar sofrimento, você age para que os demais não o façam?

Se você trabalha em uma instituição financeira – sobretudo em bancos de varejo e Sociedades de Crédito, Financiamento e Investimento – e deu-se a ler estas palavras, também de antemão o vejo como alguém incapaz de promover voluntariamente a concessão de crédito nessas condições. Mas pergunto-lhe: você faz tudo o que pode para desestimular essa prática, dentro das limitações que o teu contrato de trabalho lhe impõe?

Todos – ou quase todos – trabalhamos diariamente, antes de tudo, em prol de nossos estômagos, ambições e carreiras. E nessa corrida em que a vida moderna nos joga sem nos perguntar se está pouco ou demais, a maioria de nós já cometeu as mais grosseiras derrapadas éticas. Mas é sempre tempo para repensar e começar, desde já, a construir uma história de vida da qual poderemos nos orgulhar.

Algumas carreiras de sucesso nas instituições financeiras – e por “algumas” enxergue-se aqui um gigantesco eufemismo – são construídas às custas de mil formas de abusos e sofrimentos.

O desejo deste que vos escreve é que, pouco a pouco, as famílias passem a se comportar de forma a proteger o idoso também no que se refere ao seu patrimônio e sua vida financeira. Não há expectativa de que os bancos, enquanto instituições, passem a adotar políticas efetivas de combate às tomadas abusivas de crédito por familiares de idosos, mas creio ser possível que os trabalhadores, na esfera íntima, passem a se comportar como agentes multiplicadores do sentimento de cuidado e proteção que o idoso merece.

É utópico e levará muito tempo? Sim, é bem provável! Talvez, nem eu e nem você veremos o resultado concreto de qualquer mudança positiva de comportamento social.

Porém, acredito que quando chegarmos ao fim, eu e você desejaremos ter contribuído de alguma forma para que a vida em sociedade seja minimamente melhor no futuro do que quando chegamos aqui.

(*) Fábio Thomazetti – Graduado em Ciências Contábeis pela Estácio, Certificado CPA 20 pela ANBIMA. Empregado da Caixa Econômica Federal.

Foto: Marcos Santos/USP Imagens


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Natalia Carolina Verdi

Natalia Carolina Verdi

Advogada, bacharel em direito pela Universidade São Judas Tadeus, cursou Especialização em Direito Médico, Odontológico e Hospitalar pela Escola Paulista de Direito, Especialização em Direito da Medicina na Universidade de Coimbra, e Mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. É professora convidada de cursos de pós-graduação e palestrante nas áreas do Direito e da Gerontologia. OAB/SP 237.141. E-mail: nvadvogada@gmail.com

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