Futuro do passado e do presente

Quando não possuímos aparatos de fé, uma religião para nos assemelhar ao criador e nos fazer eternos, o futuro poderá ser encarado como encontro único com a finitude, o caos, a falta de lógica da vida, o medo. Pois, é por lá, onde está construída a inevitável e não contraditória residência da traiçoeira, oportunista e necessária morte.

Alcides Freire Melo * Texto e Fotos

 

futuro-do-passado-e-do-presenteNão é no fim do mundo onde existe uma estação temporal. Uma estação sem movimento, sem vida, sem tempo, luz, calor, sol ou escuro. Sem prazo para começar. Sem tempo para acabar. Sem fim, sem começo. É assim o futuro. A “estação futuro”, longa, indomada e desregrada estação, a última de nossas vidas, talvez. Futuro é espaço, tempo que nunca existiu e não existirá. Nunca! Talvez. A condição para a quebra deste conceito seria colocarmos muitas vidas naquele “lugar”. As nossas, principalmente, e toda a nossa idade matemática: 5, 10, 70, 80 anos que já viveram nossos corpos. Aceitação da morte seria a maior de todas as condições. Sem esta última condição. Nada sobreviverá como desejamos, sonhamos, oramos.

Quando não possuímos aparatos de fé, uma religião para nos assemelhar ao criador e nos fazer eternos, o futuro poderá ser encarado como encontro único com a finitude, o caos, a falta de lógica da vida, o medo. Pois, é por lá, onde está construída a inevitável e não contraditória residência da traiçoeira, oportunista e necessária morte. Pior, quando por descuido, ou traição ela, a morte, lambe lâminas mortíferas, foge do futuro e chega ao presente, trapaceia e suborna a vida, para destruir todos os tempos, todas as datas, propostas, paixões; transforma quase tudo em saudades. Quebra paradigmas e deixa tudo para continuarmos vivos aos cuidados do passado, das memórias e das lembranças.

O futuro só poderá existir, ser vivido, virar presente e materializado se conseguimos trazer do passado, todos os nossos tempos desperdiçados e nossas várias formas de vida. As histórias traumáticas, as lágrimas alegres e as que doeram ao saírem de dentro da alma, levando pedaços dela, seriam uma referência. Os carrinhos de brinquedo que puxamos nas pistas de corridas da nossa infância. O cheiro de bolo de milho.

A primeira paixão, a falta que senti de ti, o alívio que te dei. O que parecia ser sobra, eram excessos. O que perdeu o valor, o cheiro, o paladar. O que nunca saiu de nossas bocas. Quem, por uma vida inteira sonhamos em beijar, pegar, fechar uma porta, juntos. O que ainda cheira. O que foi traição. Quem nós traímos, negamos, enganamos. Quem nos alimentou de tesão, por uns meses.

futuro-do-passado-e-do-presenteMuito bom levar para compor o futuro, quem gelou nossa alma, aqueceu nossos corpos. Tirou nosso fôlego, alterou nossos batimentos cardíacos, pressão sanguínea e depois… quietamos. Quem “jurou” nos odiar para sempre ao final de um ciclo, um conto pessoal. Quem prometeu nunca nos esquecer ao “primeiro” amanhecer de todos os dias. Quem nunca esquecemos quando anoiteceu a “última” de muitas eternas noites solitárias. Todas as juras e promessas que ouvimos as que choramos juntos por não podermos mais jurar.

Um canivete, meu relógio mecânico suíço que recebi de presente do meu irmão e, ele, claro: meu livro. Uma 12, dois canos, para quando decidir morar no Sítio, criar galinhas, plantar tomates e pimentão. Uma moto Trail. Muita lenha pra queimar no fogão. Encontrar com meu grande amigo que chega sempre com uma garrafa de vinho e um charuto cubano. Dar risadas e falar que estamos no “futuro”, comemorar porque que deu tudo certo. Eu, também, confirmado como bagagem de uma grande história vivida.

As fugidas de moto para tomar sorvetes pelas madrugadas. Os Alpes gelados, um olhar. Minha bicicleta “Catirina”, sem freios. Outro Saint Émilion, em Paris, dúzias de Czechvar Premium, em Praga, República Tcheca. Uma viagem de 15 mil Km de Fortaleza – CE até Buenos Aires, Argentina. A mesma companhia para todas estas aventuras. Uma câmera fotográfica. A filha Isadora; o filho Rafael.

* Alcides Freire Melo – Repórter fotográfico e cronista em diferentes periódicos. No Portal do Envelhecimento colabora com crônicas e fotos. Email: alcidesfreiremelo@gmail.com

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