Horácio Costa: declarações político-poéticas sobre a vida, velhice e morte

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Na vida preparei-me para envelhecer de tanto pensar no envelhecimento, e inclusive desejá-lo. Sempre achei que o melhor, para quem escreve, é ficar conhecido na velhice.


Certo dia, um leitor escreveu a Hermann Hesse pedindo que compartilhasse considerações sobre o viver. A partir dessa provocação, o autor, então com 70 anos, assinou Um chamado do outro lado das convenções (1947). Gosto de ler ensaios autobiográficos porque, se não me inspiro, reconheço traços do presente. Pois, como aquele jovem remetente, contatei um grande literato de minha época, esperando ouvir sobre sua experiência de velho:

Horácio Costa* – poeta, tradutor, professor e ensaísta brasileiro -, aceitou meu convite. Dessa vez, o registro coube a mim, quem saiu emocionada da entrevista, cuja reverberação do conteúdo não cessa:

Quando falamos do envelhecimento, no que você pensa?

Horácio Costa – Há uma ideia criada no romantismo, repetida no modernismo e na contemporaneidade, de juventude. Ela virou lugar comum e nós envelhecemos. Somos um país de meia idade e logo seremos uma sociedade de velhos.

Esse é um tema candente para o Brasil, onde, ainda, as pessoas preferem dizer “idoso” a “velho”, como se essa palavra carregasse algo negativo. Artifício bobo. A partir dos anos 60-70, até para a medicina o corpo é velho, não idoso. Todo mundo tem idade mas poucos são ou tornam-se velhos, têm o privilégio de envelhecer.

Eu penso no envelhecimento muito; sempre pensei muito. Perdi meu pai com 9 anos, ele tinha 48, morreu de uma doença hereditária a qual tenho propensão. Na medida em que entrei na adolescência, percebi que queria envelhecer, ao contrário do meu pai que morreu cedo.

Sempre quis ser velho. Não é que eu não quisesse ser novo, mas nunca tive medo de envelhecer: continuo achando que é a melhor fase da vida, sinto que estou na minha melhor fase. Não sei como vai ser daqui para frente porque já sinto várias limitações físicas, o que não sinto são limitações mentais.

Preparei-me para envelhecer de tanto pensar no envelhecimento, e inclusive desejá-lo. Sempre achei que o melhor, para quem escreve, é ficar conhecido na velhice. Corri atrás de reconhecimento um pouco, quando era muito jovem, e concluí que não era meu papel. Compreendi que o papel de um intelectual e poeta é viver como tal e escrever, e que um belo dia eu seria reconhecido, e que esse dia seria na velhice. Foi o que aconteceu.

Além de publicar mais um livro ano que vem, quais são seus planos para gozar dessa fase?

Horácio Costa – Aposento-me em 4 anos e meio. Penso no que vou fazer depois e acho que as pessoas que se aposentam devem se aposentar. Usarei isso para mim, farei coisas que não pude fazer, como traduzir um clássico da língua espanhola, aprender alemão ou latim, escrever e ter um jardim grande. Seguindo a máxima dos franceses, acho que é preciso cultivar o seu jardim. Quero ter uma vida de aposentado mesmo, estou muito feliz com essa perspectiva de viver até lá e depois me retirar para mais longe da cidade e lá seguirei um poeta participante dos meus tópicos.

Dentre seus tópicos, há o amor homossexual. O que pode falar dele a partir do tema do envelhecer?

Horácio Costa – Essa é uma sociedade que mata muitos homossexuais e trata muito mal tudo que é diferente. O brasileiro tem medo da variedade, procura colocar em áreas menos iluminadas e com menos poder os diferentes – que são a maioria. Somando negros, gays, mulheres e dá a maioria, mas é como se as pessoas não soubessem que são. Então resta um centro de homens brancos heteros dominando, achando que eles são os donos da História.

Então, finco o pé na ideia de que é preciso ter memória das pessoas que são colocadas à margem por esse núcleo de poder que pensa que representa o todo – e não o faz. Se decide pelo todo, representa o todo? Não. Essas representam a elas.

Eu coloco muito esforço na minha poesia e docência pela inclusão daquele grupo que me é mais próximo, mais caro, e ao qual eu pertenço, o grupo dos homossexuais.

Sou professor de literatura. Como pode ser que na literatura de língua portuguesa não haja temática homossexual ensinada nas escolas? Temos homossexuais na literatura portuguesa desde que ela começou, na Idade Média. E quem ensina isso? Sem memória, não há cidadania. A construção da memória é feita por todo mundo, tem que ser construída; e isso se dá desde o contato passado e o sentimento de que no futuro as pessoas podem ter mais memória.

E por falar nisso, tem as memórias dos velhos. Os velhos são uma minoria na sociedade que tem muita memória. As memórias dos velhos precisam também ter cidadania, é preciso ouvir os velhos nas produções, nos discursos, nos regimes de saúde… os velhos têm que ter palavra e memória de sua condição.

É muito importante falar com bixas e lésbicas velhas. A comunidade delas é muito fodida, mal assistida pela cultura e pelo estado, atacada pela sociedade, a qual se convencionou que são pessoas que, quando sobrevivem, são infelizes. Se é assim que somos vistos, e é bom falar com essas pessoas, perguntar da vida delas.

Também acho importantíssimo que homossexuais velhos falem com jovens e digam para não caírem na esparrela de não pensar na velhice. O Brasil não é o que era, a homossexualidade não é o desfrute sempre terno de um corpo sempre erétil. Ela é uma condição do desejo. Quem sobreviver, sobreviverá com ela.

E como isso está relacionado à atual conjuntura?

Horácio Costa – Uma lição que tiramos é que não podemos ter um governo assim. Não pode haver gente tão bruta, obtusa e má governando. Eles são maus, não têm qualidade humana. Eles não podem representar o país porque vivem para si próprios, não têm a visão do outro, inclusive, refutam a ideia de que exista um outro. Se essa é base ideológica dessas pessoas, como pedir que esses indivíduos apresentem algum sinal de democracia?

A nação terá que parar para pensar no que ela quer fazer da sua grande energia vital que está, nesse governo, virando energia de vida para morrer e não para fecundar a futura vida. É uma vida para morte, é um caminho para morte, são medidas tomadas na vida para a morte.

Pois, o que nós queremos para nossa vida? É destruí-la? O presidente é eleito fazendo sinal de arminha, o ministro da saúde manda as pessoas tomarem no cu… Nós estaremos suicidando se essas pessoas continuarem. Então que falem os velhos! Os velhos sobreviveram. Nós estamos aqui.

E o que diz do sofrimento que disso resulta?

Horácio Costa – Eu não tenho nenhum ressentimento pelas opções que fiz de ser poeta, intelectual, professor universitário e homossexual. Ao longo da vida pude me construir nessa posição e eu gostaria que isso servisse para pessoas como um exemplo. O discurso da vítima o que o poder quer, pois você sofre; essas pessoas são sádicas, o poder é sádico, eles querem que as pessoas sofram. A primeira maneira de tirar eles do caminho é não sofrendo. Eles querem o poder pra matar. Não ganharão. Nós estamos certos e vamos sobreviver.

O que eu diria para ele? “Por que você acha que o senhor tem o poder de me fazer sofrer? Eu não sofro pela sua ignorância, pelo fato de você ser um beócio, inclusive, por ser um bárbaro. E que fale em nome de deus, daquele vazio e horrível que não é o meu. Não me faça sofrer porque eu não quero, não deixo; não vou sofrer pelo senhor, para o senhor e a partir do senhor. Ao longo da História, serás visto como um equívoco.”

Você acabou de parir mais um livro, “São Paulo, 24 de março de 2020” (Patuá, Fractal, 2021). No lançamento, disse que o publicou com urgência, que sua escrita ocorreu apoiada no ombro da morte. Enfim, a morte, o que diz sobre?

Horácio Costa – Sempre senti a morte ao meu redor. Meus pais eram caçulas, então tive tios e primos mais velhos e só conheci um dos meus quatro avós. Acompanhei muitas mortes ao longo da vida e tenho vários poemas sobre isso.

Quando você nasce, a morte vem com você. A tua morte nasce com seu nascimento. Ela vai ganhar. Mas não é só a tua morte… A morte do Sistema Solar está sendo gestada nele. Uma das grandes descobertas foi saber que o próton decai, e quando o próton decai, o equilíbrio entre elétrons e átomos… a matéria decai, não importa que matéria é. Pode ser a antimatéria, que também decai. Estamos caminhando para o nada, para a decadência.

Então, pronto, esse é o momento em que nós temos vida, e ela acabará, não vai durar tanto tempo como a do Sistema Solar, então enjoy it. E morra bem, deixe um bom legado. E respeite a vida.

Onde vou morar, plantarei três araucárias, que demorarão cem anos para crescer. Eu não as verei, mas quero ter o prazer de plantá-las. E elas ficarão como testemunho de que eu acredito no futuro.

O desejo e a realização não podem se ater só a nossa vida. Você tem que ter causas, exercícios e práticas que vão além da sua existência. Alunos e leitores são os meus herdeiros, vão me levar pra frente, ultrapassarão o meu tempo. A minha vida vai continuar através daqueles que de alguma maneira entraram em contato com quem eu fui e como eu pensei. Estou muito satisfeito de que seja assim.

*Horácio Costa (José Horácio de Almeida Nascimento Costa, São Paulo, 1954). Formado em Arquitetura (FAU-USP, 1978), mudou-se para os EUA e lá fez o PhD em Letras (Yale, 1994, tese “José Saramago: o período formativo”). Foi professor titular da Universidad Nacional  Autónoma de México-UNAM até 2001, quando regressou ao Brasil e desde então dá aulas de literatura portuguesa na FFLCH-USP como professor associado. Desde 28 poemas 6 contos (1981), publicou 13 livros de poesia no Brasil e dez em tradução de sua obra no exterior. Já foi finalista dos prêmios Portugal Telecom e Oceanos. Com Bernini ganhou o Jabuti de poesia em 2014. Organizou antologias de poesia brasileira ao inglês e espanhol. Traduzido a dez línguas, verteu ao português poetas como Octavio Paz, Elizabeth Bishop, José Gorostiza e César Vallejo. Foi presidente da ABEH-Associação Brasileira de Estudos da Homocultura (2006-8) e editou Retratos do Brasil Homossexual (EDUSP/IMESP, 2010). (Retirado de São Paulo, 24 de março de 2020).

Fotos: arquivo pessoal


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Paula Akkari

Paula Akkari – Estudante de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: [email protected] Instagram: @akkariartigos – www.instagram.com/akkariartigos

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