Gota de esperança

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Idosos de um Centro Dia público, em comum acordo, nomearam a tolerância, o respeito e o fim do preconceito como primeiras necessidades para se alcançar a paz e se ter esperança.


Uma flor se abriu no jardim em meio à melancolia de um viver. Pessoas se penduram na asa do avião para buscar o direito de existência que lhes é negado e caem do alto como gotas.

O tempo fechou de vez neste país e no mundo que sofrem pelo descaso, pela falta de dignidade e de verdade.

Os sonhos secam como o clima e despencam das alturas para se esborrachar no chão seco. Não só a flor está sedenta, estamos todos desejando uma gota que seja de esperança; uma gota que não seja das tantas lágrimas derramadas em nome do horror que vivemos, dos velhos largados aos maus tratos, das famílias em barracas na rua vivendo com os ratos e como bichos e das mulheres do Afeganistão que desejam simplesmente existir.

Um pingo de chuva se solta da nuvem escura e goteja na pétala da flor que permanece bela assim como os desejos dos tantos que continuam a gritar pela vida, incisivamente.

O velho maltrapilho, escondido atrás da barba suja, observa a flor no jardim.

A gota reflete em seus olhos que, marejados cultivam a esperança de existência.

O pingo escorre ao chão. A vida se dilui neste breve instante.

O velho ora a Deus, mulheres recuam no medo, famílias se protegem na fragilidade das barracas e a flor se abre em esperança.

Absorvida na terra seca, a gota cumpre o seu papel.

De tempos em tempos a tristeza assola o mundo que vivemos.

Após ter pintado Guernica em 1937 em resposta aos bombardeios alemães na Guerra Civil Espanhola, Pablo Picasso passa a ser considerado um símbolo pela defesa da paz e da liberdade.

Em 1949, ao término da segunda Guerra Mundial, acontece em Paris um Congresso Mundial pela paz que teve a litogravura de uma pomba feita por Picasso nos cartazes da Conferência.

As imagens que ilustram este pequeno texto são dos trabalhos artísticos dos idosos do Centro Dia Bom Retiro (São Paulo) onde semanalmente eles se envolvem com temas relacionados à História da Arte. A Paz retratada diversas vezes por Picasso foi tema dos nossos encontros.

Em um Centro Dia Público onde nem todos possuem a dádiva de viver em paz, conversar sobre o tema é de extrema importância.

As inúmeras pombas feitas por Picasso serviram de inspiração para os trabalhos artísticos e assim como em 49, uma Conferência sobre a Paz aconteceu no Centro Dia.

Como ter paz no mundo, no nosso país e em nossos lares? O que precisamos fazer para viver em paz?

Animados, todos participavam com a seriedade que o assunto exige e em comum acordo nomearam a tolerância, o respeito e o fim do preconceito como primeiras necessidades para se alcançar a paz. Nas pinturas, foi a leveza da arte que tomou conta do ambiente e com um conta-gotas mergulhado na tinta azul, gotas de esperança pingaram nos desenhos e quiçá no coração dos velhos.

Ao despertar um viver esperançoso, a arte cumpre o seu papel.


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Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: [email protected]

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