Google, na trilha da propaganda – Idosos vesus Jovens

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Acessado diariamente por milhões de pessoas do mundo inteiro, o “buscador” tem por objetivo “organizar a informação mundial e torná-la universalmente acessível e útil”. Seguindo as leituras sobre representações das velhices e envelhecimento, traçamos um breve comparativo entre as propagandas voltadas para os idosos e aquelas direcionadas aos jovens.

Ana Luiza Braga e Ruth Gelehrter da Costa Lopes *

 

google-na-trilha-da-propaganda-idosos-vesus-jovensA ideia desse texto é analisar a visão que os brasileiros têm dos idosos, a partir do site de buscas Google, tendo como norte as propagandas veiculadas por ele. Para isso, seguindo as leituras sobre representações das velhices e envelhecimento, traçamos um breve comparativo entre as propagandas voltadas para os idosos e aquelas direcionadas aos jovens.

Conforme lembra Rodriguez (1994), “vem se observando que na sociedade contemporânea a mídia ocupa papel central na vida de muitas pessoas e, a comunicação, tem servido para legitimar discursos, comportamentos e ações”.

Um dos maiores referenciais midiáticos da atualidade é o Google, um buscador – acessado diariamente por milhões de pessoas do mundo inteiro – que tem por objetivo “organizar a informação mundial e torná-la universalmente acessível e útil”.

O site funciona da seguinte forma: as informações que forem mais pesquisadas e acessadas pelas pessoas, aparecerão em primeiro lugar nas buscas. Ou seja, a preferência é dada aos sites, fotos, vídeos e etc., que mais foram visualizados – mais populares – e que possuem certa credibilidade. Como o próprio Google define: “um reflexo daquilo que outras pessoas estão pesquisando”.

Assim, consideramos o Google uma ótima ferramenta para entender como os idosos são vistos na sociedade brasileira. Afinal, apenas uma simples busca com duas palavras, “idosos” / “jovens”, já desencadeia uma gama de resultados diversos; informações essas que podemos indicar como um reflexo da realidade, do que as pessoas têm como referência sobre determinados temas.

Por exemplo, ao escrever “jovens são”, na caixa de buscas, o site sugere para pesquisa: “jovens são fortes”. Mas ao escrever “velhos são”, a primeira opção passa a ser: “velhos são chatos”; refletindo as visões mais populares da sociedade brasileira sobre esses grupos.

Goldfarb (2006, p. 41) explica que “os valores de produção e de consumo, ligados ao modo de produção capitalista, também colocaram a velhice em lugar marginalizado, investido de valores simbólicos negativos e em contraposição aos da juventude, que sintetizariam todos os valores positivos, especialmente força, beleza, capacidade de trabalho, reprodução e produção de bens”.

A partir desta constatação, registramos a seguir os resultados do comparativo:

10 primeiros resultados para “propagandas para idosos”:

– campanha de vacinação contra gripe;

– campanha contra violência e maus tratos ao idoso;

– campanha de conscientização do direito aos idosos (três vezes);

– desconto para graduação a pessoas de mais de 50 anos;

– novamente campanha contra violência ao idosos;

– plano de saúde;

– serviço funerário;

– caminhada para idosos.

10 primeiros resultados para “propaganda para jovens”:

– promoção de refrigerante;

– pizza e filme;

– faculdade;

– revista jovem;

– creme de beleza;

– refrigerante;

– festa com bebida;

– cursos SENAI;

– vestibular;

– produtos de beleza para o cabelo.

Os resultados evidenciam a visão que os brasileiros têm sobre os dois grupos pesquisados. Enquanto a maioria das propagandas para os idosos é sobre saúde ou luta contra maus tratos, os de jovens se relacionam à beleza, festa, comida, cursos e etc, além da mensagem implícita de que jovens estão em uma fase positiva e idosos em uma fase negativa; doença e negligência. Ferrigno (2006) esclarece que “a atribuição de papéis mais específicos às gerações resultou num maior distanciamento entre elas”.

Percebemos, também, que apenas duas propagandas, das dez mais visualizadas no Google, estão ligadas à divesão e educação e, ainda assim, essas propagandas dão ênfase para a idade avançada do público alvo.

No VII Congreso Mundial de Organizaciones de Mayores, realizado na Espanha em 2005, Miguel Bordejé Antón, presidente da Associação de Aulas da Terceira Idade declarou que “os idosos se veem nas mídias dentro de um mundo de solidão, dependência, negativo ao ritmo da vida, como problema, enquanto que, ao contrário, a maioria segue dando prioridade aos conceitos do desejo de viver, de melhorar, de ter influência na sociedade” (tradução nossa – disponível Aqui.

Considerando a pesquisa realizada, podemos afirmar como sendo, também, uma realidade brasileira a afirmação de Antón. O Google, como plataforma de busca mais utilizado no mundo, demonstra que a visão popular do brasileiro é a de que os idosos estão em um “mundo de solidão, dependência, negativo ao ritmo da vida”: necessitam de vacinas, de serviço funerário e até entender seus próprios direitos.

Concluímos, com a pesquisa realizada, que os velhos são percebidos pela sociedade brasileira como aqueles que necessitam de produtos para sua saúde, prioritariamente, com um tom de negatividade e negligência; em contraposição aos jovens, que se divertem, compram e vivem com saúde.

Destacamos que a ferramenta de busca é um espelho da população, reflete a maneira como ainda pensamos, sendo necessária, portanto, uma mudança na visão sobre a velhice em nossa sociedade, para que as “buscas” nos levem a resultados mais positivos, gerando assim, condições de um bem viver para todos.

Referências

FERRIGNO, J.C. A identidade do jovem e a identidade do velho: questões contemporâneas. In: Velhices: Reflexões Contemporâneas. São Paulo: PUC: SESC, 2006; vários colaboradores.

GOLDFARB, D.G. Demências. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006.

MENDONÇA, R. Campanha tenta combater preconceito nas buscas do Google. Disponível Aqui. Acesso em 10 out. 2016.

RODRIGUEZ, P. Periodismo de investigación: técnicas y estratégias. Barcelona: Paisós Pepeles de Comunicación, 1994.

* Ana Luiza Braga – Aluna do curso de graduação de Psicologia, da Pontifícia Universidade Católica – PUCSP, 5º semestre. Ruth Gelehrter da Costa Lopes – Supervisora Atendimento Psicoterapêutico à Terceira Fase da Vida. Profa. Dra. do Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia e do Curso de Psicologia, FACHS. E-mail: [email protected]

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