Fernanda Montenegro, Dona Picucha e a luta pela longevidade

Dona Picucha, uma viúva de 85 anos reúne seus quatro filhos em torno de um banquete de panquecas para dar uma notícia bombástica: a empregada que cuida dela há décadas está indo embora. Depois de tamanho impacto, tem início, então, uma delicada comédia, com os filhos se desdobrando, de forma atabalhoada, para cuidar da mãe.

Luciana Helena Mussi

 

fernanda-montenegro-dona-picucha-e-a-luta-pela-longevidadePara quem conheceu a personagem, a simpática e tresloucada Dona Picucha no especial de fim de ano “Doce de Mãe”, da Rede Globo, mais uma vez se encantou com a atuação da eficientíssima Fernanda Montenegro.

Sua veia cômica é impagável e seu brilhantismo em cena nos faz querer mais, muito mais de Picucha e sua família sempre assoberbada com as improváveis maluquices da velha senhora. E que fique claro: mais disposta que eu e você, caro leitor.

A vontade de conhecer melhor Dona Picucha e seus filhos abre a possibilidade do especial/filme virar um seriado, conta o diretor Jorge Furtado: “Os personagens estão apenas indicados no filme. Há muitas possibilidades de desenvolvimento, de fazer uma série”.

Segundo o diretor, os principais envolvidos no projeto, do núcleo de Guel Arraes, dentro da Globo, estão de acordo com a ideia. “Tudo depende da disponibilidade do elenco”. Vamos torcer.

Em entrevista à imprensa no início de dezembro, a atriz falou do trabalho: “Tenho meu lado de comediante. E a Picucha tem esse lado de palhaça. Ela é descontraída, mas tem consciência da finitude dela”.

Poderíamos até dizer que Picucha dribla com muito humor a “temida”, desafia o contar dos anos e dá literalmente “uma banana” para quem acha que a idade lhe impede de viver como quer e não como “os outros” julgam e determinam melhor.

Amor ao trabalho – um impulso para a vida

fernanda-montenegro-dona-picucha-e-a-luta-pela-longevidadeFernanda Montenegro, uma mulher de 83 anos, ativa e que assim como Picucha encontrou sua forma de viver. Ela ainda vai estrear numa direção teatral e atuar em três filmes e uma novela.

Em entrevista a Mauro Ventura, a atriz comentou a velhice, o ser uma mulher “octogenária” e outras questões viventes:

— Eu me poupo desse charme de falar “não quero mais, daqui a pouco vou parar”. No máximo é um desabafo de uma tarde de verão. Fisicamente você pode até dizer “puxa, mais uma vez sair por aí afora”, mas o espírito te leva com muita alegria.

Ventura ressalta que Fernanda não celebra nem lamenta a velhice: “Como diz, nem idealiza nem deprecia a idade. Por isso, evita os extremos, seja eufemismos como ‘melhor idade’, seja palavras como ‘velho’, contaminadas pelo preconceito”.

— Melhor idade? Imagina. Você vai perdendo a audição, a visão, o paladar, sua pele vai secando. Mas é uma realidade, que vai piorar se você começar a achar que é uma desgraça. É da natureza e ponto, vamos tocar a vida.

Sobre ser uma mulher “octogenária”, Fernanda reage:

— Achei a palavra horrenda. É verdade que sou, mas que palavra brutal.

Ela acredita que o segredo para encarar o envelhecimento é encontrar um canal, “algo que alimente o ser humano”, explica Ventura. No caso dela, são dois canais:

— O primeiro é uma predisposição que tenho para a vida. O outro é ter uma vocação e realizá-la, porque ela é inarredável. Nos encontros com jovens atores, sempre digo: “Desistam. Agora, se você não conseguir se levantar mais da cama, comer e respirar, aí volte e vá fazer essa profissão.” Porque se você ficar à morte só pode voltar para viver. Mas aguente as consequências, porque é uma profissão marginal e marginalizada, e vai ser sempre. No caso do teatro, seu trabalho só existe enquanto alguém que viu você fazer estiver vivo.

Fernanda sempre menciona nas entrevistas de como é “muito pesaroso” ver as mortes em sua geração, aquela entre 80 e 90 anos, formada por atores que se “forjaram buscando personagens”.

— De uns poucos anos para cá, morreram Paulo Autran, Sérgio Viotti, Gianfrancesco Guarnieri, Sérgio Britto, Italo Rossi, Renato Consorte, Chico Anysio, Walmor Chagas, Fernando (Torres, seu marido). É uma limpeza assustadora. São peças que não têm reposição. Fernando foi um louco por teatro, uma vida de entrega, dirigindo, atuando e produzindo.

Fernanda viveu ao lado de Fernando Torres por 60 anos até sua morte em 2008. Ela não quis se mudar do apartamento onde moraram juntos nos últimos 12 anos, em Ipanema.

— A casa tem muito dele. Poltrona, livros, há toda uma memória aqui dentro que me acompanha com muita emoção. Tem os retratos dele. Converso com Fernando. Mas não sou uma velhinha maluca — diz, com bom humor.

Sobre o filme “Amor”, do austríaco Michael Haneke e as atuações dos protagonistas Jean-Louis Trintignant, de 81 anos, e Emmanuele Riva, de 85 anos, Fernanda diz:

— São extraordinários. Você vê até onde pode chegar uma atuação. Vê a predisposição em mexer, aceitar, entender e se integrar a zonas insalubres.

No filme, Georges e Anne têm seu tranquilo cotidiano radicalmente afetado pela doença dela, que sofre um AVC.

— Não sabia que era nessa dimensão a demonstração do ser humano em seu estertor. Se soubesse, talvez não tivesse ido ver. Mas aí teria perdido tamanho grau de interpretação.

“Ela fala de como é assistir a um filme com a temática do envelhecimento e da doença protagonizado por personagens da mesma geração”, conta Ventura.

— Você dá graças a Deus por não estar naquele estado, mas, ao mesmo tempo, reconhece que de repente talvez possa entrar naquela situação e ficar na área de perigo.

Mas, como diz, nem todos chegam à idade avançada com “pujança de vida”.

— E aí precisam de assistência, de alguém que cuide.

Apoio que muitas vezes não vem. Ela explica que, no caso de uma criança, que ainda não tem domínio de sua estrutura, as pessoas ficam muito felizes em cuidar porque ela está a caminho da vida. Mas, quando se trata de cuidar de alguém que está nos últimos instantes, que só vai piorar, tudo muda. Fernanda reclama desse descaso com a “velhice desvalida”.

— A pessoa não entende que vai para o mesmo lugar. A Humanidade nem sempre tem uma visão da sua falência.

Penso que “a visão” existe e é consciente, entretanto é insuportável, assim como foi para a atriz ver atores de sua geração atuarem em papéis que tratam das mazelas do envelhecimento, pessoas queridas morrendo aos poucos, vendo a conta gotas o falecimento da vida.

Longevidade – sorte ou azar?

A reportagem de Peter Bowes, “A longevidade é necessariamente uma coisa boa?”, lança algumas reflexões, dentre elas: Por que a morte tem de ser adiada o máximo possível? Não há limites? Inventou-se para isso até um tipo de medicina chamada de antienvelhecimento. Uma corrida contra o tempo: ginástica, suplementos, terapia, trabalho e tantas outras atividades que parecem não ter fim.

Susan Jacoby, autora do livro Never Say Die (Nunca Diga Morrer, em tradução literal) afirma: “Nos Estados Unidos, se assume como fato que a longevidade é algo bom”.

“Muito dessa crença irracional de que há coisas que você pode fazer para se assegurar contra a velhice e a doença tem a ver com o fato de que nós, nos Estados Unidos, realmente não gostamos de envelhecer”.

Jacoby, de 67 anos, faz duras críticas ao que chama de “lixo de estilo de vida” e “lixo de suplementos alimentares”.

A verdade, diz a autora, é que “a maior parte das pessoas que vivem além dos 90 irão morrer após passar um período prolongado de incapacidade”.

“Nós estamos acreditando nesse mito de que, como estamos atualmente mais saudáveis do que nunca aos 67 anos, estaremos assim também aos 87 ou aos 97. Mas a verdade é que graças a alguns avanços duvidosos da medicina moderna, que mantém pessoas vivas não importa o quê, é que será preciso refletir mais sobre como cuidar dessas pessoas”.

Quanto aos “lixos”, talvez o pior deles seja a exigência de um social que cultua a juventude, a beleza, peles esticadas, plastificadas e despersonalizadas. Uma pena porque quando vemos Fernanda Montenegro e suas marcas acumuladas nos anos, sentimos prazer em viver…até quando o tempo desejar.

Referências

BOWES, P. (2013). A longevidade é necessariamente uma coisa boa?. Disponível Aqui. Acesso em 01/03/2013.

STYCER, M. (2012). Filme com Fernanda Montenegro é candidato a seriado na Globo, revela diretor. Disponível Aqui. Acesso em 27/12/2012.

VENTURA, M. (2013). Fernanda Montenegro reflete sobre o envelhecimento e a profissão que a mantém altiva aos 83 anos. Disponível Aqui. Acesso em 03/03/2013.

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