Ficamos cada vez mais velhos, mas os preconceitos continuam

Estamos mais velhos e precisamos mudar o olhar sobre o envelhecimento, pois os estereótipos limitam excessivamente as nossas expectativas quanto às atitudes e comportamentos dos outros, uma vez que escondem diferenças individuais, fazendo com que não haja uma avaliação precisa de determinada pessoa.

Gabrielle Marie do Prado Simonasssi (*)


Com o processo de envelhecimento humano sendo cada vez mais longo, o aumento da população com mais de 60 anos cresce a cada censo, resultando em demandas individuais e sociais. Com base nesse cenário, e no aumento da expectativa de vida, pode se afirmar a necessidade de mudarmos o olhar sobre o envelhecimento. Dando conta das particularidades categorial com que temos tratado estas questões, e dos múltiplos envelheceres (QUARESMA, 2009).

De acordo com os estudos relacionados ao aumento da expectativa de vida, o envelhecimento é um processo pelo qual todos os seres vivos passam ao longo de todo o curso da vida, já a velhice é uma fase e/ou etapa de vida que pode ser caracterizada pela idade. A velhice, como etapa da vida, depara-se ante dois fatores marcantes: um referente aos estudos no campo da saúde e outro referente à aposentadoria.

Na cultura oriental, grosso modo, o envelhecimento é visto de forma positiva, porque há uma representação de sabedoria e valorização das experiências individuais e culturais dos idosos. Já na cultura ocidental, industrial, o envelhecimento é geralmente visto de uma maneira negativa, carregado de estereótipos e muitas vezes reduzido ao período de aproximação da morte por doença, sofrimento e abandono/solidão (SCHNEIDER; IRIGARAY, 2008).

Ainda na cultura ocidental há diversos termos usados para se referir à fase da velhice tal como “maturidade” que se refere a uma etapa de desenvolvimento do corpo ou como o curso de mudanças ocorridas nos organismos vivos. Também podemos pensar nas conquistas de papéis sociais e de comportamentos considerados próprios ao adulto mais velho (NERI; FREIRE 2000). Por outro lado, a maturidade pode ser observada de modo distinto a depender do sexo e gênero das pessoas.

Atualmente, o processo do envelhecimento é objeto de várias pesquisas no mundo. No Brasil, tem deixado de ser apenas uma preocupação da saúde e socioeconômica, tornando-se uma preocupação de várias áreas da ciência pelas necessidades e exigências do mundo que envelhece, considerando-se o meio em que vivem, seja o espaço público ou seu domicílio.

Com isso, muitos estudos vêm assinalando cada vez mais a importância da heterogeneidade da velhice e do envelhecimento segundo idade, gênero, condições econômicas, saúde, etnia e tipo de residência. É claro que a experiência pessoal sobre essa etapa da vida está intrinsecamente ligada à experiência de outros, afinal, somos seres sociais (CÔRTE; MEDEIROS, 2009).

Estereótipo e velhice

A cultura popular, o cinema, a publicidade, as comunicações da grande mídia e as organizações políticas e religiosas também são uma gama de lugares de aprendizagem (DA SILVEIRA, 2012). Essas esferas produzem imagens e saberes sobre a velhice que operam como dispositivos pedagógicos (DOLL, 2015), subjetivando os sujeitos e produzindo modos de identificação e compreensão de si e do mundo. As imagens orientam expectativas, valores, percepções e comportamentos, produzindo saberes e identidades por meio dos discursos que elas colocam em circulação.

A partir da origem da palavra “stereó” + “týpos”, estereótipos são ideias fixas e duradouras que se apresentam como verdades indiscutíveis (TRINDADE, 2016). Portanto, os estereótipos tratam-se de um conjunto de crenças que simplificam a realidade por meio de esquemas mentais que distorcem e generalizam características (sejam elas positivas, negativas ou neutras) de determinados grupos de pessoas ou objetos. Sendo assim, os estereótipos limitam excessivamente as nossas expectativas quanto às atitudes e comportamentos dos outros, uma vez que escondem diferenças individuais, fazendo com que não haja uma avaliação precisa de determinada pessoa.

A formação de um estereótipo dependerá da percepção que temos de um determinado indivíduo, para que assim seja formada uma impressão do mesmo que será categorizada. A partir disso, através de associações entre as características do indivíduo e as de grupos sociais que achamos semelhantes, serão agrupadas numa só ideia simplificada que nos permitirá conhecê-lo e saber o que dele podemos esperar.

Desse modo, as categorizações que criamos a partir de nossas impressões contribuem para a criação de falsas expectativas em referência a determinada pessoa, consequentemente atribuímos características de grupos sociais a indivíduos e criamos expectativas relativamente às atitudes dos outros (TRINDADE, 2016).

Butler é um dos estudiosos pioneiro no tema, e descreve sobre os estereótipos etários negativos. Sendo estes como um preconceito relativo às pessoas com base na sua idade. Seus estudos relatam que o estereótipo desencadeia práticas discriminatórias e favorece o isolamento das pessoas idosas. Também, desenvolve a adoção de definições negativas pelos próprios idosos, reforçando crenças sociais. Até então no Brasil o termo utilizado para nomear os estereótipos etários negativos é o idadismo. Entretanto, o pesquisador Jorge Félix desenvolve um trabalho sobre esse tema, e traz o termo idosismo para melhor conceituar os preconceitos que a fase da vida da velhice carrega.

Algumas considerações

Sobre a idade cronológica de uma pessoa inserida em uma sociedade, esta pode ser como um marcador de sua identidade. O que precisa ser valorizado é o seu discurso, e o que se relata sobre todo o seu processo ao envelhecer, na mais pura forma, heterogeneidade e diversidade.

A educação para o envelhecimento é um caminho muito valioso para desmistificar todo o preconceito e estereótipo em relação à velhice. Direito prescrito no Estatuto do Idoso (Lei Federal 10.741, de 1/10/2003) que inclui o direito à educação ao idoso e fica sob responsabilidade do Poder Público a criação de oportunidades de acesso. Seja atuando com crianças e jovens, e até mesmo diretamente com o público idoso; seja adequando os currículos, metodologias e material didático aos programas educacionais destinados a ele (SÊNIOR, 2016).

De acordo com estudos de Dewey (SÊNIOR, 2016), a educação social é a ação que tem a comunidade como referência, realizando-se na mesma. Portanto, independente do público alvo, a educação é primordial para trazer ensinamentos e trocas de experiências. A temática da Educação Gerontológica se faz de extrema importância nos dias atuais, e por este motivo, na segunda metade do século XX surgiram iniciativas de estudos sobre envelhecimento e longevidade, influenciando a criação de grupos de pesquisa, gerando novas produções e conhecimentos sobre o tema, em busca de sua consolidação conceitual e profissional (SÊNIOR, 2016).

Referências

CÔRTE, B & MEDEIROS, S. A heterogeneidade da velhice. Revista Kairós: Gerontologia, São Paulo, 12 (1), jan. 2009, pp. 13-19.

DA SILVEIRA, M.; PASQUALOTTI, A.; COLUSSI, E. Educação gerontológica, envelhecimento humano e tecnologias educacionais: reflexões sobre velhice ativa. Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento, v. 17, n. 2, 2012.

DOLL, J.; RAMOS, A.; STUMPF BUAES, C. Apresentação. Educação e Envelhecimento. Educação & Realidade, v. 40, n. 1, 2015.

NERI, A. L., & FREIRE, S. A. (Orgs.). (2000). E por falar em boa velhice. Campinas: Papirus.

QUARESMA, Maria de Lourdes. Questões do envelhecimento nas sociedades contemporâneas. Revista Kairós : Gerontologia, [S.l.], v. 11, n. 2, dez. 2009. ISSN 2176- 901X. Disponível em: <https://revistas.pucsp.br/kairos/article/view/2391/1484>. Acesso em: 05 jun. 2019.

SCHNEIDER, Rodolfo Herberto; IRIGARAY, Tatiana Quarti. O envelhecimento na atualidade: aspectos cronológicos, biológicos, psicológicos e sociais. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 25, n. 4, p.585-593, out. 2008.

SÊNIOR, Projeto Pedagógico do Programa UCS. Educação para o envelhecimento. 2016

TRINDADE, A.; BRITO, D.; CUSTÓDIO, J. Estereótipos, Preconceito e Discriminação. Instituto Educativo do Juncal. Leiria, [2016?].


(*) Gabrielle Marie do Prado Simonasssi – Formada em Bacharel em Gerontologia pela Universidade de São Paulo em 2019, estágios em serviço social e de saúde nos três níveis de complexidade. Monitora do projeto Inclusão Digital de Idosos, Oficina da Memória. Participação do Curso Introdutório à Liga Multidisciplinar de Cuidados Paliativos e da Liga de Humanização da HCFMUSP. Cursos de extensão em Estimulação Cognitiva para Idosos – módulo básico. E no de Fragilidade na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento PUC-SP. Presidente no Centro Acadêmico de Gerontologia XXIV de março – Gestão do ano 2017. Texto escrito para o curso de extensão Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em junho de 2019. E-mail: gabriellemarie00@hotmail.com


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