Ferramentas de avaliação e tratamento cognitivo em idosos: uma breve reflexão

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O envelhecimento populacional traz inúmeros desafios para a sociedade e para o Estado. As doenças crônico degenerativas são impactantes e determinantes na qualidade de vida ao envelhecer. As demências são um grupo de doenças que causam importantes morbidades e acarretam graves consequências para a vida do idoso e seus familiares. Estudos epidemiológicos indicam que a prevalência das demências pode variar de 1 a 2% em idosos de 60 a 65 anos, 20% em idosos entre 80-90 anos e pode chegar a 40% em idosos maiores de 90 anos de idade. Considerando esta alta prevalência, é de fundamental importância que profissionais engajados nas questões do envelhecimento saibam identificar e tratar o declínio cognitivo e, principalmente, criar estratégias de prevenção.

Gabriela Correia de Almeida Goldstein(*)


Atualmente os profissionais de saúde têm à sua disposição uma grande variedade de ferramentas de rastreio cognitivo e avaliação funcional que pode contribuir para o diagnóstico precoce e tratamento adequado. Essas ferramentas precisam ser desmistificadas e a pessoa idosa enferma deve ter acesso a elas de forma precoce, visando maior sucesso no acompanhamento do mesma.

MiniMental

Umas das ferramentas mais utilizadas mundialmente para rastreio cognitivo é o chamado Mini Exame do Estado Mental (MEEM ou MiniMental). Trata-se de um teste simples, que leva de 5 a 10 minutos para ser aplicado e contém questões agrupadas em sete categorias, examinando a orientação temporal e espacial, a memória de curto prazo, a evocação, cálculo, praxia e habilidades de linguagem e visão espacial. Cada categoria possui uma pontuação diferente e o score varia de 0 (maior grau de comprometimento) até 30 (melhor capacidade cognitiva). O MEEM pode ser aplicado tanto por profissionais da área da saúde como por profissionais de outras áreas e até por leigos que recebam rápido treinamento. Outra vantagem é que ele pode ser aplicado como rastreio de perda cognitiva e também para avaliação na beira do leito.

Como todas as ferramentas de rastreio cognitivo o MEEM também apresenta pontos discutíveis e que devem ser considerados por seus avaliadores como, por exemplo, a aplicação a pessoas com déficit visual e diferentes níveis culturais e educacionais. A nota de corte varia de acordo com o nível educacional do idoso, porém, existe divergência na literatura com relação a este valor. O que se pode afirmar é que o MEEM deve ser aplicado para rastrear o declínio mas deve ser complementado com outros testes auxiliares, escalas de avaliação funcional e uma avaliação gerontológica integral, que avalie não só o indivíduo mas, também, o contexto no qual ele está inserido.

Índice de Pfeffer

Uma outra avaliação que pode auxiliar no diagnóstico do idoso é o Índice de Pfeffer, que avalia as atividades instrumentais de vida diária, com score de 0 a 33, cuja maior pontuação indica maior dependência funcional. A escala é constituída por 11 questões e deve ser aplicada ao cuidador ou acompanhante do idoso.

A combinação do MEEM com o Índice de Pfeffer indica uma maior especificidade para a medida de declínio cognitivo mais grave.

Diante do diagnóstico de Declínio cognitivo, seja leve, moderado ou grave, podemos lançar mão de algumas possibilidades de tratamento que vem sendo aplicados por diversos profissionais e relatados na literatura. O objetivo dos tratamentos propostos é a manutenção da capacidade funcional, estimulação eficiente da memória e promoção de qualidade de vida do idoso. É importante ressaltar que a combinação de tratamentos é a proposta mais interessante considerando a complexidade das questões que permeiam o envelhecimento e a integralidade como modelo de tratamento.

A reabilitação cognitiva pode e deve ser composta por Reabilitação física e Terapia cognitiva. Podemos citar os exercícios físicos que envolvam não só registros verbais e visuais mas também cinestésicos e motores, relacionados à memória de procedimento e implícita, mais preservada em pessoas com Doença de Alzheimer, aplicados na prática como a caminhada, alongamentos musculares, exercícios de musculação, coordenação motora e agilidade como importante forma de tratamento de Reabilitação Física.

A terapia cognitiva que prevê melhor desempenho funcional, mental e social procura mudar padrões de pensamentos e ações para que a vida seja aceita de forma mais leve e sem desgastes desnecessários. No que diz respeito à perda de memória, ela trabalha na prevenção e estimulação, proporcionando independência e participação social. As estratégias mais frequentemente utilizadas vão de passeios à bailes, museus, cinemas, teatros, viagens, aprimoramento artístico, voluntariado e cursos.

Uma intervenção interdisciplinar, o mais precoce possível e que visa a integralidade do indivíduo e seu papel social é a proposta mais interessante no que diz respeito ao declínio cognitivo no idoso.

Estratégias preventivas

Existe um verdadeiro arsenal de ferramentas de Rastreio Cognitivo à disposição de profissionais ligados à Gerontologia. Seja para rastreio cognitivo ou de declínio funcional, o cenário real nos mostra que o desconhecimento da população em geral e, até mesmo de muitos profissionais da saúde, retarda condutas que podem influenciar a vida de muitos indivíduos idosos. O modelo ideal no contexto da Saúde prima por atitudes que antecedem os declínios, mas para isso os profissionais da saúde e mesmo a população que lida com indivíduos maiores de 60 anos deve estar ciente das ferramentas que nos auxiliam na prevenção do Declínio funcional e retardar um Declínio cognitivo, se este for detectado em estágios mais iniciais.

As estratégias preventivas em Gerontologia urgem pela sensibilização da população a respeito, não só dos Testes que devem ser aplicados de forma primária mas também dos tratamentos propostos, que muitas vezes são oferecidos e apresentam baixa adesão e absenteísmo por falta de acessibilidade e desconhecimento quanto a sua importância, reforçando um modelo de saúde voltado a “queixa-conduta” e centrado nas doenças crônicas incapacitantes, em estágios que já afetam a qualidade de vida do idoso.

(*)Gabriela Correia de Almeida Goldstein – Fisioterapeuta da Equipe NASF da Organização Social Associação Congregação de Santa Catarina (SP). Docente do Centro Universitário Ítalo Brasileiro (UNIITALO); Mestre em Ciências pela USP e pós-graduanda em Gerontologia pela PUC- SP/campus Ipiranga. Email: gabriela.correia@gmail.com

Referências

Chaves, M L F. Testes de avaliação cognitiva: Mini – Exame do Estado Mental. Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2008.

Vitielo et al. Avaliação cognitiva breve de pacientes atendidos em ambulatório de neurologia geral. Arq Neuropsiquiatr 2007;65(2-A):299-303

Esperança R L D. et al. Passeios turísticos como estratégia de prevenção e recuperação da saúde mental em Idosos. Disponível Aqui. Acesso em 16 de abril de 2013.

Ministério da Saúde – Cadernos de Atenção Básica – n.º 19; Brasília – DF; 2006 ENVELHECIMENTO E SAÚDE DA PESSOA IDOSA

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