Fogo Cruzado: 21 idosos vítimas de bala perdida em 2021 no RJ

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São 10 vítimas de balas perdidas por mês no Rio de Janeiro em 2021. Dessas, 23 morreram e mais de 80 ficaram feridas; 5 são crianças e outras 5 adolescentes. Já os velhos, o número é 4 vezes maior, 21 no total, para os quais a mídia está se lixando.


Seu Josias, 78 anos, diz gozar de boa saúde, mas teme morrer a qualquer momento, mora em Vigário Geral e, para se locomover, usa muletas, tem medo de fraturar a perna boa e mais medo ainda de bala perdida. Apegado à vida, especialmente depois do nascimento dos bisnetos, que o ensinaram a como se atirar no chão sem se quebrar, seu Josias conta nos dedos as vítimas de balas perdidas na região, em 16 de outubro foram mais dois conhecidos em Vigário Geral.

A dificuldade de locomoção não o impede de se exercitar, caminhar pelas vielas da comunidade. O médico diz que não pode se acomodar. Ficar parado em pouco tempo o tornará dependente. Nesse caso é melhor morrer, pois nenhum membro da família tem condições de cuidar dele.

Todos os dias, antes de sair de casa, abre o aplicativo de celular do Instituto Fogo Cruzado para checar se há tiroteios na região. O instituto recebe e mapeia informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que ficam disponíveis no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina. Mas tiroteios acontecem de repente, e quem tem mobilidade reduzida, como é seu caso, tem sorte quando encontra um local para se abrigar depois que os pipocos explodem por todos os lados.

O tiro que o fez perder a perna anda com ele pra cima e pra baixo. Mas anda, porque por alguns meses não andava. Foram tantos os nomes que deram ao tiro que nem sabe explicar direito. Depressão, ansiedade e estresse pós-traumático foram alguns deles. Vontade de sair, caminhar, havia só na cabeça, porque o corpo não concordava e se insistia a perna boa tremia como vara verde. Para disfarçar, tinha que andar o tempo todo ou se sentar assim que o corpo exigia descanso. Não podia ficar de pé para o nome Treme-Treme não pegar. Mas pegou como fogo em palha. Crianças e adolescentes, principalmente, adoravam o novo nome, Treme-Treme, mais que Aleijado com o qual até já havia se acostumado. Mas reagiu, firmou a perna e até já chutava bola e fazia embaixadinhas, apoiado nas muletas novas, claro, que ganhou no centro espírita. Voltou a ser respeitado, afinal, comparavam-no a um sobrevivente de guerra, pois estresse pós-traumático não é para qualquer um.

Não foi só o tiro que o fez perder a perna, se a viatura não tivesse passado por cima, especulam os médicos, talvez estivesse ainda com as duas em dia. Quando estava se acostumando à nova vida de saci amuletado, outro tiroteio. Caiu das muletas e torceu um pulso. Luxação simples. Mas com ela veio a Síndrome do Pânico e andar sozinho passou a ser um tormento. Bastava ver um carro de polícia para travar, o suor escorrer, a fala falhar, o coração batucar, a vista anuviar, o mundo escurecer. Um disparo, mesmo de bombinha, um traque que fosse, o corpo não queria saber, travava sem prévio aviso e a sensação era de morte. Precisou de terapia e do grupo de apoio para seguir em frente. Novamente encontrou conforto no centro espírita para botar os cambitos no rumo do futuro.

Hoje, voluntariamente, colabora com o Instituto Fogo Cruzado e é uma das pessoas mais bem informadas da comunidade. Ouviu um disparo, manda mensagem para o Instituto, assim, sente-se útil. Aproxima-se da cena do crime, como um repórter em ação, e se há vítima de bala perdida ou vítima de confrontos, que nunca são confrontos de verdade, relata em primeira mão com o máximo de informações que consegue colher. Algumas fontes já o procuram para noticiar antes mesmo que consiga se aproximar. Nome e idade das vítimas de balas perdidas, endereços residenciais e um breve resumo da operação nunca planejada. Para tudo, menos balas e orações. Ruas fechadas, transporte público fora de circulação, trabalhadores parados, vidas perdidas, prejuízos de montão. Não é à toa que 92% dos moradores do Rio de Janeiro o que mais temem é tiroteio e, consequentemente, balas perdidas.

Quem quer notícia fresquinha fala com o Aleijadinho, nome que o agrada mais do que Treme-Treme. Em 2021, diz com os dados na ponta da língua, são dez vítimas de balas perdidas por mês no Rio de Janeiro. Dessas vítimas, que já passa de uma centena, 23 morreram e mais de oitenta ficaram feridas, todas com sequelas graves, físicas ou mentais. A mídia gosta de destacar as criancinhas. É mesmo uma judiação vê-las morrer tão cedo. Portanto, cinco vítimas dessa violência são crianças e outras cinco adolescentes. Já os velhos, idosos com mais de 60 anos, para os quais a mídia está se lixando, o número de vítimas de balas perdidas é quatro vezes maior, 21 no total, sendo 12 apenas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Esses dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública no qual seu Josias anda sempre ligado.

E por falar em andar, acaba de ganhar uma prótese intermediada pelo centro espírita, feita em fibra de carbono, e está reaprendendo a andar equilibrado em dois cambitos e não mais em três. A novidade se espalhou rapidamente e outro dia, ao se aproximar de mais uma cena com vítima de bala perdida, um policial, sem mais nem menos, passou-lhe uma rasteira e danificou a perna postiça.

Seu Josias segue de muletas, mas de olho no futuro e no aplicativo do Instituto Fogo Cruzado para manter-se atualizado e atualizar a comunidade sobre as vítimas de balas perdidas.  

Em tempo: Na ação ocorrida no último domingo (21/11) pela Polícia Militar no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ) mais uma idosa foi vítima, Carmelita Francisca de Oliveira, de 71 anos. Com ela, já são 25 idosos baleados na Região Metropolitana do Rio em 2021, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado: nove deles morreram.

Foto destaque de Kat Smith/Pexels


 

Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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