‘Gatilho’ para elevação da idade de aposentadoria e os cenários da longevidade

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Quem, um dia, imaginou relacionar a palavra “gatilho” com aposentadoria? Talvez, nem em sonho pensássemos numa possibilidade que, a primeira vista, nos pareceria bizarra, até porque o que sempre vem a mente são os planos econômicos anteriores relacionados a gatilho de preços ou gatilho salarial.

 

 

gatilho-para-elevacao-da-idade-de-aposentadoria-e-os-cenarios-da-longevidadeMas agora é diferente, falamos numa proposta real e necessária cuja sugestão foi feita durante a divulgação do quarto capítulo do Relatório sobre a Estabilidade Financeira Global, que trata do impacto financeiro – para os países, empresas e indivíduos – do aumento da longevidade.

Laura Kodres, chefe da Divisão de Estabilidade Financeira do FMI, argumenta: “Enquanto todos concordamos que viver mais é uma coisa boa, isso também representa um risco, porque podemos ficar sem dinheiro na aposentadoria”.

O vice-diretor da Divisão, Erik Oppers explica: “Não basta aumentar a idade uma vez e ficamos por isso. É um processo dinâmico: as pessoas continuam a viver mais, cada vez mais. Não se trata apenas de aumentar a idade uma vez, é preciso continuar aumentando”.

Na verdade, Oppers recomenda que os países elevem a idade de aposentadoria proporcionalmente ao aumento da longevidade: “Isto pode ser um processo difícil do ponto de vista político, mas se houver uma regra que institua uma mudança automática proporcionalmente à longevidade, (os políticos) não teriam de revisitar o tema”.

Não ignoremos os riscos que um processo acelerado de envelhecimento como esse pode causar. Governantes e equipes, fiquem atentos com suas políticas adormecidas, porque os longevos estão aí e crescem numa PG (uma progressão geométrica crescente é toda progressão geométrica em que cada termo, a partir do segundo, é maior que o termo que o antecede).

O relatório menciona que o remédio é amargo: “Compensar os efeitos dos riscos da longevidade requer uma combinação de elevação na idade da aposentadoria (seja estatutária, seja voluntária); maiores contribuições para planos de aposentadoria e uma redução dos benefícios pagos”.

Segundo os analistas do FMI, “se para os países ricos o ‘peso’ das aposentadorias é maior – porque a proporção da população mais velha é maior – nos emergentes o tema é cada vez mais importante”.

Laura Kodres observa que “muitos dos novos trabalhadores que engrossam o mercado formal em países emergentes não faziam parte inicialmente de um sistema previdenciário, nem todos os custos das suas aposentadorias são transferidas para terceiras partes”. Com isso, “são os próprios indivíduos que, sem a cobertura de planos corporativos ou a rede de previdência do governo, têm de arcar com os próprios custos do envelhecimento”.

Dificuldades

A dificuldade de implementação de novas medidas, começa desde a questão técnica (criação de lógicas matemáticas) até a aceitação por parte da população, evidente quando se observam as reações às mudanças. França e Grã-Bretanha reagiram violentamente ao aumento das idades mínimas de aposentadoria levando milhares de manifestantes às ruas. No Brasil, a crise é clara, mas as manifestações ainda são veladas: “o déficit da previdência do setor público já foi chamado de bomba-relógio”.

Cenários

Muitos são os países com seus altos índices de cidadãos centenários. A Inglaterra tem seu contingente assegurado. Portugal não fica para trás. Segundo a reportagem “Portugueses com mais de 100 anos triplicaram na última década”, as hipóteses de viverem mais anos são boas, mas há naturais receios de uma degradação da qualidade de vida.

O instituto de estatística inglês prevê: “um em cada três bebés nascidos este ano no Reino Unido pode chegar aos 100 anos. Sugestivamente intitulado Quais são as hipóteses de sobreviver até aos 100 anos, o relatório do Office for National Statistics (ONS) prevê também que mais de 95 mil pessoas que atualmente têm 65 anos têm grandes probabilidades de celebrar o seu 100.º aniversário em 2047. O número de centenários deverá, aliás, aumentar 40 vezes nos próximos 50 anos, de acordo com o documento, citado pelo The Telegraph”.

Parece assustador e, de fato é, quando se pensa que esse pode ser um fenômeno descontrolado, não planejado e que oferece riscos na manutenção da boa qualidade de vida dos indivíduos. Segundo números divulgados na semana passada relacionados às taxas de mortalidade, “as mulheres têm mais hipótese de soprar 100 velas do que os homens”.

Os especialistas avisam: “Maior longevidade não é, todavia, sinónimo de saúde e maior qualidade de vida, avisam os especialistas”. Tal afirmação pode causar surpresa, mas trata-se de uma realidade não admitida por muitos.

David Sinclair, diretor do Centro Internacional de Longevidade britânico, citado pelo The Guardian adverte: “o futuro pode significar isolamento social, à medida que perdem amigos e familiares, e isolamento físico, se a saúde piorar e ficarem encurralados em casas não adaptadas às suas necessidades”.

Ele ainda acrescenta: “A possibilidade de tantas pessoas vieverem mais tempo é obviamente uma boa notícia, mas há aqui um grande ‘mas’. Os actuais centenários são pouco representativos, em vários sentidos. São pessoas que escaparam ao cancro, as tromboses e, assim, são mais saudáveis do que muitos mais jovens. O problema reside em vivermos mais tempo, mas em piores condições de saúde e sozinhos em casas pouco adequadas. Outro problema é que somos péssimos em planear o futuro. Não vejo sinais de que estejamos a pensar em medidas para lidar com este fenómeno”.

Maria Filomena Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia alerta: “É preciso perceber qual é o cenário que os especialistas utilizam”. Este crescente de centenários, segundo ela, “será verdade ou não em função das hipóteses e dos cenários. Se as pessoas viverem com qualidade de vida, será óptimo. Se não, será complicado. A sociedade terá, entretanto de se adaptar a outro modelo etário”.

Jorge Malheiros, do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa pergunta: “Fazer projecções da esperança média de vida com base numa tábua de mortalidade e nas condições actuais é uma coisa. E, se se agravarem as condições ambientais, como a temperatura, a subida do nível médio das águas do mar, a degradação dos suportes de bem-estar, nomeadamente alimentar?

Condições ambientais, aumento da longevidade e aposentadoria: pontos que valem uma profunda reflexão.

Referências

CAMPOS, A. (2012). Portugueses com mais de 100 anos triplicaram na última década. Disponível Aqui. Acesso em 15/04/2012.

UCHOA, P. (2012). FMI sugere ‘gatilho’ para elevação da idade de aposentadoria. Disponível Aqui. Acesso em 15/04/2012.

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Redação Portal do Envelhecimento

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