Finitude e morte: certezas negadas

A reflexão sobre finitude e morte se faz tanto mais necessária quanto mais evitada; no caso de trabalho ou de relação (profissional ou pessoal) com muitos idosos, com pessoas em estado terminal, ou com pessoas que enfrentam diagnósticos definitivos, a evitação talvez cause mais sofrimento que benefício aos envolvidos.

Maria Helena Villas Bôas Concone *

 

finitude-e-morte-certezas-negadasOs temas deste número da Revista Kairós Gerontologia pareciam determinados a submeter a publicação a pressões opostas: de um lado estavam os muitos textos e propostas de textos que nos chegavam de muitos autores e abordagens diversas, demandando mais que nunca o trabalho de colaboradores nos processos de avaliação; de outro, foram as nossas dificuldades (técnicas e de pessoal para levar adiante e agilmente a empreitada) e as inevitáveis delongas. Se o afluxo de artigos mais que deixava claro o interesse e a oportunidade da proposta da revista, os atrasos involuntários pareciam confirmar a face de evitação/negação dos temas da finitude e da morte.

De fato, nos parecia necessária a eleição desses temas para reflexão por razões óbvias, sobretudo quando envolvida num Mestrado em Gerontologia: a reflexão se faz tanto mais necessária quanto mais evitada; no caso de trabalho ou de relação (profissional ou pessoal) com muitos idosos, com pessoas em estado terminal, ou com pessoas que enfrentam diagnósticos definitivos, a evitação talvez cause mais sofrimento que benefício aos envolvidos.

O velho ditado “Em casa de enforcado não se fala em corda” pode ter suas justificativas, mas há que ter tato e bom senso; não é uma “mezinha” universal. Sempre me pareceu (não me coloco fora disso) que boa parte dos humanos se pensa imortal ou pelo menos não mortal (uma variante humana indeterminada), na medida em que a morte e o morrer são empurrados para o fundo do inconsciente só se impondo à consciência em situações extremas.

A morte pode ser pensada intelectualmente, tornada objeto de especulação filosófica ou religiosa ou literária; transformada em objeto de investigação antropológica, sociológica ou outras; pode ser pensada em números ancorando questões epidemiológicas e análises populacionais; objetivada em recortes de gênero, classe, idade, etnia; especificada em causas e causas ligadas a cada um dos recortes acima.

Enfim, somos capazes de pensar a morte “em si”, a dificuldade é pensar a morte “para si” – como já afirmei em outro número desta revista. Somos em tese… imortais, cada um de nós. Isso é bom, se nos permite quotidianamente viver, marcando os nossos compromissos para a semana, o mês, o ano, como senhores do tempo; mas é ruim, se nos impedir de viver intensamente dando o devido valor às pessoas, às relações, às coisas, aos compromissos, ao tempo.

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* Maria Helena Villas Bôas Concone é doutora em Antropologia. Docente dos Programas de Ciências Sociais e de Gerontologia da PUC-SP.

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