A História do bairro da Lapa* Identidade de um tempo e espaço

URSI – LAPA

Meu bairro tinha carroção de lixo, tinha padeiro com sua carroça, tinha…., uma cabra de quem seu dono vendia o leite, amizade…

Vera Brandão *

 

Assim Álvaro, neto de italianos, fala do bairro da Lapa, onde cresceu e vive até hoje. Relembra também a cidade na época em que o rio Tiête, especialmente no trecho compreendido entre o Parque São Jorge e os Clubes Tiête e Esperia, na região da Luz, era utilizado para pescarias, natação e competições de remo… Sente muito as mudanças que a cidade e o próprio bairro vem enfrentando, com a perda das dimensões mais humanas na convivência de seus cidadãos.

Ficou gravado na minha mente o apito da fábrica Matarazzo, avisando os horários das trocas de turno, dos sinos da igreja da Pompéia e da Santa Rosa. O toque da corneta do tripeiro, que passava vendendo miúdos de boi, das cabritas com os sinos no pescoço, avisando da chegada para a venda do leite. Do som dos bondes correndo nos trilhos, o apito dos trens… tempo bom!

Igreja São João Vianey – (1970) construída nos anos 30 na praça Cornélia

As coordenadoras do projeto complementam o relato, por ele escrito, com outros apenas partilhados oralmente com o grupo. De um tempo de brincadeiras na rua com um estilingue pendurado no pescoço para caçar passarinho. Do jogo de bola, de empinar “quadrado”…. um tempo tranquilo que possibilitava às famílias, após o jantar, ficarem conversando na calçada enquanto a criançada continuava suas brincadeiras.

Também descendente de italianos, Antonia conta que sua família trabalhou sempre na lavoura e, após um certo tempo do falecimento do pai, sua mãe e as quatro filhas, ainda solteiras, resolveram mudar-se para São Paulo.

Chegamos no dia 11 de agosto de 1945… fomos morar numa casa alugada na rua Bica de Pedra… próxima a Heitor Penteado, que ainda era de terra, com muito mato que crescia em toda sua extensão. Logo após completar a maioridade tirei a carteira de trabalho e fui registrada na empresa onde já estava trabalhando, de palitos de sorvete. Não existiam ônibus, apenas bondes elétricos que vinha da cidade até o Largo Pompéia. O resto da caminho, cerca de 5 kilometros, fazíamos a pé.

Como Alvaro, relata também suas lembranças de uma São Paulo tranquila, onde havia um maior grau de amizade e solidariedade entre os vizinhos. E conta que acertávamos os relógios pelas sirenas das fábricas. Quando fala da cidade diz:

A cidade era linda, com uma garoa que caia todos os dias. Durante muitos anos não guardamos os casacos, por causa da garoa e do frio que fazia em São Paulo.

Ela também relata um pouco da história do bairro desde o século XIX quando, pela excelente qualidade do barro retirado das margem do Tietê ocorre o surgimento das olarias que impulsionaram o progresso do povoado… Com a instalação da estrada de ferro em 1899, na Lapa de baixo, surge o 1º polo comercial do bairro- o Largo da Lapa – com armazens de secos e molhados, açougues, e lojas de armarinhos. Em 1903 ocorre o crescimento comercial da Lapa de cima com a chegada dos bondes até a rua Guaicurus.

Esta retomada histórica feita por Antonia é um exemplo de como as lembranças individuais, pessoais e únicas, articulam a memória coletiva e a memória histórica, evidenciando, assim, que os relatos são um ponto de vista sobre o conjunto de memórias que se (re)compõem durante o processo de rememoração, conferindo-lhes mais colorido e vida.

Às lembranças da criança que passou a infância numa colônia italiana do interior de São Paulo, brincando ao ar livre, subindo em árvores, “caçando” aranhas! juntam-se outras, igualmente prazerosas, já nesta cidade. O passeio de bonde era para ela uma diversão e muitas vezes tomava-o, ia até a cidade e nem descia….

Aqui em São Paulo, eu gostava mesmo de andar de bonde. Ele era elétrico e fazia um barulhão. O condutor fazia a viagem toda de pé, e o cobrador ficava nos estribos coletando o preço das passagens… O bonde era totalmente aberto… os passageiros entravam direto pelos bancos. Podíamos tomá-lo em qualquer ponto… não existiam paradas fixas. Por ser aberto, a velocidade não era muito grande e muitos homens pegavam… em movimento. Quando chovia, a opção era um bonde fechado…. chamado “camarão”. Existiam linhas que se iniciavam na Praça da Sé e terminavam no Largo da Pompéia, outras terminavam na Lapa.

Antonia lembra o perfume agradável e inconfundível da flor “dama da noite” mas também outro, muito desagradável:

Lembro do cheiro que exalava de um curtume, cuja fabricação de couro deixava vários quarteirões com cheiro muito ruim. Na verdade o bairro todo ficava com este cheiro. O curtume não existe mais… a rua onde ficava hoje é rua do Curtume, nas imediações da rua Coriolano com Miranda de Azevedo.

É por meio da lembrança dos “cheiros da cidade que se apresenta a próxima narradora, Áurea.

Quando pequena, por volta dos anos 30, ao levantar de manhã gostava de ir ao quintal e sentir o cheiro de terra molhada de orvalho, sentir o cheiro da plantas, das frutas e das flores de pessegueiro, das laranjeiras e outras mais, pois os quintais vizinhos também tinham pomares. Do lado de casa havia uma padaria, que muda de dono, mas está lá até hoje. Sentir o cheiro de pão fresco de madrugada e durante todo dia é muito bom… Tínhamos muita uva no quintal, branca e preta. Com preta fazíamos suco de uva, fervendo as uvas em um grande caldeirão com água, depois de frio coava-se o suco e a uva passava na peneira para fazer geléia. O suco ficava forte parecia vinho, o sabor e cheiro era uma delícia, nunca vi igual.

Lembra também, como Antonia, do cheiro desagradável do curtume e das industrias Matarazzo que exalavam um cheiro enjoado do refino de óleo, sabão, etc. Relembra ainda uma niquelação que instalou-se ao lado de sua casa em meados dos anos 40, que com seus vapores de ácido, estragou todo o nosso pomar. O cheiro era insuportável!

O relato de Áurea, nos coloca, através dos odores, em contato direto com as mudanças ocorridas no bairro na visão privilegiada de quem as viveu, morando, praticamente, sempre na mesma casa. Ela conta:

Nasci Áurea Mathilde Spinelli em 19 de julho de 1926, na rua Vespaziano, na Lapa. Dois meses depois fui morar com meus pais e avós na casa da rua Tito, construida por meu avô. Ali cresci, brinquei, estudei e casei. Em setembro de 1950, casei com Mario Jorge Dib, morador do bairro da Mooca, e viemos residir na rua Tito, onde moro até hoje.

O avô materno, com que sempre viveu, veio de Castelnuovo di Verona, Itália e instalou-se em Ribeirão Bonito. Em 1920, já casado, vem para São Paulo e instala-se no bairro. Faz parte dos relatos de Áurea também os passeios ao centro da cidade, levada pela avó, e diz que já aos nove anos sabia tomar o bonde sózinha, indo assim pagar uma conta de luz no centro da cidade. Do bairro onde viveu esta infância despreocupada, das brincadeiras na rua, lembra que era como se morássemos numa fazenda mesmo:

Chacareiros vendiam, de porta em porta, os seus produtos com carrinhos de mão e carroças… A carne no açougue chegava fresquinha, direto do abatedouro todos os dias… ninguém tinha geladeira. Os leiteiros que moravam nos morros, onde é agora os bairros City Vila Romana, Sumaré, rua Heitor Penteado e toda a redondeza, traziam para nós o leite fresco tirado de manhã e a tarde. Na rua hoje denominada Bárbara Heliodora, antiga Queimada Grande e antes ainda Nazaré, tinha muitos criadores de cabras que, de manhã, passavam pelas ruas com bando de cabras vendendo o leite tirado na hora… Tinha tudo na porta. Até o turco da prestação (que) vendia de tudo… até um tapete de linóleo americano, que minha mãe comprou em 1933, e que existe no chão da minha casa até hoje!

O bairro era povoado por italianos, espanhóis, portugueses, húngaros, árabes, ingleses, alemães, franceses e dinamarqueses. Os franceses e dinamarqueses trabalhavam na Vidraria Santa Marina… Entre as ruas Vespaziano, Caio Graco e Tito havia um quarteirão totalmente vazio, onde aos domingos se jogava futebol. Por volta de 1935… foi construida neste local uma escola para crianças de 3 a 11 anos para ficarem o dia todo… para mães que trabalhavam.

A narrativa de Áurea é extensa e traz, em detalhes, outras histórias da vida do bairro e seu desenvolvimento. Relembra também muitas brincadeiras da infância, as comidas saborosas, as festas e os personagens ilustres do bairro. Mas outras vozes se fazem ouvir… todos querem participar e contar suas histórias! Vamos dar a palavra então a Celina,descendente de espanhóis e nascida em Atibaia, moradora no bairro desde 1938. Assim ela se apresenta:

Neste momento sou uma velhinha de 83 anos… Sou uma velha muito metida a besta! … Vivi 17 anos no interior e 66 anos na Lapa. O meu primeiro filho nasceu no interior, mas eu já morava no bairro desde que me casei. Meu pai teve um armazem no largo da Lapa, lá pelos anos 40… Meu marido foi uma pessoa das mais conhecidas do bairro por causa do futebol. Jogava no Lapeaninho e também no Acadêmicos da Lapa. Mais tarde foi diretor desses times. Eram jogadores de várzea… as famílias lapeanas iam assistir e torcer. Aos sábados e domingos jogavam e na segunda-feira, quase sempre “estropiados” iam trabalhar! E ainda tinham que pagar a mensalidade do clube…

Relata que as principais diversões do bairro eram o futebol e o cinema. Mas relembra também das festas religiosas, da Banda 15 de novembro, originalmente Banda da Lira da Lapa fundada em 1882, e do famoso Carnaval do bairro.

O Carnaval da Lapa era famoso e estava no seu apogeu quando me mudei para o bairro. Os blocos carnavalescos desfilavam primeiro no bairro, na rua 12 de Outubro e na rua Trindade, atual Dr. Cincinato Pomponet, para depois irem para o centro de São Paulo, na avenida São João. Depois do desfile a mocidade da época ia para os clubes, como o Lapeaninho e a União Fraterna, ou para os salões dos cines Carlos Gomes e São Carlos. O carnaval de rua dessa época era dirigido pelo carnavalesco Ado Benatti gerente de uma cerâmica, que ficava na rua Carlos Vicari, e onde meu irmão trabalhava como “guarda-livros”, como se denominava a profissão de contador.

Ela também relembra as lojas mais populares: Queimada da Lapa, Bazar Felipe de aviamentos, e que existe até hoje, Guimarães e da Lapa Elegante Que era de fato a loja mais elegante do bairro e existiu até poucos anos atrás.

Lembra também da tinturaria, uma casinha de madeira e… na frente corria um riozinho e era lá que lavavam os ternos. Em cima de uma pedra, com a água correndo por cima, era colocada a roupa e com os pés o tintureiro esfregava…

Em outro trecho interessante, relata:

A parte de cima da rua 12 de Outubro, depois da rua Clemente Alvares, eram bem poucas as casas… baixas e humildes. Na esquina com a Antonio Raposo tinha o colégio Barbosa Lima, ao lado do Grupo Escolar Pereira Barreto e do ambulatório. Não lembro em que dia da semana eram feitas as operações de amígdala mas…. as crianças e as mães ficavam na sala de espera e um a um eram chamados para operar. A mãe ia na sorveteria em frente comprar sorvete. A operação era feita sem anestesia e… se escutava o grito da criança. Não demorava muito ela saia chorando, trazendo o lençol ensanguentado, e recebia da mãe o sorvete. Imaginem o que os coitados que estavam esperando sentiam!

Os médicos do bairro também são por ela lembrados, além do conhecido Dr. Pomponet cita: Dr. Mauro Valença e o Dr. Orville de Almeida. e completa:

Tinha ainda os curandeiros, benzedeiras e parteiras. “Seu” Ferro era curandeiro e morava na rua Gomes Freire, quase esquina com a rua Clemente Álvares, e era muito procurado por moradores da Lapa e outros bairros. Os partos eram feitos por parteiras ou curiosas. O parto de meu primeiro filho ocorreu em Bragança, feito por uma parteira. O segundo, uma filha, nasceu na Lapa, também pelas mão de uma parteira, Dona Laura, que morava na rua Clemente Alvares. Na rua Antonio Raposo havia a parteira Ferraresi, que veio de Bragança para estudar, formou-se e continuou por aqui.

Celina traz na memória individual dos fatos cotidianos, um trecho que a contextualiza históricamente – a 2ª Guerra Mundial. Por meio dele entramos em contato com um fato histórico e sua influência no bairro, e no país.

Na época da Guerra eu morava na rua Gago Coutinho e o quartel da Intendência, que fica logo após o pontilhão da Lapa, fim desta mesma rua (já no caminho de Vila Anastácio) ficava em grande agitação. De lá saiam muitos carros blindados e grande quantidade de soldados, muitos recem-convocados. A maioria tinha sido sorteado no nordeste e vindo prestar serviço em São Paulo. Durante a noite toda aquela tropa e carros cheios de armas, com canhões e metralhadoras, saiam do quartel e subiam a rua Gago Coutinho fazendo grande barulho. Nós, moradores da rua, fícavamos muito assustados e… mais ainda quando sabíamos que moços das redondezas tinham ido para a guerra.

Este trecho é enriquecido por outro, ligado ao mesmo período, mostrando como a guerra, mesmo distante, influenciava a vida de um nascente bairro da cidade.

Durante a guerra, como faltava combustível, os carros passaram a usar gazogênio… o cheiro sufocava! Pegado a minha casa tinha uma oficina que fazia o serviço de transformar o motor do carro para usar este combustível. O dono da oficina chamava-se Cristianini, era especialista nesse serviço. O carro virava um trambolho, com uma chaminé em cima do paralama. A fumaça preta e o cheiro que saia daquelas chaminés era insuportável! Não se podia abrir a janela que o cheiro invadia a casa.

Como um caleidoscópio, por meio dos relatos, vamos formando uma imgem rica, história viva, deste antigo bairro da cidade que, segundo Celina, já era um lugar povoado em 1590. Conta que o bairro teve origem a partir do sítio de Joaquim Araujo Leite – Sítio da Lapa – localizado entre os rios Pinheiros e Tiête. Aos poucos o progresso e sua “invenções” foram transformando a vida dos moradores da cidade e do bairro. A chegada da linha do bonde, em 1903, impulsiona definitivamente seu crescimento populacional, comercial e industrial.

LAPA – 412 anos

“Tecidos e Bordados” Lapa – 1910

Bondes em trilhos paralelos – 1949

Rua Clemente Álvares – 1930

Casa São Jorge – 1942

Outra voz, vinda de longe, se faz ouvir: nascida na Sicília, em 1934, Giuseppa vem para o Brasil com 18 anos em companhia dos pais e irmãos, e diz: O que não esqueci foi o apito do navio quando deixei a Itália… um som de tristeza.

Aos 24 anos casa-se com o também siciliano Benito e, então, mudam-se para a Lapa, à rua Alves Branco. Era o ano de 1959. Seu relato, de anos mais recentes, traz novas informações que enriquecem esta história.

O meu bairro era a Lapa de baixo… tinha pouco movimento de carros e a única dificuldade era atravessar para o outro lado – Lapa do alto – que se fazia através de uma porteira, que abria depois que o trem passava.

O som do apito do navio vem do passado mas outro, que ainda persiste, é o da chegada do trem na estação, bem perto de sua casa. E sobre o tema, completa:

Som gostoso é de todas as lembranças… de todos os tempos… seja de que país for, e que fazem parte da nossa vida.

Giuseppa conta ainda sobre as comidas gostosas da infância na Itália, especialmente do pão feito em casa e assado no forno a lenha. Pão que ela faz até hoje mas, agora, bate a massa no liquidificador e assa no fogão convencional! Tem também boas lembranças do Carnaval no Palestra-Itália, nome que foi mudado na época da guerra para Sociedade Esportiva Palmeiras, dos cinemas que frequentava com o marido, em particular do cine Marrocos, no centro da cidade… o mais bonito para mim!

Haydée, filha de pai com origem espanhola, de Leon, e de mãe de família vinda da Mantova, Itália, nasceu no bairro, na rua Coriolano.

Tenho muito orgulho de morar há 65 anos neste bairro de muitas histórias, bairro previlegiado da zona oeste.

Recorda também os sons da infância, passada no bairro:

O som dos pássaros em nossas árvores frutíferas: goiaba, laranja, ameixas… do galo cantando ao amanhecer… Papai era músico e com outros colegas vinham ensair em casa. Que som gostoso das músicas que tocavam! Gostoso era o som da fanfarra quando eu desfilava na escola!

Entre tantos outros sons, do amolador de facas, do realejo, do vendedor de bananas que gritava: – vende bananas, olha a banana; do sino da escola, do bonde, dos trens ficou marcado também, assim como para Celina, os ligados o período da 2ª Guerra.

Lembro-me bem que na 2ª Guerra Mundial, eu tinha por volta de 7 a 8 anos, vovó cobria todas as janelas com panos pretos e apagava todas as luzes. Era treinamento com aviões e o barulho era muito forte, eu tinha muito medo!

Desta época da infância traz recordações gostosas das brincadeiras na rua de terra, da boneca Wanda que já tem 58 anos e é guardada até hoje, e que a noite todo mundo entrava em casa para escutar as novelas da rádio São Paulo, especialmente a lembrada – O Direito de Nascer.

Todas as lembrança que trazemos de nossa vida são marcadas pelos sentimentos a elas ligados. Agradáveis ou não, tudo o que foi visto, os sons, os cheiros e os sabores voltam com força quando rememoramos e, assim, presentificamos. O passado torna-se presente nestes preciosos (e deliciosos) momentos.

Todos os narradores trouxeram lembranças das comidas gostosas, feitas pelas mães e avós e também por eles mesmos. Através destas “comidas de afeto”, feitos com esmero e algumas só em ocasiões especiais, os narradores trouxeram um mundo de costumes de época e das famílias de origem.

O bacalhau, prato de ocasiões especiais, o coelho com vinho e sálvia feito na Páscoa, a polenta com semola de milho, feita no tacho de cobre (chamado de parolim), com molho de frango ou linguiça, o macarrão feito em casa…

Os doces típicos entre os quais os “crustoli”, feitos no Natal, são lembranças da família italiana de Áurea e de Antonia. Com a mesma origem, Giuseppa diz que o cheiro do molho de macarrão feito aos domingos, era irresistível. E lembra de quando, ainda na Sicilia pelo Natal… minha mãe e as vizinhas se reuniam para fazer um doce típico com figo seco moido com especiarias e amendoas…

A descendência italiana da família de Haydée aparece quando lembra do macarrão que a vovó fazia, com farinha de trigo, ovos, pitada de sal e água… dos doces caseiros…. e a gemada com vinho do Porto, feita pela mamãe.

É pela lembrança de outros cheiros e sabores que Lacy inicia, aqui, seu relato. Nascida em 1926 em Uberaba, tataraneta de índios, e criada em parte na fazenda de gado de seus pais, recorda o cheiro do café que, torrado em panela de ferro e socado no pilão, ia longe… o doce de leite… da goiabada embrulhada na palha de milho… do arroz doce, feito no tacho, onde colocavam coquinho de macaúba… ficava amarelinho, uma delícia! No forno de barro assava o bolo de fubá, chamado de Bolo de São João pois era feito nas festas juninas e virou tradição na minha família…

Lacy morou no interior até o falecimento do marido, mudando-se então, com os 3 filhos, para São Paulo. Quando todos se casaram mudou-se para Vila Pompéia, para ficar perto deles e onde reside até hoje. Nesta época o bairro ainda era tranquilo, com muitas casas e bem arborizado, e lembra que se podia ouvir as músicas do carro que vendia doces.

No decorrer dos anos assisti a construção acelerada de vários edifícios e a expansão das casa comerciais do bairro e o aumento dos ruídos. Mas para amenizar tudo, ao amanhacer, temos vários pássaros a cantar alegrando nossa manhã…

De suas andanças pela cidade o lugar que destaca é a Av. Paulista onde gosta de passear. Quando ainda não conhecia bem a cidade, num de seus passeios se perdeu e sobre este episódio escreveu:

Na esquina da Consolação com a Paulista

Me perdi de vista

Virei artista

Equilibrista

Fiquei totalmente alheia

Ao ver a lua cheia.

Nadyr, nascida no ano de 1931 em São Paulo, descendente de franco-italianos, inicia sua narrativa:

Minha origem é de Pinheiros, meu destino a Lapa. Em 1940 fui morar na rua Aurélia.. .como as outras não era asfaltada… havia poucas casas e tudo era mato. Era um tempo em que não havia supermercados, tudo comprado na venda com caderneta para pagar no fim do mês e, garanto, não pagávamos juros. Todas as manhãs o leiteiro deixava um litro de leite na porta, o frasco era de vidro.

Lembra também do cheiro do molho de macarrão, da alcachofra à moda italiana, recheada com aliche e pão, a alegria da família reunida. Dos passeios na cidade, do Teatro Municipal, do bonde aberto e do blecaute quando da 2ª Guerra, e relata que chegou ir ao centro pedir autográfos aos pracinhas que retornavam.

O que eu gostava era de esperar todas as quartas, sextas e domingos o jornaleiro chegar e entregar o Gibi, com histórias semanais do Brucutu, Tereré e Tarzan…Parece incrível, mas ainda lembro da fisionomia dele!

Lembro com saudades do apito do guarda noturno, um apito que parecia dizer – está na hora de dormir…

Em 1962, já casada fui morar na rua Carlos Vicari e… meus filhos estudaram na Escola Experimental Dr. Edmundo de Carvalho, na rua Tibério, com a grande diretora Terezinha Fran.

Ela termina seu relato afirmando:

Relembrar o passado é bom. Mas não podemos esquecer que tudo passa… até nós mudamos, mas não perdemos a esperança de Viver!

É recordando a chegada dos avós vindos de Nápoles, Itália, que Polonia moradora no bairro desde de 1939, começa sua história. A família foi para o Cocais, Minas Gerais, e depois seu pai quando já moço foi trabalhar em Casa Branca, onde conheceu e casou com sua mãe, também descendentes de italianos de Firenze. Após dez anos de casamento e cinco filhos seu pai veio a falecer. Polonia tinha na época tres anos.

Quando eu tinha sete anos viemos para São Paulo… moramos na rua Tavares Bastos, depois na Miranda de Azevedo e finalmente na Felix Della Rosa Minha mãe trabalhava na vidraria Santa Marina e nós, minha irmã e eu, trabalhávamos em casa de família. Minha irmã estava com dezoito anos, em 1947, quando teve tuberculose. Não existia penicilina e não havia nenhum remédio. Foi uma epidemia. Só na minha rua morreram cinco jovens. Sofri muito, junto com minha mãe, a falta dela.

Amenizando esta passagem difícil para toda a família, ela relembra uma “comida da alma”, lembrança carinhosa com a marca dos antepassados.

Eu gosto muito de macarronada com muito molho e queijo ralado por cima. Para acompanhar um bom copo de vinho… me acostumei porque minha mãe fazia todo domingo. Me lembro que no dia de Natal a lasanha e o pernil não podiam faltar na nossa mesa. Isso era tradicional, e eu continuo fazendo…

Polonia mostra um forte sentido comunitário tendo lutado, junto com outros moradores, pelas melhorias encontradas no bairro. Relata:

Fui ser Filha de Maria na Igreja Nossa Senhora do Rosário da Pompéia e… os padres Camilianos começaram a construir o hospital São Camilo. Nós, da irmandade, e o povo do bairro ajudamos muito… fazíamos quermesse e teatro para o povo assistir… o dinheiro era para a construção do hospital, até que ficou pronto. Depois veio a construção da nossa igreja – Nossa Senhora Aparecida – aqui na minha rua, Felix Della Rosa. Eu, minha mãe e irmãs e todo o povo do bairro trabalhamos muito! Arrajávamos prendas, fazia-se quermesse e gincanas, vendíamos rifas, até acabar de construir a igreja. Até hoje fazemos bingos para melhorar…. Em 1979 ganhamos um terreno para a construção de um posto de saúde. Eu e minhas amigas do bairro lutamos muito para conseguir a construção… depois de 20 anos nós conseguimos. Foi uma vitória e fiquei muito feliz!

O bairro tinha, na época de infância e juventude, muitas chácaras de verduras e flores e uma onde se vendia o leite fresco. Nesta época minha mãe tinha fogão a lenha e comprávamos o carvão na porta de casa.

Ainda relembra das brincadeiras de criança na rua e conta que com a chegada dos netos, que passavam o dia em sua casa enquanto os pais trabalhavam, pôde reviver, brincando com elas no quintal, muitos destes felizes momentos. É neste espaço, cuidado com carinho por seu marido, com muitas flores ,que os passarinhos, especialmente os beija-flores vêem para alegrá-los.

Conta ainda, voltando ao tempo de sua infância e adolescência, as dificuldades com a condução, mesmo havendo bonde, e que muitas vezes o caminhão pau-de-arara era a solução para alguns deslocamentos, para atravessar onde só tinha mato.

Bonde para operários (1916)

D. Polônia

Mas, para o lazer no bairro, tinha os cinemas, as festas religiosas, o pic-nic, o futebol de várzea aos domingos. Lembra do tempo em que fazia teatro para arrecadar fundos para construção do hospital e que… na nossa apresentação tinha quem cantava musicas líricas e era muito lindo… me dá muitas saudades daquele tempo!

“PIC-NIC”: Parque Nacional (1952)

D. Polônia

Um trecho interessante da narrativa de Polonia, complementando o de Celina, sobre o Carnaval é o que segue:

Eu me lembro que em 1947 passava um cordão de Carnaval em frente a minha casa, lá pelas duas da madrugada, e nós todas levantávamos correndo para ver o bloco passar. Eu era Filha de Maria e nesses dias tinha que fazer retiro… não podia pular, só tinha que pedir a Deus pelos foliões… Mas quando eu ia para a igreja as sete horas da manhã a gente encontrava com a turma voltando do salão, com aqueles sprays de lança-perfume, e eles espirravam na gente…

Polonia casou-se com Paulo, seu primeiro namorado, em 1955. Teve três filhos e criou uma sobrinha do marido que ficou orfã. Conclui:

Aqui estou até hoje! Há 65 anos no mesmo bairro!

Fizemos, com as palavras de Álvaro, Antonia, Áurea, Celina, Giuseppa, Haydée, Lacy, Nadyr e Polonia, uma viagem ao tempo e espaço, passado e preente, de um dos mais tradicionais bairros da cidade de São Paulo. A Lapa.

Revivemos com eles momentos alegres de um cotidiano de muito trabalho, mais simples e tranquilo, momentos tristes de privações, doenças e perdas… Através das narrativas pudemos constatar que não é um tempo e espaço perdido, porque, resgatado, revisitado, ressignificado e documentado faz parte, agora, da memória viva da cidade.

Aqui o passado é presente, e a história oficial se enriquece com o registro do cotidiano vivido por seus cidadãos. Um novo olhar sobre a questões do envelhecimento, memória, tempo e espaço, é a proposta do trabalho realizado e aqui apresentado.

* Projeto Memória Viva-Cidadania Ativa realizado em parceira entre a SMS-COGest-área temática do idoso- e o NEPE-PUC/SP com patrocínio da Novartis Biociências S.A, no período de outubro de 2003 a junho de 2004.

Coordenação:
Aniza Emi Asakawa Asahara – fonoaudióloga
Mônica Maria Cintra Zarif – assistente social

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