Gerontologia e copyleft

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Estamos em um período de muitas mudanças, um novo ar no tempo. Em toda a parte se fala em longevidade, novas experimentações tecno-científicas pelas pessoas que vivem mais (ou em favor delas), novas propostas de cuidados àquelas de saúde comprometida por patologias sérias;

Flamínia Manzano Moreira Lodovici Elisabeth Mercadante *

 

gerontologia-e-copyleftvê-se o início de um debate frutuoso, sobre o envelhecer e a velhice, por especialidades independentes, mas que buscam sintonizar-se para explorar, de forma conjunta, interdisciplinar, a situação histórica da vida, com foco maior na velhice. Sua formulação, porém, requer um modo de trabalho muito sério, à

medida em que se pretende operar sem que se recorra a noções, entidades já estabelecidas, as quais, por um certo comodismo no ponto de partida das reflexões, via de regra, não são interrogadas, tais como o objeto específico da gerontologia, o método mais adequado para se lidar com a complexidade da questão gerontológica etc.

Este volume 15(2) de nossa Revista Kairós Gerontologia traz resultados de pesquisas em andamento que evidenciam algo de um novo esperado nesta área do conhecimento. Um novo que é levado ao ar, como é de praxe nas revistas publicadas pelo SEER/PUC-SP, no formato copyleft (“deixar copiar”), livre em favor da diversidade produtiva – um ato de generosidade de autores, pareceristas, editores e unidades institucionais, que convida os leitores ao diálogo em forma de réplicas e

tréplicas com os autores contatados através de seus e-mails, e à criação ou debate intelectual a partir do que aqui é divulgado.

O primeiro trabalho da área da Enfermagem interdisciplinarmente à questão da velhice, recebido de Portugal, da pesquisadora Maria Irene Lopes Carvalho, trata dos Cuidados Paliativos, problematizando essa noção que diz de uma minoração do sofrimento humano, e o que está sendo oferecido, e sob que orientação teórico- metodológica, em âmbito europeu, como formação e educação nessa especialidade. Destacando pontos importantes a esse respeito, a argumentação dos autores a respeito da atualidade e pertinência da problemática:

A noção de cuidados paliativos tem vindo a ser alterada ao longo dos anos a par do aumento das doenças crónicas e terminais e da evolução científica. Em 1990, a OMS definiu o conceito, enfatizando a dimensão curativa neste tipo de cuidados e, em 2002, a mesma entidade redefiniu-o, perspectivando-o como uma abordagem que melhora a qualidade de vida dos doentes e das famílias que enfrentam problemas associados a doenças que constituem risco de vida, através da prevenção e alívio do sofrimento pela identificação precoce, avaliação e tratamento rigoroso da dor e outros sintomas, integrando suporte psicossocial e espiritual. (2012: 5).

O segundo artigo, da área da Psicologia ligada à questão da velhice, vindo da Universidade Mar Del Plata, Argentina, sob o título “Análisis de las Representaciones Sociales sobre la Vejez en Políticas Públicas que incluyen práctivas corporales para adultos mayores: los casos del Plan Nacional de Deporte y los Juegos Deportivos, Buenos Aires, La Provincia, de Debora Di Domizio, faz a análise das propostas subjacentes a uma série de discursos que tratam da implementação de Políticas Públicas ligadas às práticas corporais, visando a uma boa longevidade para as pessoas.

O terceiro artigo, advindo da área interdisciplinar da Enfermagem e Gerontologia, intitulado “Fitoterapia: uma tecnologia de cuidado proximal comunitária à pessoa idosa e sua família – práticas populares aliadas aos conhecimentos científicos”, sob responsabilidade da Prof.a Dr.a Luzia Wilma Santana da Silva e alguns de seus orientandos dos Grupos de Pesquisa da UESB, como resultados de estudos apresentados de forma feliz no I Congresso Latinoamericano de Gerontología Comunitária, em Buenos Aires, Argentina em novembro/2011, que afirmam “a importância de aliar o saber popular e científico na promoção da saúde, e da ação conjunta entre profissionais de saúde e família na abordagem da Farmácia Viva – SUS – no tratamento de feridas”.

O quarto artigo sob o título “A Epidemiologia do envelhecimento: dinamização, problemas e consequências”, da Universidade Federal do Piauí, é resultado de pesquisas de um grupo de estudiosos de várias áreas do conhecimento em trabalho conjunto. Esta pesquisa mostra resultados muito concretos de um cotidiano fragilizado, e, acima de tudo, resultados preocupantes devido ao grau de insalubridade e precários hábitos de higiene, da população idosa da cidade de Parnaíba, no Piauí, destacando que as condições de vida fragilizada e não-orientada desses idosos os tornam suscetíveis ao agravamento de suas patologias. Essas conclusões de ordem local aplicam-se às de outros municípios em situação similar no país, sendo imperiosa, nos termos dos próprios autores, “a necessidade de se reformularem os serviços de saúde existentes em algumas regiões do Brasil, para que possam responder às demandas emergentes, uma vez que o conceito de saúde é definido como um bem-estar completo e não meramente ausência de doença (World Health Organization, 2000).

O quinto artigo recebido da UCBrasília, de título “O sujeito idoso na vida religiosa consagrada”, de Eder D ´Artagnan Ferreira Guimarães e Vicente Paulo Alves, da UCB, foca a velhice vivida no espaço religioso institucional, investigando a subjetividade desses religiosos idosos.

O sexto artigo, vindo de Brasília (DF), de título “A identidade social do idoso e as relações de trabalho: a realidade por trás das salvaguardas legais”, de Aline Hack Moreira, foca a velhice no mundo sócio-jurídico quando, para além das salvaguardas de Estado, levanta-se a questão do “pertencimento” a novos grupos sociais ou comunitários como via de manutenção da qualidade ativa da vida de uma pessoa que se afasta do universo laboral.

O sétimo artigo, vindo das Faculdades Integradas Teresa D ´Ávila, de Lorena (SP), de título “Perfil de cuidadores de idosos com Doença de Alzheimer”, da pesquisadora Claudia Lysia Oliveira de Araújo e suas orientandas de TCC, Janaína França Oliveira e Janine Maria Pereira, mostra que “os impactos e desafios a um cuidador de idoso com D.A. são complexos e com consequências preocupantes à relação idoso-cuidador e à própria vida do cuidador, o que mostra a imperiosa necessidade de se encontrarem vias para solucionar a problemática dessas relações”.

O oitavo artigo, vindo da UFPA, de título “Cuidador de idoso doente crônico e suas dificuldades”, de Diana Abreu Gurgel, Francine Pinto de Azevedo Oliveira e Heli da Silva Araújo Salles, tenta traçar o perfil do cuidador de idoso doente crônico e conhecer as dificuldades enfrentadas na atenção dada aos idosos no cotidiano.

O nono artigo, vindo da UnBrasília-Ceilândia, de título “Apoio financeiro oferecido por avós a netos adolescentes”, de Alessandra Ribeiro Ventura Oliveira e Margot Gomes de Oliveira Karnikowski, trata da relação entre avós e netos adolescentes com foco nas diferentes formas de apoio financeiro oferecido por esses avós. Relação entre ambos os sujeitos em que, muitas vezes, o apoio financeiro assume papel importante, sugerindo compor um estilo de exercer a avosidade.

O décimo artigo, vindo da UCBrasília, de título “O lugar dos avós na configuração familiar com netos adolescentes”, de Alessandra da Rocha Arrais, Katia Cristina Tarouquella R. Brasil, Carmen Jansen de Cárdenas e Luisa Lara, considera a realidade das novas configurações familiares e da presença expressiva dos idosos nas famílias brasileiras, sugerindo que estes também sejam lembrados ao se falar em pessoas que podem oferecer suporte e apoio ao adolescente, bem como na sua necessidade de também receberem apoio na função substitutiva.

O décimo-primeiro artigo, vindo da Universidade São Judas Tadeu, da capital paulistana, de título “Influência da dança no aspecto biopsicossocial do idoso”, de Gleice Branco Silva e Marcelo de Almeida Buriti, evidencia que a dança traz benefícios físicos, psicológicos e sociais para os idosos, aos permitir-lhes desenvolver habilidades novas, estender sua rede de relacionamentos, melhorar a qualidade de vida e proporcionar oportunidade de interação social, diversão e aprendizagem.

O décimo-segundo artigo, vindo da UFBauru (SP), de título “Ecologia Humana. O papel da Comunicação na qualidade de vida da pessoa idosa: considerações sobre Corpo e Mente na Terceira Idade”, de Pedro Celso Campos, destaca a contribuição dos processos comunicacionais para um envelhecimento saudável, relacionando Comunicação, Saúde e Terceira Idade. Chamar a atenção dos estudantes de jornalismo para essa pauta cada vez mais presente do envelhecimento demográfico, visando, ainda, a contribuir com a superação de potenciais conflitos intergeracionais resultantes do envelhecimento populacional.

Esperamos que a disponibilização copyleft de tão novos e alvissareiros resultados possa entusiasmar os leitores e levá-los ao debate, aqui neste espaço editorial, a respeito das temáticas ora tratadas com tanto entusiasmo por seus autores.

* Flamínia Manzano Moreira Lodovici (flalodo@terra.com.br) e Elisabeth Frohlich Mercadante

(elisabethmercadante@yahoo.com.br), são editoras da revista Kairós, da PUCSP.

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