Fragilidades na Velhice, que nome é esse?

O curso “Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento” reconhece que fragilidades, doenças, limitações, existem nesta dimensão da vida, entretanto não é único destino de nossas velhices.

Por Lucio Guilherme Ferracini  (*)

 

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño.

(Julio Numhauser)

O título em si revela sua provocação. A velhice caracteriza-se por fragilidades? Em busca de uma resposta, a Gerontologia Social apresentada no curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento (1), desvela uma Velhice como caminho existencial, sem reduzi-la exclusivamente a definições patológicas. Tornar-se Velho, sim, Velho é destino de um percurso da e na Vida, buscando sua livre expressão, sua maneira de ser no mundo, sua subjetividade, sem modelos preestabelecidos que enquadram de forma rígida quem será saudável ou não.

Recentemente, li um cartaz fixado num elevador de um prédio residencial que tinha em sua chamada: Terceira Idade. Orientava em 4 passos como criar um ambiente seguro: Passagens livres, Organização dos remédios, Medidas para evitar quedas e Contato com rede social. Informações importantes e valiosas para o cuidado do idoso. Um pouco mais adiante no anúncio, encontra-se a seguinte frase fechando as 4 orientações: A melhor idade merece toda a atenção.

E concluindo o cartaz dá a receita:

Pronto! Mensagens como essas perpassam o nosso cotidiano, (de)formando a opinião pública. Mais 4 dicas que como Viver Sem Velhice, quando se torna…… Velho. A palavra Velho é relegada aquilo que não serve, improdutivo. Então busca-se eufemismos para dourar o termo como melhor idade, vozinho(a). O texto afirma que basta seguir esses mandamentos que tudo estará resolvido! E claro que se algo não sair como programado a responsabilidade, melhor dizendo, o CULPADO É …….Você!!!!

Está aí gerada a cultura da culpabilização e do isolamento e da perda da Autonomia.

Eu, com 46 anos, faço o exercício de inversão de papéis com o leitor do cartaz “depois dos 60 anos”.

– Deixo de ocupar o lugar como ser biográfico, autor e protagonista do palco de minha Vida com conquistas, sofrimentos, alegrias e tristezas, conhecimentos e limitações para assumir o papel de cumpridor de dicas e orientações.

Num outro extremo, o Velho passa a ser convocado como personagem do sábio, deve ser aquele que tem todas as respostas!!!!

Madre Cristina, educadora, psicóloga, criadora do Instituto Sedes Sapientiae, que serviu com espaço para resistência à ditadura, com participação ativa no processo de redemocratização do país, portanto uma Sábia e que deixou um legado para as gerações seguintes, como a minha, em conversa com o psicólogo Paulo Maldos, disse:

– Sabe de uma coisa Paulo? Eu sempre vi os velhos, quando era nova 19, 20 anos, estudante, curiosa em relação a tudo. Sempre olhava para os velhos de cabeça branca, aquele aspecto de velhice calma. Sempre via com muita profundidade, muito conhecimento do mundo, muita sabedoria, muito domínio de tudo, muita paz. Como que reconhecia o mundo e sabia falar de tudo, eu admirava e tinha muito fascínio e queria um dia chegar lá e ser uma velha, uma idosa. E agora, eu estou velha e me sinto igual a quando eu tinha 19 anos, sem nenhuma profundidade que eu via nos velhos.(2)

Ela era uma eterna aprendiz. Manteve algumas perguntas sem respostas, viveu uma vida que não resulta em idealizações, mas como algo que está por vir a cada instante, construída de sonhos, devaneios, reflexões, ousadia e muita ação. A vida não pode ser totalmente prevista e antecipada

O Curso “Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento” reconhece que fragilidades, doenças, limitações, existem nesta dimensão da Vida, entretanto não restringe com única condição ou percurso final. Que possamos existir sem as dissimulações dos eufemismos ou superlativos, livres de padronizações excessivas cerceadoras da capacidade espontânea-criativa de tornarmos velhos a cada dia. Que as cores dos cabelos, a pele, o vigor e inclusive as fragilidades dos Velhos tenham espaço, não tendo os jovens como modelos de referências, até porque tudo cambia, que yo cambie no sea estraño.

Notas

(1) Ver ministrado pelo Cogeae (PUC-SP), no primeiro semestre de 2018.

(2) Trecho extraído do vídeo documental: Memória da Psicologia – Madre Cristina, publicado em 16 de Março de 2011, pelo Conselho Federal de Psicologia. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UwXcTIqwUe0. Acessado em 20/02/18.

 

(*) Lucio Guilherme Ferracini – Graduado em Psicologia, especialista em psicologia da saúde/hospitalar, psicodramatista e mestre em ensino das Ciências em Saúde. Atua como psicólogo no hospital Premier em cuidados paliativos com pacientes, familiares e equipe; professor e supervisor na Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama e psicoterapeuta individual e grupal. Texto escrito para o curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, ministrado pelo Cogeae (PUC-SP), no primeiro semestre de 2018. E-mail: lucio_guilherme@uol.com.br

Foto de destaque: eberhard grossgasteiger – Itália

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